30 setembro 2020

1º CONGRESSO DAS ASSOCIAÇÕES DO PATRIMÓNIO DO OESTE - 3 de OUTUBRO 2020

 



O associativismo tem vindo a desempenhar um papel importante na defesa do património nacional.

O I Congresso das Associações de Defesa do Património do Oeste pretende dar a conhecer o trabalho desenvolvido pelas associações do Oeste e traçar um caminho comum na defesa do património da região.

Por razões que se prendem com a actual situação de pandemia, o congresso não será publico mas poderá ser seguido online através do site da Associação Patrimonium – Centro de Estudos e Defesa do Património da Região de Peniche:

 

Programa

Inicio - 15:00

Presidentes de mesa:

Luís Rendeiro - Presidente da PATRIMONIUM

Aida Rechena - Museu Nacional Resistência Liberdade - Peniche

 

ADDPCTV - 15:10

Joaquim Moedas Duarte

 “ PATRIMÓNIO INDUSTRIAL, MEMÓRIAS E IDENTIDADE COMUNITÁRIA ”

 

CEHL - 15:25

Teresa Faria

“ O CONTRIBUTO DUMA ASSOCIAÇÃO NA PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA COLETIVA.“


ARMÉRIA - 15:40

Jorge Maia

“ UTOPIAS PATRIMONIAIS ”

 

CEPAE - 15:55

Adélio Amaro

“ PATRIMÓNIO EM REDE ”

 

 Tempo pergunta resposta

 Coffee Break – 16:20

 

Aspiring Geoparque Oeste - uma candidatura à UNESCO – 16:30

Rute Torres

“ APRESENTAÇÃO DO PROJECTO, GEOCONSERVAÇÃO E  GEOSITIOS ”

 

Património Histórico - Grupo de Estudos – 16:45

Joana Beato Ribeiro

“ PATRIMÓNIO HISTÓRICO – GRUPO DE ESTUDOS E FERNANDO DA SILVA CORREIA ”

 

PATRIMONIUM – Centro de Estudos do Património da Região de Peniche – 17:00

Adriano Constantino

“ PATRIMONIUM, DESDE DE 1997 EM PROL DO PATRIMÓNIO ”

 


Investigador/Antropólogo – 17:15

André Camponês

“ A SALVAGUARDA DO PATRIMÓNIO CULTURAL EM PENICHE E ALCOBAÇA NO FINAL DO SÉCULO XIX: O PAPEL DO ASSOCIATIVISMO E DOS ERUDITOS PORTUGUESES ”

 

Professor – 17:30

 Francisco Fidalgo Félix

“ ORGANIZAÇÕES LOCAIS, REDES SOCIAIS E VALORIZAÇÃO DO PATRIMÓNIO NATURAL ”


Tempo pergunta resposta

Encerramento- 18:00

PÁGINA "PATRIMÓNIOS" NO JORNAL BADALADAS, 25 SETEMBRO 2020

 

PATRIMÓNIOS  | 25 SETEMBRO 2020

 


TODOS OS ANOS EM SETEMBRO

 


                    

A Associação do Património de Torres Vedras participa, há uns bons anos, nas Jornadas Europeias do Património que se realizam sempre em Setembro. Este ano decorrerão nos dias 25, 26 e 27. Cabe à Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) coordenar as iniciativas que se organizam por todo o país. O tema deste ano é “Património e Educação”. A página web da DGPC explica: “Pretende-se com este tema sensibilizar para o papel do património na educação e para o papel da educação no património, para a riqueza e para a complexidade desta relação – na literatura, nas artes, nos monumentos, na dança, no teatro, na paisagem, nos jogos, nos museus, na fotografia, nos sítios arqueológicos ou na música, entre muitos outros”.

Infelizmente, as condições restritivas impostas pela pandemia da Covid–19 condicionaram a nossa participação nas Jornadas deste ano. Bem gostaríamos de organizar um acontecimento público como em anos anteriores – caminhada temática, ou visita guiada, ou colóquio / conferência ou o que quer que a criatividade e as circunstâncias permitissem. Não foi possível e por isso não constamos da lista nacional de iniciativas. Mas estamos presentes. Esta página PATRIMÓNIOS, que vimos publicando todos os meses no Badaladas, é, afinal, a forma de participação mais adequada ao tema “Património e Educação”. Quando aqui abordamos o nosso Património local, fazemo-lo com intuitos educativos, na perspectiva da Educação para todas as idades. Inspirando-nos no Latim de origem, a palavra “educar” aponta para um movimento (educere) para fora. É isso que o nosso Património nos pede: olhar para além de nós e entender o valor dos vestígios do passado.

