26 maio 2022

TECTOS MUDÉJARES DE TORRES VEDRAS

 Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS - 27 MAIO 2022

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OS TECTOS MUDÉJARES DE TORRES VEDRAS 

Joaquim Moedas Duarte 

Professor / investigador de História

 

Nestas semanas mais recentes, depois da paragem de tantos meses, exigida pela pandemia, voltámos a guiar visitas culturais de muitas dezenas de pessoas que vieram até nós para conhecerem o Património edificado torriense. Seja no Centro Histórico, seja noutros locais do concelho, fomos ouvindo apreciações que, de forma espontânea, enalteciam o que se ia observando. “Quantas vezes passei por Torres Vedras e nunca vi esta maravilha!” – referindo os azulejos, a talha dos altares, os embrechados de mármore, as telas pintadas, os vestígios pré-históricos, os claustros. Ou os muito raros tectos mudéjares no Convento do Varatojo e na Igreja de Dois Portos.

Fixemo-nos hoje sobre esta preciosa particularidade do nosso Património

 

A arte mudéjar 

De que estamos a falar? Trata-se de uma herança técnico-cultural da presença muçulmana na Península Ibérica que deixou marcas notabilíssimas em Espanha (Córdova, Granada, Sevilha…) e, em menor escala, em Portugal, onde ganhou maior notoriedade durante o reinado do rei D. Manuel I (1495-1521). “Mudéjares” eram os mouros submetidos ao domínio cristão a partir da guerra da Reconquista. Muitos foram-se deslocando ou fugindo para os territórios ainda sob domínio islâmico, enquanto uma minoria se manteve nos territórios conquistados. Mas, ao contrário do que uma certa visão redutora e simplista da História durante anos propalou, esta convivência teve resultados notáveis e frutuosos. Os Mouros, convertidos ou não ao cristianismo, influenciaram a Ciência Náutica portuguesa, a Geografia e a Cartografia – importantes nos Descobrimentos portugueses – e deixaram marcas indeléveis na criação artística. De tal modo que foi possível aos historiadores de Arte criarem o conceito de “arte mudéjar”, com manifestações mais relevantes na P. Ibérica entre os séculos XII e XVI, nas quais se interpenetram formas de construir e modos decorativos das culturas cristã e muçulmana.

Pedro Dias, na sua tentativa de sistematização sobre este fenómeno, considera que “a arte mudéjar foi uma das mais notáveis criações artísticas peninsulares e um dos nossos grandes contributos à estética europeia”, sublinhando a importância dos contactos pacíficos entre cristãos e muçulmanos durante mais de sete séculos. Tal coabitação tem vindo a ser comprovada no Campo Arqueológico de Mértola, pela equipa dirigida pelo arqueólogo Cláudio Torres. Décadas de investigação mostram que a memória belicista que a historiografia privilegiou – cristãos contra infiéis – é a expressão de uma visão parcelar, veiculada pelo culto da nobreza guerreira e que ignora o quotidiano das populações laboriosas. Este tem sido, também, o magistério incansável do decano dos nossos historiadores, António Borges Coelho.

Os mestres artífices trocavam experiências nos modos de fazer e de construir, que punham ao serviço dos mandantes das obras e dos seus arquitectos. Por isso, tantos testemunhos desta arte mudéjar chegaram até nós. Circunscrevendo-nos ao nosso território concelhio, e antes de falarmos dos tectos, temos exemplos da azulejaria mudéjar – correntemente nomeada de mourisca ou hispano-árabe – em S. Pedro da Cadeira, na Capela da Senhora da Cátela,  e na Capela da Senhora do Amial, na cidade de Torres Vedras.

 

Os tectos de Dois Portos e Varatojo

Comecemos por Dois Portos. Recorrendo à “Base de dados de Património islâmico em Portugal” (em linha), transcrevemos parte da ficha descritiva referente à Igreja de S. Pedro: «(…) o interior conserva a tipologia original, conjugando o gosto classicista, patente nos capitéis, com elementos decorativos mudéjares. Destaque para o tecto em madeira de cedro que cobre dois terços da esteira da nave central, com trabalho de alfarge, constituído por molduras cruzadas em arabescos que formam um entrelaçado de linhas rectas e quebradas, laçaria essa policromada e dourada. Este tecto foi restaurado em 1994. É uma das poucas igrejas do distrito de Lisboa a conservar um tecto de alfarge». A observação das fotos ajuda a esclarecer a descrição.



Igreja de Dois Portos, conc. de Torres Vedras


Quanto ao Convento do Varatojo, o tecto mudéjar é o do vestíbulo onde confluem as entradas para igreja, para o acesso ao claustro e para a capela de Nª Srª do Sobreiro. Sobre ele, diz a referida “Base de dados”: «(…) um tecto de laçaria extraordinariamente simples, plano e com entrelaçado geométrico de ripas finas».

Este tipo de tecto, denominado de “laçaria de madeira”, aparece muitas vezes referido como “de alfarge”, uma designação de origem árabe (al-harj) que significa tecto de madeira lavrada. Trata-se, pois, de um modo decorativo baseado num trabalho fino de carpintaria no qual os artífices muçulmanos eram exímios e cuja arte foi aprendida e adoptada por carpinteiros portugueses.