Vem a propósito contar o que se passou há uns anos numa paróquia do nosso concelho. As pessoas encarregadas da limpeza do cartório paroquial depararam-se com uns livros antigos, cheios de pó, quase ilegíveis, a cheirar a mofo. Juntaram-nos ao lixo das varreduras e, no fim do dia, fizeram uma fogueira no pátio. Salvaram-se alguns que pareciam mais conservados. Alguém avisado deu conta disto e perguntou às diligentes encarregadas da limpeza o que tinha acontecido. “Eram papéis velhos, sem préstimo” – foi a resposta inocente.

Afinal, o que tinha desaparecido irremediavelmente eram registos cartoriais de enorme valor documental: baptizados, óbitos, actas de confrarias, livros de visitações, despesas de obras, etc. Livros seculares que uma leitura paleográfica competente desvendaria, trazendo até nós pedaços de vidas passadas e informações preciosas sobre a História Local. Assim desapareceram parcelas únicas da memória social que nos ajudariam a entender melhor o presente em que vivemos.

Este não foi caso único. Por esse país fora, quantos aconteceram! Felizmente há pessoas esclarecidas que entendem o valor patrimonial da documentação antiga e os exemplos de salvaguarda talvez compensem as perdas. Zeladores cuidadosos guardam carinhosamente a documentação histórica ou encaminham-na para os arquivos nacionais. Nas mãos de investigadores preparados, esses velhos papéis falam com eloquência do passado das comunidades humanas.

Um dos lemas da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras é este: “Conhecer para melhor preservar”. Nada do que é o nosso Património nos pode ser estranho ou inútil, tem sempre algo a dar-nos, por insignificante que pareça. Aquelas pessoas não agiram por mal mas por ignorância. Ajudá-las a conhecer é um dos objectivos destas Jornadas Europeias do Património.

 

…………………………………………..

PATRIMÓNIO: ENCONTRO DO PASSADO COM O FUTURO

 

Há quem menospreze as preocupações com a preservação do Património Cultural com o argumento de que o passado está morto e devemos dar primazia ao presente e ao futuro. Leia-se o que, a este propósito nos diz Guilherme d’Oliveira Martins numa obra que recomendamos vivamente, Património, herança e memória – a cultura como criação (Ed. Gradiva, Lisboa, 2009, p. 14):

«Tradição significa transmissão, dádiva, entrega, gratuitidade. Modernidade representa o que em cada momento acrescentamos à herança recebida, como factor de liberdade e de emancipação, de autonomia e de criação. A novidade resulta sempre desse diálogo entre o que recebemos e o que criamos. E a cultura situa-se nesse ponto de encontro e de saída – não em confronto com a natureza, mas complementarmente a ela. As casas, os lugares, as regiões, os povos, as nações, têm um espírito, sempre feito de diferenças e de interdependência.

Temos, por isso, de entender o “espírito dos lugares” e de transformar essa compreensão num modo de nos enriquecermos culturalmente a partir do diálogo entre o que recebemos dos nossos antepassados, correspondente ao Património material e imaterial, e o que criamos de novo, a contemporaneidade – que nos insere na História, onde tudo se transforma».

                             

      A memória do passado é um alicerce do futuro (Igreja da Graça, foto Moedas Duarte)

                    

JORNADAS EUROPEIAS DO PATRIMÓNIO

«As Jornadas Europeias do Património são uma iniciativa anual do Conselho da Europa e da União Europeia que envolve mais de 50 países, no âmbito da sensibilização dos povos europeus para a importância da salvaguarda do Património. Neste sentido, cada País elabora anualmente um programa de actividades a nível nacional, a realizar em Setembro, acessível ao público gratuitamente.