Refira-se, entretanto, que engenheiros e arquitectos analisam com mais rigor as diversas tipologias de tectos. Chamam “alfarges” aos tectos planos de viga à vista, sem decoração de laço. Quando são recobertos com decoração de laço, usam o termo “Taujeles”. É o caso do “taujel” do Varatojo.



Convento do Varatojo, Torres Vedras


O mais antigo exemplar conhecido de tecto de laçaria é o da capela real do antigo Paço de Sintra, do século XV – enquanto que os de Dois Portos e Varatojo se situam na primeira metade do século XVI. A expressão mais fulgurante destes tectos encontra-se na Sé do Funchal e na igreja matriz de Caminha, também do século XVI. 

Concluindo

Nestas visitas guiadas aos nossos monumentos, consolidamos a ideia de que não basta apreciar as formas artísticas que eles contêm. Se nos limitamos a olhar, não vemos em profundidade, imobilizados numa perspectiva formalista que pode ser esteticamente atractiva mas é limitada e empobrecedora. A verdade é que, por trás das formas há o vasto horizonte da História que nos ajuda a entender melhor o que elas são. A História da Arte não se limita a descrever, ela procura saber as razões e os contextos de cada forma artística. Essa pode ser a lição dos nossos tectos mudéjares.

Nota bibliográfica

MUDÉJAR, Arte – Dicionário de História de Portugal, dir. Joel Serrão, vol. IV, Livraria Figueirinhas, Porto, 1981.

MOREIRA, Maria Irene – Tectos decorativos em madeira em edifícios patrimoniais portugueses. Dissertação de Mestrado, Fac. Engenharia da Universidade do Porto, Julho 2010. ( em linha:  https://repositorioaberto.up.pt/bitstream/10216/59666/1/000143516.pdf acedido em 22 de Maio 2022)

MARTINS, João Carlos S. – Tectos portugueses do séc. XV ao séc. XIX. Dissertação de Mestrado, Instituto Superior Técnico, Lisboa, Setembro 2008 (em linha: https://www.academia.edu/7412056/Tectos_Portugueses_do_Sec_XV_ao_Sec_XIX , acedido em 21 de Maio 2022)

DIAS, Pedro – “Arquitectura Mudéjar Portuguesa: tentaiva de sistematização”. (em linha: http://www.cidehusdigital.uevora.pt/ophir-restaurada/mare-liberum/volume-8/arquitectura-mudejar-portuguesa-tentativa-de-sistematizacao?pag=85 , acedido em 21 de Maio 2022)


(Fotos J. Moedas Duarte)

 

REPRESENTAÇÃO DE UM CASAMENTO [QUASE] À PRIMEIRA VISTA

 

Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS - 29 ABRIL 2022

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Representação de um casamento [quase] à primeira vista

Manuela Catarino

Professora / Investigadora de História

 

 

Nas estórias antigas de infância, princesas e príncipes encontravam-se de forma inesperada. Várias peripécias depois, casavam-se. Inevitavelmente viviam felizes para sempre. Nunca os pequenos ouvintes puseram em dúvida esses sucessos, nem mesmo quando, já adultos, os (re)transmitiram aos filhotes, perpetuando memórias e imaginação.

A História conta-nos outras realidades: nas memórias de infantas destinadas a contrair matrimónio com jovens completamente desconhecidos, em nome de interesses económicos, políticos e estratégicos que a conjuntura das casas reinantes, a que pertenciam, desenhava a seu bel-prazer, o final não foi sempre afortunado.

Recuemos à primeira metade do século XV. Reinava então D. Duarte. Na terça feira amanhecente três oras depois da meia noite, 18 de Setembro de 1434, a rainha Leonor de Aragão dava à luz, no paço da vila de Torres Vedras, uma menina a quem foi dado o nome de Leonor. A infanta perderia o pai quatro anos depois. A segunda perda viria a sofrê-la, estando doente, no paço de Almeirim, quando a mãe optou pelo exílio em Castela, em 1440, ficando aos cuidados de D. Guiomar de Castro.

Coube ao tio D. Pedro, duque de Viseu, assegurar a regência do reino e ter a seu cargo o acompanhamento dos infantes: o primogénito e herdeiro Afonso, bem como Fernando, Leonor, Catarina e Joana, sobreviventes dos nove que constituíram a prole régia. As jovens infantas viveram em casa própria e começaram a ser delineadas futuras estratégias matrimoniais, perspetivando-se a união de Leonor ao herdeiro do trono da França ou ao germânico Frederico, rei dos Romanos. Mas os tempos que se aproximavam seriam conturbados. Em 1449, o confronto de Alfarrobeira põe fim à vida de D. Pedro marcando definitivamente a assumpção do poder pelo jovem rei Afonso V, que decidirá o enlace da irmã.

Primeiro, foi o retrato da jovem infanta. Uma embaixada trouxe um pintor, ao reino português, cerca de 1448, para o efeito. Depois a decisão. A proposta oficial de Frederico III era formalizada nos inícios de 1450. Desenrolaram-se, de seguida, os procedimentos diplomáticos – o contrato de casamento foi estipulado a 10 de Dezembro de 1450, em Nápoles, perante seu tio D. Afonso, rei de Nápoles e Aragão.