A ideia base da iniciativa é promover o acesso aos monumentos e sítios, convidando à participação activa na descoberta de uma herança cultural comum, implicando o envolvimento dos cidadãos europeus com o património cultural. Os objectivos principais são reforçar os sentimentos de identidade cultural, de memória colectiva e de afirmação de um património comum cuja riqueza reside na sua diversidade. As Jornadas Europeias do Património representam, por isso, uma celebração da solidariedade internacional, do diálogo e da diversidade culturais, constituindo momentos de reapropriação dos vestígios culturais do passado».

(http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/recursos/projectos-de-divulgacao/jep-jornadas-europeias-do-patrimonio/)

 

Direcção da Associação para a Defesa e Divulgação

do Património Cultural de Torres Vedras

 

 

 

 






28 agosto 2020

PÁGINA "PATRIMÓNIOS" NO JORNAL "BADALADAS" - 28 AGOSTO 2020

 

CAIXARIA

O PRAZER DE VER O NOSSO PATRIMÓNIO

Joaquim Moedas Duarte (Texto e fotos)


À DESCOBERTA

Temos ouvido algumas queixas sobre o esquecimento a que estaria votado o património cultural torriense existente fora da cidade. De facto, Torres Vedras não é só o aglomerado urbano da sede concelhia, tem em seu redor um vasto território de 400km2 que faz dele o concelho mais extenso do antigo distrito de Lisboa. Nas doze freguesias do termo concelhio há um riquíssimo espólio patrimonial que importa divulgar e valorizar. A Associação do Património tem procurado fazê-lo nas suas diversas actividades:  páginas nas redes sociais, passeios a pé, visitas guiadas e intervenções na imprensa regional, como esta página “Patrimónios”, que publicamos mensalmente no Badaladas.

Há dias fomos convidados a elaborar pequenos textos introdutórios a quatro concertos vídeo-gravados em igrejas do concelho. Logo nos dispusemos a colaborar, fiéis ao que atrás dissemos. Há um valioso património edificado que é necessário lembrar. Um exemplar notável é a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, na Caixaria, Dois Portos, uma das escolhidas para esses concertos.

A Estrada Nacional nº 248, entre Runa e Dois Portos, passa ao lado da pequena povoação da Caixaria. É necessário sair da estrada e entrar por uma das duas vias de acesso. Foi o que fizemos. A experiência já nos ensinou que vale a pena fazer incursões inesperadas e palmilhar as ruas com os olhos disponíveis e curiosos. Lá encontrámos velhas adegas, portões antigos, cantarias vetustas. Ou um poço público com bomba de volante accionada manualmente, um equipamento que a Casa Hipólito fabricava nos anos 50.



Surpreendente, foi a descoberta do belíssimo relógio de sol, colocado na esquina de uma casa, a cerca de seis metros de altura, numa travessa próxima do adro da igreja. Datado de 1733, de orientação duplamente declinante, em pedra lioz, ainda cumpre a sua função, marcando horas num intervalo das 5 da manhã às 7 da tarde.[1] 




O adro da igreja convida a uma paragem. Dos bancos junto ao muro, na sombra de frescas faias ramalhudas, observamos o vale da Ribaldeira e as colinas que o rodeiam, imagem esplendorosa do verdejante Oeste estremenho, numa saturação de adjectivos que não conseguimos reprimir, absortos que estamos na luz da tarde que nos envolve.  




IGREJA DE NOSSA SENHORA DOS PRAZERES    


                  

A invocação mariana da padroeira celebra as alegrias, ou prazeres, da Virgem no seu percurso terreno.

Olhemos a fachada. Típica do século XVIII, com o remate das linhas onduladas das volutas e os fogaréus no cimo das falsas pilastras, sugeridas pelas barras verticais azuis. Os mesmos elementos encontramos na torre sineira, bem proporcionada, a poente. O conjunto tem harmonia, sublinhada pelo contraste entre as superfícies brancas e as barras azuis.


O interior é de feição barroca, bem expressa na exuberância e variedade dos elementos decorativos: o tecto de berço, com o anagrama mariano, os lírios e as composições geométricas; a pintura marmoreada das paredes, com efeitos tromp l’oeil (ilusão de óptica); o púlpito com talha dourada; e o coro alto, com sua imponente balaustrada de madeira a imitar o mármore.