Retrato de Leonor de Portugal, pintura anónima de princípio do séc. XVI


A jovem Leonor terá começado a aprender a língua alemã e a preparar-se para a vida que a esperava bem longe do reino em que nascera. Em Março de 1451, o rei dos Romanos enviou dois embaixadores – Mestre Tiago Moetz e Nicolau Lanckman de Valckenstein – para, em Portugal, desposarem em seu nome a infanta portuguesa, o que virá a ocorrer no início de Agosto, na cidade de Lisboa. Vários são os relatos, quer do lado português, quer dos enviados alemães, descrevendo as opulentas festas que abrilhantaram acontecimento tão significativo.

Mas era necessário preparar a partida de Leonor. Durante longos dias, de 13 a 25 de Outubro de 1451, realizaram-se banquetes, representações teatrais, desfiles, danças, justas, jogos vários, touradas, caçadas, ofícios religiosos. Quase um verdadeiro conto de fadas, se diria, se estivéssemos no reino da imaginação. Porém, bem concreto nos custos que haviam levado Afonso V a reunir Cortes, em Santarém, para lançar sobre o povo dois pedidos e meio e dízima e meia ao clero, a fim de fazer face às despesas avultadas com o casamento e dote da noiva.

O trajecto estava definido: de Lisboa, por mar, até ao porto de Siena como solicitado no contrato nupcial. As peripécias vieram intrometer-se e os ventos contrários atrasaram a partida. No Mediterrâneo não faltaram ataques de piratas, tempestades múltiplas, que expuseram Leonor e a ampla comitiva a diversas e inusitadas experiências. Saídos em finais de Novembro, aportaram a Livorno a 1 de Fevereiro de 1452, após atribulada viagem marítima.

Informado Frederico, enviou uma comitiva que escoltou Leonor e seu séquito a Pisa onde se recompuseram antes de prosseguir caminho até Siena. Aí se viram os esposos, pela primeira vez, a 24 de Fevereiro de 1452. Desse encontro existem vários relatos, tanto portugueses como alemães, e, principalmente, uma representação pictórica, posterior, muito interessante: nela se vê a jovem desposada, de 17 anos, a ser apresentada pelo bispo de Siena, Eneas Silvio Piccolomini, a Frederico, e as saudações que trocaram perante os membros das respectivas comitivas. O contraste físico não pode ser mais evidente. A jovem de estatura mediana, olhos muito negros e luminosos, boca pequena, faces harmoniosamente rosadas, o marido, de 36 anos de idade, ao que parece com um porte que ultrapassava os dois metros de altura, detentor de carácter que viria a pautar a vivência conjugal.

Mas o casal precisava ainda de um momento especial. Separadamente, partiram para Roma onde celebrariam na igreja de S. Pedro o casamento sob a bênção do papa Nicolau V a 16 de Março. Três dias depois, voltaram à mesma igreja para que fosse feita a coroação de Frederico como imperador e de sua mulher como imperatriz. O cerimonial teve o máximo esplendor e a consagração pelas mãos do papa.

Faltava a lua de mel. E, mais uma vez, separadamente, os dois esposos partiram para o reino de Nápoles onde o tio D. Afonso organizou festejos grandiosos embora se estivesse no período quaresmal. Foi no domingo de Pascoela, que o imperador decidiu consumar o casamento. Os relatos das fontes são elucidativos: depois de ter sido levada ao quarto nupcial e, publicamente, ter trocado um beijo com o esposo, Leonor regressou à sua câmara. Vieram buscá-la dois condes para a conduzir ao leito nupcial. Recusou-se acompanhá-los, exigindo alguém de estrato social condizente com o seu estado. Por cinco ou seis vezes novas embaixadas se deslocaram entre um quarto e outro, por ela sucessivamente recusadas. Frederico acabou por vir, em pessoa, buscá-la…

O imperador partiu para Roma e Leonor ainda permaneceria em Nápoles até 24 de Abril. Reunir-se-iam em Veneza para finalmente se dirigirem para Neustadt, onde chegariam a 19 de Junho. Viveriam um casamento de cerca de quinze anos.



Apresentação de D. Leonor a Frederico III em Siena.

Fresco de Bernardino di Betti, chamado Pintoricchio.

Libreria Piccolomini, Catedral de Siena.


Felizes para sempre?

Mais uma vez as fontes, em particular as cartas que D. Lopo de Almeida escreveu a D. Afonso V dando notícias minuciosas do que a irmã vivia, no novo reino, não são muito abonatórias para o imperador. A imperatriz conheceu o travo da guerra e das revoltas que se desencadearam contra o Sacro Império Romano Germânico a que se somaram as perdas de três, dos cinco filhos, que foi gerando. Acresceram as ausências da maior parte dos membros portugueses do seu séquito, dado que Frederico terá considerado constituírem um gravoso encargo financeiro a suportar. Restaram-lhe dois filhos vivos – Maximiliano, futuro imperador e Cunegundes, ainda menina – para perpetuarem a sua memória.

No mesmo mês de nascimento se finou, em 1467, fizera 33 anos. Escolheu, como última morada, o local onde havia enterrado os filhos, no coro do convento cisterciense, em Neustadt. Ali, decerto saudosa de Portugal, a sua história chegou ao fim.

 

Referências Bibliográficas

 Leonor de Portugal, imperatriz da Alemanha. Diário de viagem do embaixador Nicolau Lanckman de Valckenstein, edição do texto latino e tradução de Aires A. Nascimento et alli. Lisboa: Edição Cosmos, 1992.

ALMEIDA, Adriana R. de.”Perspectiva sobre a história das emoções. O casamento de D. Leonor de Portugal com o imperador Frederico III” in RODRIGUES, Ana Maria; SILVA, Manuela Santos; FARIA, Ana Leal de (Coords.) – Casamentos da Família Real Portuguesa: diplomacia e cerimonial. Vol.1. Lisboa: Círculo de Leitores, 2017, pp.253-287.

COELHO, Maria Helena da Cruz.” A política matrimonial da dinastia de Avis: Leonor e Frederico III da Alemanha”. Revista Portuguesa de História. t. XXXVI. vol.1. (2002-2003), pp.41-70.

DUARTE, Luís Miguel. D. Duarte. Requiem por um rei triste. Temas e Debates, 2007.


IMPORTÂNCIA E DEGRADAÇÃO DOS CENTROS HISTÓRICOS – o caso de Torres Vedras

 

Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS - 25 MARÇO 2022

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Importância e degradação dos Centros Históricos 

O caso de Torres Vedras

Joana Santos Coelho

Museóloga

 

A 28 de Março celebra-se o Dia Nacional dos Centros Históricos. Esta data é assinalada desde 1993 e tem como objetivo principal chamar a atenção para a preservação e valorização dos mesmos. Foi esta a data escolhida por ser o dia do nascimento de Alexandre Herculano (1810-1877), que foi um grande defensor do património cultural português.

Independentemente do seu estado de conservação, o centro histórico é, por excelência, o lugar da história e da memória coletiva das cidades. A sua carga simbólica está na génese da identidade das cidades, representando valores históricos, imagéticos e também afetivos. Um centro histórico não é apenas uma zona antiga da cidade. Para ser classificado como tal, tem de apresentar as seguintes características: antiguidade secular de edifícios singulares; homogeneidade urbanística e arquitetónica; simbolismo cultural. O património material, e também o imaterial, são a representação máxima da memória do lugar. Portanto, os centros históricos consistem numa herança insubstituível que importa preservar através, por exemplo, da sua salvaguarda e integração na vida coletiva dos cidadãos.

O Centro Histórico de Torres Vedras abrange cerca de 18,9 hectares, o que corresponde aproximadamente ao território que outrora fora rodeado (talvez na totalidade) por uma muralha. Foi ocupado sucessivamente desde a Idade do Ferro até aos dias de hoje, com oscilação na sua densidade populacional. Ao contrário de muitas cidades, Torres Vedras não cresceu de forma radial (um círculo a partir do ponto mais antigo). Foi aquando da ocupação romana da cidade que foram traçadas 2 importantes vias reguladoras (cardus [N-S] e decumanos [E-O]), a partir das quais a urbe torriense se desenvolveu. Atualmente o decumano corresponde à ligação entre a Rua Cândido dos Reis até à Rua de Santo António, e o cardo à Rua da Espora Dourada. A malha urbana da cidade consolidou-se durante a Idade Média, verificando-se uma construção orgânica e desorganizada apenas na encosta do castelo. Em destaque no tecido urbano da cidade, encontram-se vários exemplares notáveis de Património edificado, alguns classificados como Monumentos Nacionais(MN) ou Monumentos de Interesse Público (MIP): Chafariz dos Canos (MN), Igreja de S. Pedro (MN), Portais românicos da Igreja de Santa Maria do Castelo (MN), Igreja de Santiago (MIP), Igreja da Misericórdia (em processo de classificação) e os quatro Passos Processionais (de interesse concelhio mas ainda não classificados). Para além do seu valor estético, todo o conjunto importa também e sobretudo pelo testemunho das vivências da cidade ao longo dos tempos. Porém, a essência do centro histórico não são só os monumentos históricos. Também dela fazem parte a habitação, o comércio e os espaços públicos como os jardins e as praças. Todo o conjunto representa a identidade do lugar e por esse motivo importa preservar. No entanto, a degradação dos centros históricos é um cenário infelizmente comum. Muitos dos núcleos antigos encontram-se decadentes e despovoados devido à sua estagnação.

A partir da segunda metade do século XX, no seguimento das transformações do pós-guerra, surgiram novas centralidades nas cidades, movendo os cidadãos para as suas periferias. Tratou-se de uma mudança na organização económica e social, logo também nos modos de produção e apropriação do território. O aumento de população e a massificação do automóvel, assim como o progresso da tecnologia dos transportes e comunicações, proporcionaram a reestruturação das cidades. Este afastamento orgânico da população do centro da cidade para originou consequentemente o enfraquecimento do comercio local. O processo de decadência do centro histórico começa portanto com a destruição dos seus principais usos: a habitação e o comércio. A rua, os largos, a loja, a mercearia, ou o cinema, são substituídos pelas grandes superfícies comerciais, e a sociedade de proximidade é substituída pela sociedade de consumo. Para além dos motivos já apontados, também a falta de planeamento urbano contribuiu para a degradação dos centros históricos.