          


       

É na capela-mór que encontramos o conceito da arte total, do barroco joanino: o retábulo setecentista, com colunas salomónicas a delimitarem o espaço das imagens sacras em que se destaca a padroeira, no trono central; nas paredes laterais, as pinturas, de desenho ingénuo, com cenas da vida da Virgem, os painéis de azulejos com simbologia mariana e a imitação de elementos arquitectónicos. A existência dos degraus que conduzem ao plano sobre-elevado do altar, e nos quais encontramos decoração com embutidos de mármore, recorda o que foi o templo primitivo do séc. XVII, atestado por uma inscrição de 1640.







Na sacristia, um arcaz singelo guarda peças admiráveis de paramentaria e têxteis litúrgicos.

 

PARTICIPAÇÃO DAS POPULAÇÕES LOCAIS

Não nos cansamos de elogiar o papel importantíssimo das comunidades locais na preservação do seu património. Coordenadas pelos párocos, cada vez mais sensibilizados para estas questões, elas têm sido de uma enorme generosidade que motiva e arrasta a participação de entidades exteriores, como os antigos governadores civis e as autarquias locais – Câmara Municipal e Juntas de Freguesia. Foi esta dinâmica que permitiu as dispendiosas obras de manutenção e restauro da igreja da Caixaria, que decorreram entre 1997 e 2000. Nas conversas que tivemos durante a nossa visita, na companhia do pároco actual,  Pe. Rui Gregório, registámos nomes e factos. Correndo o risco de esquecermos alguém, nomeamos a Comissão inicial que dinamizou a angariação de fundos: Gabriela Correia, zeladora da igreja, como já o havia sido sua mãe, Silvina Tomé; Nazaré Tomás; os irmãos Marcos, António e Joaquim José; Américo Romão. Almoços de convívio, exposições, caminhada, sorteios e leilões nas festas, tudo se fez para juntar os milhares de contos necessários. Apareceram dádivas avultadas de pessoas anónimas.

O resultado está à vista. Aquela pequena povoação pode mostrar, com legítimo orgulho, um templo que é a expressão viva da adaptação dos cânones barrocos eruditos ao gosto e aos escassos recursos populares.



[1] Medição do tempo em Torres Vedras – José Mota Tavares et al., Câmara Municipal de Torres Vedras, 2012, p. 40, 41.




01 agosto 2020

PÁGINA "PATRIMÓNIOS" NO JORNAL BADALADAS

Em 31 de Julho de 2020




O EDIFÍCIO DAS TERMAS DA FONTE NOVA

PRESENTE


 


Desde sempre nos habituámos a ver este edifício, na Rua Santos Bernardes, já perto da rotunda que antecede a zona do Hospital. É mais antigo do que qualquer um de nós, terá sido construído por meados do séc. XIX. Habitado até há cerca de 15 anos, ficou devoluto e entrou em rápida degradação. Os dois logradouros que o rodeiam transformaram-se em matagais quase impenetráveis. Olhávamos para aquele imóvel e sentíamos o desconforto da decadência. Janelas entaipadas, empenas escondidas. Quando a vegetação permitia, conseguíamos ver a fachada de um pavilhão ao lado da casa, com um portal expressivo e, sobre ele, uma inscrição: TERMAS DA FONTE NOVA. A designação de Fonte Nova liga-se à existência de um antigo fontanário que existiu perto dali, construído no século XVI, chamado de “novo” por antinomia com o “velho”, do século XIV, o bem conhecido Chafariz dos Canos. Um e outro garantiam o abastecimento de água a quem chegava ou partia pelas duas principais vias de acesso à velha urbe torriense.

A Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, por diversas vezes, fez sentir junto dos órgãos autárquicos a necessidade de preservar aquele conjunto edificado. Não só por ser o único vestígio oitocentista naquela área mais recente da cidade, mas pela qualidade arquitectónica e pelo conteúdo memorial a ele ligado. Foi com regozijo que soubemos da sua compra pela Câmara Municipal, em Janeiro deste ano. Quando há dias visitámos aquele espaço, verificámos o estado de ruína das Termas mas, devido à limpeza previamente feita, observámos as potencialidades que conserva, nomeadamente o edifício principal e os logradouros envolventes – o da fachada principal e o das traseiras, voltado à R. Capitão Figueiroa Rego.



PASSADO

Litografia da revista O OCIDENTE

A revista O Ocidente que se publicava em Lisboa, mas versava assuntos de Portugal e do estrangeiro, inseriu no seu número de 5 de Junho de 1895, uma reportagem intitulada “Visita a Torres Vedras – Inauguração das águas da Fonte Nova”, assinada por Caetano Alberto e ilustrada com litografia feita a partir de uma fotografia de Martinez Pozal. A prosa expressiva e a bela ilustração transportam-nos à época em que António dos Santos Bernardes, proprietário da casa, convidou altas personalidades da terra e da capital, bem como várias bandas de música, para a inauguração das suas termas. Festa rija que incluiu almoço nas Termas dos Cucos e jantar no Hotel Natividade. O repórter, encantado com as paisagens do Oeste e as degustações refeiçoeiras, mais se deliciou com as moçoilas que serviam a água aos visitantes das novas termas inauguradas naquela Quinta Feira de Ascensão, 23 de Maio de 1895. Ele o diz: «Aquelas águas, servidas por umas empregadas tão garridas e tão pitorescamente formosas, devem necessariamente duplicar os seus efeitos salutares…».

Salinas Calado, notável patrimonialista que viveu muitos anos em Torres Vedras, já aposentado, acalmava saudades em crónicas regulares no Badaladas. Em 16 de Junho de 1962 dava conta de um folheto que casualmente lhe viera às mãos, intitulado “Fonte Nova (Torres Vedras) – Águas medicinais”, no qual “o sábio analista Charles Lepierre” assegurava as qualidades medicinais daquelas águas, indicadas para males de estômago, entre outros.

Adão de Carvalho, que tanto amou e divulgou as antiguidades torrienses, assinalou o centenário da inauguração das termas da Fonte Nova com um artigo no Badaladas de 19 de Maio de 1995. Socorrendo-se dos apontamentos e recortes antigos de imprensa que laboriosamente colecionava, lembra que as termas foram uma iniciativa do proprietário que as mandou construir sobre a nascente daquelas águas medicinais. Previamente analisadas, assegurou-se do seu valor – foram comparadas às das Pedras Salgadas e Vidago. A verdade é que o povo já se habituara a procurar nelas o alívio das más digestões e, até, do reumático. A construção das termas respondia à procura, garantindo qualidade de manuseio e assistência médica no seu consumo.

As termas funcionaram cerca de cinco anos e, a seguir foram encerradas pois as despesas eram superiores às receitas. Motivo prosaico a que se juntou o decréscimo da qualidade da água, talvez devido à maior procura e à proximidade de um número crescente de habitações. O proprietário morreu e o sobrinho ainda permitiu, durante algum tempo, o usufruto gratuito das águas.

A propriedade acabou por ser adquirida mais tarde pela família Chichorro, da Quinta de Vale de Galegos, que a manteve praticamente até aos nossos dias.


FUTURO


Desenho tosco, apenas indicativo

De acordo com o site da Câmara Municipal de Torres Vedras, «o procedimento de concurso público para conceção, realização de obras de requalificação e exploração para fins hoteleiros, termais e de restauração do edifício das antigas “Águas Termais da Fonte Nova” insere-se no “Programa Estratégico de Oferta Hoteleira da Cidade de Torres Vedras”».

Significa, pois, que aquele espaço será requalificado e reactivado. O auto de vistoria, realizado pela Divisão de Gestão Urbanística, com a colaboração da Área de Regeneração Urbana, analisou pormenorizadamente todo o conjunto e apontou como orientação de respeito obrigatório a manutenção da traça primitiva do edificado e, «caso seja equacionada a possibilidade de ampliação do edifício, de modo a viabilizar o investimento na sua reabilitação e revitalização, (…) que essa ampliação se efetue para a Rua Capitão João Figueirôa Rego, preenchendo o espaço do logradouro compreendido entre a fachada poente do edifício habitacional e o prédio contíguo com o n.º 3 desta rua».  

Aguardemos, agora, a coragem e o investimento necessários ao ressurgimento da Fonte Nova.