No caso de Torres Vedras aconteceu de forma gradual a partir dos anos 80 do século passado. Em 1979 passa de vila a cidade, em 1985 Portugal adere à CEE, e neste período o poder de compra dos portugueses aumentou de forma geral. Consequentemente aumentou também a construção de habitações, nas periferias, e depois o comércio. Em 2007 é dado ainda um duro golpe na vitalidade do centro histórico de Torres: a abertura do Arena Shopping. Não ignorando estes acontecimentos, importa referir que a câmara municipal, à semelhança de outras no país, também tomou medidas para combater o abandono do centro histórico. Uma delas foi, por exemplo, o programa “Torres ao Centro” implementado a partir de 2009, baseado em políticas de reabilitação integradas, seguindo princípios culturais e socioeconómicos. A par da reabilitação de alguns edifícios (púbico e privados), surgiram também novas iniciativas que procuraram promover a qualidade do centro histórico enquanto espaço público: zona pedonais, esplanadas, concertos ao ar livre, ciclovias, parques de estacionamento, a instalação de equipamentos municipais (como por exemplo a biblioteca, a Porta 5, o LabCenter ou a Galeria Municipal), a Feira Rural, a Rota dos Petiscos, a Moda em Movimento, etc. Apesar dos esforços, será que tem sido feito o suficiente?

É certo que os centro histórico não devem ser conservados como se de museus ao ar livre se tratasse, no entanto, devem perpetuar o sentido de agregação da população. Importa serem integrados na cidade como elementos geradores de vida coletiva, apropriados pela sociedade. Os centros históricos são um autêntico património social e cultural deixado pelos nossos antepassados e, portanto, é da responsabilidade das gerações contemporâneas assegurar a sua transição e proteger a sua identidade.

Convite ao embelezamento da cidade

Um dos sinais evidentes do abandono dos centros históricos são os graffiti espontâneos e tags. Estes, apesar de não danificarem a estrutura dos edifícios, interferem na sua estética e no lugar em que se inserem. São o reflexo do ambiente social envolvente, em degradação, e infelizmente muito comuns nos centros históricos, tal como no centro torriense. A resolução desta problemática urbana passa pela remoção dos graffiti mas também pela sensibilização da população. É neste sentido que a Associação do Património Cultural de Torres Vedras, em conjunto com a Câmara Municipal e a Associação dos Amigos de Torres, está a planear uma atividade: durante uma manhã (em data brevemente a definir) os torrienses serão convidados a devolver o brilho a algumas ruas do seu centro histórico. A atividade consiste numa ação de voluntariado em que se procura preservar o património, aprender mais sobre o mesmo, e também envolver a comunidade desenvolvendo nela o sentimento de pertença e de respeito pelo espaço comum. Nos canais próprios das instituições envolvidas será divulgada em breve a data da atividade, que visa assinalar o Dia Nacional dos Centros Históricos, assim como outras informações úteis.

Bibliografia:

SILVA, C. G. (2008). Torres Vedras, Antiga e Medieval. Lisboa: Edições Colibri / Câmara Municipal de Torres Vedras.

BAPTISTA, André (2013). O lugar como simbiose – Centro Histórico de Torres Vedras (Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura). Lisboa: Universidade Lusófona.

ROCHA, Manuel (Eds.) (2011). Actas do Seminário Centros Históricos: passado e presente. Porto: Departamento de Ciências e Técnicas do Património, FLUP

FERRÃO, J., SALGUEIRO, Teresa Barata (2005) Geografia de Portugal Vol. 2 – Sociedade, Paisagens e Cidades. Lisboa: Círculo de Leitores.



                                                      Rua 9 de Abril, Torres Vedras, em 1920.

                                                  (Imagem do arquivo de Adão de Carvalho)

 



 Rua 9 de Abril, Torres Vedras - atualmente.

                                                          (Imagem de www.torresvedrasweb.pt)

 


                                              Rua da Cruz, Torres Vedras - atualmente



12 março 2022

ISA PATRIMÓNIO 2022

 FORMAÇÃO E ACOMPANHAMENTO
A partir do próximo dia 14 de Março a Associação do Património vai colaborar, novamente, com o projecto ISA PATRIMÓNIO, uma excelente iniciativa da Câmara Municipal de Torres Vedras que teve início em 2005. É uma tarefa que tem vindo a ser desempenhada, desde 2012, por Joaquim Moedas Duarte, membro da Direcção da Associação do Património de Torres Vedras (ADDPCTV).
Todos os anos se renova a equipa de participantes, pessoas seniores, e nós procuramos ajudá-las a desempenharem melhor o seu trabalho. Para isso, faremos uma sessão inicial, no dia 14, com o grupo de 20 pessoas, em sala e, posteriormente, sessões nos próprios locais, com cada uma das dez equipas, constituídas por dois elementos, que irão assegurar a abertura diária desses espaços.
O projecto que, em 2005, teve início em quatro igrejas - Graça, Misericórdia, S. Pedro e Castelo - tem vindo a alargar-se e este ano abarca 10 igrejas, a saber:
Na cidade: Graça, Misericórdia, S. Pedro, Santiago, Amial e Castelo.
No concelho: Varatojo (convento), Turcifal, Santa Cruz e Sirol (Dois Portos).
Nestas singelas acções de formação temos como objectivo principal incutir nas pessoas o gosto pelo conhecimento mais profundo dos espaços em que vão estar ao longo deste ano. Não serão guias turísticos, agentes religiosos ou guardas vigilantes. Vão desempenhar o utilíssimo papel de mediadores activos do nosso Património, ajudando os visitantes a compreenderem melhor o lugar onde estão.
A grande novidade deste ano é a inclusão da Ermida de Nª Srª da Purificação, do Sirol., um espaço pouco conhecido dos torrienses. A partir de 1 de Abril, estará aberto todos os dias, excepto Segunda feira, das 10h. às 13h. e das 14h. às 17h.
Aqui ficam algumas imagens daquele monumento, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1967, bem como a página PATRIMÓNIOS no Badaladas de 26 de Junho de 2020.
(Fotos de Joaquim Moedas Duarte)















Inscrição na pedra de fecho do arco que dá entrada para a galil





tras pessoas

03 março 2022

HISTÓRIA DE UMA IMAGEM - Nª SRª DOS ANJOS, CARVALHAL


Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS - 25 FEVEREIRO 2022


Nª Srª DOS ANJOS, DO CARVALHAL

HISTÓRIA DE UMA IMAGEM

Joaquim Moedas Duarte (texto e fotos)

 

Em Abril do ano passado, nesta página PATRIMÓNIOS, falámos de um “hospital de bens culturais” chamado “Salvaguardar”, a propósito da imagem de Nossa Senhora dos Anjos que para ali fora levada, a fim de ser restaurada. Soubemos, há umas semanas, que a imagem regressara à capela do Carvalhal, freguesia do Turcifal. Lá a fomos ver, na companhia do Padre Paulo, a quem felicitámos pela iniciativa, felicitação extensiva à comunidade local e à Câmara Municipal de Torres Vedras que contribuíram com donativos.

A repetida referência a esta imagem, na página sobre o nosso Património, parece-nos relevante na perspectiva histórica, artística e patrimonial. Uma imagem, uma igreja, um túmulo e tantos outros bens materiais são testemunhos do Tempo que passou, habitado por gerações sucessivas. São memórias que dão espessura ao nosso próprio Tempo, que lhe conferem identidade cultural e nos ajudam a compreender a nossa forma de habitar o mundo como comunidade humana.

Esta imagem desafia-nos a entender o percurso histórico que a trouxe até aqui. É o que vamos tentar. 

DÁDIVA DA INFANTA DONA MARIA (1521 – 1577)[1]

Torres Vedras foi pertença de rainhas e princesas portuguesas nos tempos da primeira e segunda dinastias. No terceiro quartel do século XVI era donatária a infanta D. Maria,  filha do rei D. Manuel I e da sua terceira consorte, D. Leonor de Áustria, irmã do imperador Carlos V. Em rigor, era “senhoria donatária dos direitos reais”, de que usufruía por mercê régia. Filha do mais rico monarca da época e da rainha originária dos poderosos Habsburgos, a infanta D. Maria era senhora de uma enorme fortuna. Além de Torres Vedras, possuía também Viseu, que acumulava com privilégios e rendas de proveniência diversa. Em tempos de ausência de Estado como entidade propiciadora de financiamentos às comunidades locais, eram os donatários que acorriam aos pedidos das populações para suprir carências e necessidades. Foi assim que a Infanta D. Maria financiou a obra urgente de restauro do Chafariz dos Canos, como o atesta a lápide que encima o arco central, com a data de 1561.

Vivendo em pleno lançamento da Contra-Reforma, – de que foi, juntamente com seu irmão D. João III, pertinaz defensora – esta Infanta aplicou grande parte da sua fortuna no estabelecimento e financiamento de instituições religiosas católicas – conventos, paróquias, igrejas – e apoios a órfãos, viúvas e carenciados, num tempo em que só a caridade cristã e o mutualismo corporativo supriam a inexistência de apoios sociais. Nesta linha, ela fundou, em1570, o convento de Nossa Senhora dos Anjos, no lugar do Barro, destinado a frades franciscanos arrábidos. A história deste convento é longa e dela pouco diremos. Interessa-nos, para já, a imagem da sua padroeira, de que falámos no início deste texto. Um opúsculo, publicado em 1910, que se baseia em informações do cronista dos Arrábidos,  Frei António da Piedade (1728), relata assim: “(a Igreja) foi dedicada a Nª Srª dos Anjos, título de que era sobremaneira devota a dita infanta D. Maria, que a essa conta ordenou que o mais perito escultor que então houvesse em Lisboa fizesse com todo o primor da arte uma imagem de Nª Srª, a que servisse de trono uma nuvem de anjos e serafins, que a inculcasse como rainha e soberana de todos”.[2]

Segundo o investigador Ruy Ventura, o autor mais provável desta obra terá sido o flamengo Estácio Matias, a quem a infanta encomendou também outras imagens.