Direcção

da Associação para a Defesa e Divulgação

do Património Cultural de Torres Vedras


Nota publicada na página do Facebook de Joaquim Moedas Duarte:

Complementando o que anteriormente aqui deixei escrito sobre o edifício das Termas da Fonte Nova, transcrevo a parte do Auto de Vistoria, realizado pela Divisão de Gestão Urbanística, com a colaboração da Área de Regeneração Urbana, que refere o que deve ser respeitado na futura recuperação do edifício.
Lembro que a imagem do edifício futuro é apenas desenho tosco que não passa disso.
O documento pode ser analisado pelos interessados na Câmara Municipal ou pedido por mail.
Dada a sua extensão, não é viável a sua reprodução neste espaço.


AUTO DE VISTORIA:

(...) [ Descrição pormenorizada de todo o conjunto, com enumeração das anomalias e estado das estruturas, pavimentos, paredes, tetos, etc. ]

«2. Elementos Patrimoniais a preservar nos edifícios

2.1 Edifício Habitacional

Avaliado o edifício habitacional, considerou-se que deveriam ser element
A escada interior principal do edifício que se encontra em bom estado de conservação, devendo manter-se a sua forma, guarda e revestimento dos degraus em madeira;

Os tetos trabalhados em estuque e madeira (esta pode ser substituída por madeira nova), sobretudo no piso térreo;

Os vãos das portas interiores principais dos diversos compartimentos, sobretudo, as que apresentam na parte superior do vão elementos em vidro;

Procurar aproveitar as portas interiores em madeira que estejam em bom estado;
Os pavimentos cerâmicos do piso térreo;

Na Cozinha e na instalação sanitária do piso 1, deverão ser preservados a chaminé, os elementos de azulejaria e os pavimentos cerâmicos;

Os pavimentos em madeira do piso térreo e do piso 1 e sótão deverão ser reabilitados, devendo ser substituídos por madeira nova, nos casos em que não seja possível manter os existentes;

Os rodapés em madeira do piso térreo também deverão ser reabilitados;

Ao nível do exterior do edifício deverão manter-se as fachadas principais, com a métrica dos vãos, materiais das molduras dos vãos, materiais da fachada e dos vãos (madeira) e cor da fachada (amarelo torrado).

As portas e janelas exteriores cujo material em madeira esteja em bom estado deve valorizar-se a sua recuperação em detrimento de colocação de novos vãos em madeira;

As testas dos vãos interiores e exteriores com bandeira em vidro, deverão ser repostos/reabilitados com o mesmo desenho e métrica, existentes;

A chaminé principal do edifício deverá igualmente ser mantida. Deverá manter-se o pé-direito dos pisos térreo e piso 1.
Na fachada poente existem ainda uma varanda e uma escada exterior metálica em caracol, cuja manutenção deverá ser equacionada, caso o edifício seja ampliado na Rua Capitão João Figueirôa Rego. Neste caso deverá equacionar-se a possibilidade de relocalização da escada exterior noutro local do edifício.

Considera esta comissão que poderá equacionar-se para um aproveitamento do piso de sótão, a subida do arranque da cobertura, cuja morfologia poderá ser alterada, através o aumento da cota da cumeeira.

2.2 Edifício das Termas

No edifício das termas deverá procurar-se manter a sua cércea e volumetria, assim como a imagem exterior que tinha e que consta da imagem acima.

Deverão ainda manter-se:

Os pavimentos cerâmicos e azulejos;
A escadaria de acesso à fonte termal e o compartimento com os bancos; Não foi possível visualizar a fonte termal, devido à densa vegetação
existente, mas deverá procurar-se manter este elemento, como memória do local;

Ao nível do exterior, e tal como do edifício principal deverá manter-se a imagem, métrica dos vãos e materiais associados aos vãos e fachada, assim como a sua cor;

No que diz respeito à cobertura, deverá ser encontrada uma solução que, não obstante a sua contemporaneidade, resulte de uma reinterpretação da
morfologia original, incluindo a iluminação zenital, sem comprometer a identidade do edifício.

2.3 Logradouro

O logradouro principal para a Rua Santos Bernardes deverá manter o seu estado original, assim como os muros, portão principal e gradeamento em ferro, que deverá ser preservado. Poderá admitir-se, no entanto, uma alteração do muro na zona junto ao edifício com o n.º 3 da Rua Santos Bernardes de modo a também valorizar o espaço público e acessos ao recinto, mas sempre mantendo o pórtico preexistente no respetivo local.