A imagem que hoje conhecemos parece diferente da original. Eis o que diz o cronista jesuíta que a viu em 1860 e a descreve em 1910: “A imagem é de talha, de madeira, e de tamanho natural, em proporções de uma mulher de estatura regular (…), de excelente escultura, estofada e com as mãos postas levantadas à altura do pescoço, mas mais para o lado esquerdo, e acompanhada de dois anjos, que de uma e outra parte mostram voarem com ela ao céu”. Logo de seguida, acrescenta: “Infelizmente, porém, houve quem se lembrasse de mandar, seguramente com boa intenção, aguarentar a roupagem da senhora, tirar-lhe o manto esculturado que tinha e era de boa talha, assim como a peanha, em que lhe servia de trono uma nuvem de anjos e serafins(…). De modo que ficou a imagem em corpo, não se podendo já expor em público, se não vestida de manto postiço, que se lhe põe quando se coloca no camarim (tribuna do altar-mor)”. Desconsoladamente, o padre jesuíta comenta: “A imagem não é da Senhora dos Anjos que aqui conhecemos em 1860 e que a infanta D. Maria mandara com tanto empenho fazer em Lisboa com o possível primor. Se ao menos uma reprodução fotográfica nos tivesse ficado dela! Mas nem disso houve lembrança.”

Quer dizer: aquela é uma imagem truncada, desapossada dos acessórios que lhe conferiam imponência e majestade. De facto, foi essa a impressão que tivemos, quando a vimos há dias, e que o cronista tão bem expressou com aquela frase: “imagem em corpo, não se podendo já expor em público, se não vestida de manto postiço”. Não podemos concluir que a imagem actual não seja a que foi mandada fazer pela infanta dona Maria, mas a verdade é que a eliminação do manto de madeira e dos anjos a tornaram diferente aos olhos de quem a admirara completa. Também é esse o entendimento das comissões de festas do Carvalhal, como verificámos, em 2014, nos preparativos da procissão da festa anual, em 15 de Agosto. A foto mostra a imagem num andor com pequenos anjos aos seus pés, e um manto em tecido que quase a tapa por completo.



VICISSITUDES DO CONVENTO DO BARRO

 história desta imagem cruza-se, naturalmente, com a própria história do convento do Barro. História secular, marcada por guerras, convulsões políticas, desgastes naturais das tempestades e dos terramotos. O pequeno edifício inicial de 1572, não resistiu às intempéries e foi necessário reconstrui-lo em 1619.[3] O terramoto de 1755 provocou estragos assinaláveis. Em 1834, com a extinção das Ordens Religiosas, o Convento do Barro foi nacionalizado e vendido em hasta pública. Alguém providenciou para que a imagem de Nª Srª dos Anjos fosse trazida para a Igreja de S. Pedro, em Torres Vedras. O novo proprietário deixou o edifício ao abandono até que, em 1857, o vendeu ao Marquês de Valada, cuja família tinha profundas ligações afectivas ao convento. Três anos depois, este cedeu-o, a pedido, aos Jesuítas que, depois de algumas obras urgentes, ali instalaram um colégio de órfãos e o noviciado da Companhia. Em 1860 o convento do Barro foi reaberto e a imagem da Virgem dos Anjos regressou à sua igreja. Em 1910, com a implantação da República, os Jesuítas foram expulsos do convento e a imagem, por devota precaução, foi levada para a capela do Carvalhal, onde se conserva até hoje. Em 1914, o convento do Barro passou a ser o Asilo Elias Garcia, até 1952, e, um ano depois transformou-se no Instituto do Bom Pastor para crianças, idosos e doentes mentais, dirigido por Irmãs Religiosas do Bom Pastor. Em Julho de 1953, esta instituição abandonou as instalações, devido ao precário estado de conservação, as quais passaram para o Ministério do Interior que, depois de grandes obras de adaptação, as entregou, em 1956, ao Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos que aqui instalou um sanatório.

Por que motivo a imagem foi para a capela de Nª Srª da Quietação do Carvalhal, em 1910? O opúsculo do P. A. Cordeiro, que atrás citámos, invoca uma referência do Santuário Mariano, de Frei Agostinho de Santa Maria, na qual se recorda a devoção dos habitantes do Carvalhal a uma imagem de Nª Srª que estava no Barro e à qual deram o título de Senhora da Saúde. Hipótese a estudar. Seja como for, é a comunidade cristã do Carvalhal que guarda, preserva e venera a secular imagem que atravessou os séculos e chegou até nós com a invocação de Nª Srª dos Anjos, dádiva de uma infanta real no século XVI.



[1] Seguimos de perto as abundantes e rigorosas informações de: D. Maria (1521-1577): uma infanta no Portugal de quinhentos, Paulo Drumond Braga, Edições Colibri e Câmara Municipal de Torres Vedras, Lisboa 2012; A Infanta Dona Maria de Portugal(1521-1577). O Mecenato de uma Princesa Renascentista, Carla Alferes Pinto, Lisboa, Fundação Oriente, 1998.

[2] Cf.: P. António da Costa Cordeiro S.J., Jubileu do Collegio do Barro (1860-1910) – Notícia histórica da sua fundação e ministérios até o anno presente, Braga, 1910.

[3] Cf.: Anotadores do livro de Manuel Agostinho Madeira Torres, Descrição histórica e económica  da vila e termo de Torres Vedras, 2º Ed., Coimbra, 1862, p. 141 e seguintes.



Capela do Carvalhal (Freg. Turcifal, concelho de Torres Vedras)




28 janeiro 2022

LOJAS COM HISTÓRIA - Página PATRIMÓNIOS - 28 JANEIRO 2022

 

Lojas com História

Pedro Fiéis⁕

Professor de História

 

Os monumentos são naturalmente o espelho maior da história de uma cidade, no entanto, atualmente o Património embrenha-se por outras vertentes que o tornam mais abrangente. Não é meramente manter vivo o passado, ou sequer agarrarmo-nos à ideia do antigamente, é sim projetar uma identidade para o futuro, recolher memórias daquilo que fomos, para que gerações futuras conheçam de onde vêm. A necessidade de uma identidade própria advêm de um mundo global em que vivemos e de uma economia demasiado alicerçada no turismo, tendo a sua massificação alterado de vez a face dos Centros Históricos. O espaço urbano transforma-se fruto das necessidades contemporâneas e novas centralidades são criadas, mas, simultaneamente, não se pode pretender ter o velho casario apenas como cenário teatral, é necessário devolver-lhe vida, ou assistir impávidos à sua ruína.

Assim, o projeto “Lojas com História” surgiu em Lisboa, em fevereiro de 2015, dada a premente necessidade de salvaguardar esse símbolo urbano irrepetível e de o dinamizar face à concorrência e fatores de atração das grandes superfícies. Tratava-se de proteger todo esse importante tecido económico da especulação imobiliária e, ao mesmo tempo, divulgar o extenso património, com uma história igualmente única, de atividades artesanais que dificilmente ressurgem num panorama de marcas internacionais e de produtos descartáveis.

Uma estagnação em décadas recentes levou ao lento declínio de muitos, uns fruto de uma obsolescência da qual não souberam sair, outros porque a concorrência das tais marcas internacionais era demasiado forte para lhe poderem resistir, perdendo-se desta forma toda uma importantíssima herança e, principalmente, uma memória afetiva que intrinsecamente nos ligava a tais locais. A muitos surgirá de imediato a lembrança de um local, seja pelo que lá se vendia, seja pelos cheiros ou até pelo peculiar mobiliário.

Vivemos, repito, num planeta em profunda transformação, daí o programa anunciar no preâmbulo a necessidade de “preservar e salvaguardar os estabelecimentos e o seu património material, histórico e cultural” e por outro lado, “dinamizar e reativar a atividade comercial, essencial para a sua existência”, ou seja, não é somente manter artificialmente uma loja, é dar-lhe uma perspetiva de futuro assente no seu passado.

Um passo fundamental foi a Lei n.º 42/2017, de 14 de junho. Pegando naquilo que já era o trabalho de base feito em Lisboa, ficou consagrada, por exemplo, a proteção no arrendamento por um período transitório de dez anos, a isenção de IMI para os proprietários ou a dedução em sede de IRS de despesas com obras de conservação, acrescidas de 10% do valor gasto.

Por ser uma das entidades reconhecidas por esta lei como podendo iniciar o processo de classificação, desde há algum tempo que a Associação Defesa do Património vem a realizar um levantamento deste comércio de rua, ícone daquilo que outrora foi uma das grandes atividades económicas da urbe, marca da ruralidade do território, miscelânea de repositórios, onde tudo se vendia, onde para tudo havia um conselho amigo, sabedoria que se transmitia a cada cliente.

Muito já se perdeu, outro tanto corre o perigo de desaparecer, esse pouco que resta é crucial defender. Numa parceria com a OesteCim e a Câmara Municipal, foram selecionados três espaços que cumprem largamente os pressupostos contidos na lei, como linha de frente para futuras adesões, nomeadamente terem mais de 25 anos de existência, o significado para a história comercial da cidade, ou a salvaguarda e divulgação de acervo e espólio próprio.

Esta é uma corrida contra o tempo, assim estamos cientes, ao mesmo tempo esperançosos, pois se for cumprido o prometido apoio de modernização administrativa, ao nível de obras e uma boa divulgação, com roteiros somente ligados a este tipo de comércio, acreditamos que poderão ter futuro, quer relacionado com as novas gerações, quer com o dito turista, continuando com a venda de produtos únicos, de uso atual, marcas que cumprem as regras da produção local e da sustentabilidade, todo um novo paradigma que nos tem de nortear.

Será este, assim se espera, um primeiro passo que motive outros proprietários a aderirem. Brevemente também as Juntas de Freguesia, bem como outras Associações locais com um importante papel nas aldeias, serão igualmente chamadas a motivarem novas candidaturas, com a ressalva de – o que não funciona, dificilmente encontrar neste programa uma boia de salvação.

Pode-se consultar online a página: https://www.comerciocomhistoria.gov.pt/, com informações variadas, incluindo a legislação, faltando ainda a criação de um dos grandes pressupostos do programa, o Inventário Nacional Comércio com História, mais uma importante ferramenta na sua divulgação. Não abandonemos este Património relevante.

 

⁕ Presidente da Direcção

da Associação para a Defesa e Divulgação

do Património Cultural de Torres Vedras