Caso seja equacionada a possibilidade de ampliação do edifício, de modo a viabilizar o investimento na sua reabilitação e revitalização, esta comissão aconselha que essa ampliação se efetue para a Rua Capitão João Figueirôa Rego, preenchendo o espaço do logradouro compreendido entre a fachada poente do edifício habitacional e o prédio contíguo com o n.º 3 desta rua.

Uma ampliação do edifício nesta rua permitiria também anular a empena que o n.º
3 da Rua Capitão João Figueirôa Rego gera sobre o terreno.

[ Fotos com indicações diversas]

(...)


4. Conclusão
Sugere-se que as intervenções nos edifícios e logradouro, obedeçam aos seguintes princípios:

Habitação – a intervenção deve ser mais ligeira, voltada para conservação e reabilitação, onde a quantidade de elementos originais justifica o seu reaproveitamento acompanhado pela reposição de elementos em falta: estrutura, soalho, azulejos, mosaicos, carpintarias, etc. Conseguir uma solução que garanta os princípios de autenticidade e reversibilidade do património existente. A futura intervenção não deve ser demasiado invasiva, aproveitando o máximo de compartimentos interiores, para a integridade estrutural não ficar comprometida.

Termas – exige uma reabilitação mais profunda, onde os elementos a aproveitar são em menor quantidade, não justificando recorrer a imitações.

Logradouro – ampliação/construção nova, cuja solução respeite a preexistência, mas que assuma a sua contemporaneidade




27 junho 2020

PÁGINA "PATRIMÓNIOS" NO JORNAL BADALADAS


Em 26 de Junho de 2020:





O ENCANTO DA ERMIDA DO SIROL
Joaquim Moedas Duarte

De Torres Vedras ao Sirol – pequena povoação da freguesia de Dois Portos (União das freguesias de Dois Portos e Runa) – distam cerca de 15 km. Diz a historiadora Ana Maria Rodrigues que a povoação já vem mencionada na inquirição de 1309 e no numeramento de 1527, com a indicação de que, nesses anos, tinha 10 e 9 fogos, respectivamente. Isto é, cerca de meia centena de moradores. Quando há dias lá fui, em mais uma das visitas que gosto de repetir, verifiquei que a povoação continua maneirinha, pacata, acolhedora nas vozes das vizinhas que se encontram no pequeno largo e que responderam com familiaridade espontânea ao meu “bom dia”. O que me leva ao Sirol é a sua ermida, no deleite de rever, como se fosse a primeira vez, o seu magnífico interior. Socorro-me do que disseram os autores do precioso repositório artístico da Junta Distrital de Lisboa quando aqui estiveram em 1963: «um conjunto surpreendente de estuques da segunda metade do século XVIII, que revestem completamente paredes e abóbada. De um lado e de outro, quatro grandes painéis de estuque, representando os Evangelistas, e, ladeando o arco triunfal, S. Sebastião e Santa Bárbara. Alguns motivos decorativos, de excelente desenho, revelam modelos eruditos e são característicos da época». Maior seria a surpresa se vissem o resultado dos restauros que foram feitos nos anos posteriores e que restituíram cor e integridade aos estuques iniciais, danificados pelo tempo. Eles também se referem aos azulejos, num comedido comentário: «Bons os silhares de azulejos, do final do séc. XVIII». Aqui temos de pedir opinião ao grande estudioso da azulejaria nacional, J. M. dos Santos Simões, que passou pelo Sirol nos anos 70 do séc. XX, quando fazia o seu minucioso inventário por todo o país. Diz ele que «os azulejos são de magnífica qualidade, de bom desenho e coloração. Julgo-os de cerca de 1770-75 e não me repugna que hajam sido fabricados na Fábrica Real[do Rato], logo nos primeiros anos da sua laboração». Alargando a sua apreciação, faz descrição minuciosa da composição, característica da época: painéis historiados com cenas marianas – vida da Virgem – monocromáticos de azul em fundos brancos, emoldurados por cercaduras de motivos de “asas de morcegos” a azul forte. Estes silhares revestem a parte inferior das paredes da nave e da capela-mor, «azulejo de um mesmo tipo, época e fabricação, ou seja, fez parte de uma encomenda global» (SIMÕES, 2010, p. 413). Acima deles, correm os grandes painés de estuque com a representação de figuras sacras – dois doutores da Igreja, os quatro evangelistas, S. Francisco de Bórgia com a caveira coroada, símbolo da vida efémera; S. Sebastião e Stª Bárbara; e Stª Ana e S. Joaquim, pais da Virgem, cujo dia se celebra em 26 de Julho, data da sagração deste templo, atestada por uma inscrição em pedra no arco da porta de entrada. É o estuque colorido, desenhado e aplicado com mestria, que dá uma ambiência única a este espaço, «exemplar raríssimo», como sublinha Santos Simões. Mas é na capela-mor que mais se admira a unidade de concepção decorativa, a chamada “arte total” distintiva do Barroco, que articula harmoniosamente os estuques das paredes e do tecto, os azulejos, as figuras escultóricas – com destaque para a notável imagem de Nª Senhora com o Menino – e os mármores do retábulo. Bem se entende o nosso encantamento com a Capela do Sirol.








O CONTRASTE DA FACHADA





O vulto exterior da capela não indicia o que há no interior. Recordo-me da impressão da minha primeira visita: um certo desequilíbrio entre a monumentalidade da torre sineira e o corpo do edifício, que parecia apoucado por ela. Mas um e outro elementos, analisados em separado, são dignos de registo. A porta da capela é precedida de uma galilé aberta por uma arco de volta perfeita sobre o qual se encontra a inscrição da sagração do templo: HERMIDA / DE N. Sra. DA PURI / FICAÇÃO  / Bta [benta] a 26 DE / JULHO DE / 1749. Logo acima do arco, uma grande janela com varandim de ferro e moldura em cantaria recortada, serviria para os sermões em dia festivo de missa campal. A torre é semelhante a muitas que encontramos nas igrejas da região, características do século XVIII: lançamento em altura, com quatro janelas sineiras e coberta por abóbada bulbosa pontuada por quatro fogaréus no acrotério das quatro faces. Cá em baixo, grossos pilaretes marcam o espaço do adro.
A monumentalidade e singularidade desta ermida de Nª Srª da Purificação – classificada como Monumento de Interesse Público desde 1967 –, dominando a pequena aldeia do Sirol, suscita a interrogação sobre quem terá financiado a sua construção inicial e posterior decoração do interior. Arrisco uma hipótese plausível: aqui bem perto, a cerca de três quilómetros a oeste, fica a Quinta da Conceição, que nos séculos XVII e XVIII pertenceu aos Marqueses do Lavradio, a maior casa senhorial e agrícola da área rural torriense. A capela do imponente Paço da Quinta, com uma pequena sineira, é de mesquinha dimensão. Terão os seus senhores contribuído para valorizar o templo da aldeia dos seus assalariados e rendeiros?  

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:
Ana Maria Feliciano e António S. Leite: A Casa Senhorial como matriz da territorialidade, Caleidoscópio, s/l, 2015.
Carlos de Azevedo e Adriano de Gusmão: Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa – Torres Vedras, Lourinhã, Sobral de Monte Agraço, Junta Distrital de Lisboa, 1963.
J. M. Santos Simões: Azulejaria em Portugal no Século XVIII, Fund. C. Gulbenkian, Lisboa, 2010.
Sites da Direcção Geral do Património Cultural e do SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico

FOTOS: Joaquim Moedas Duarte


 Como chegar à aldeia de Sirol, a partir de Torres Vedras:











29 maio 2020

PERSONAGENS HISTÓRICAS TORRIENSES

Página PATRIMÓNIOS
no jornal BADALADAS, de Torres Vedras
em 29 de Maio de 2020

MEMÓRIAS DE DONA GRACIA FROES
E DE SEU FILHO PEDRO AFONSO
Joaquim Moedas Duarte

O Comandante Filipe Mendes Quinto – que em tempos comandou a fragata Hermenegildo Capelo e é actualmente Vice-Presidente da Sociedade de Geografia de Lisboa – procurou-me através do amigo comum Vitor Canas e indagou se Torres Vedras reconhecia o valor de um homem que aqui nasceu e deixou vulto na História nacional: Pedro Afonso, conde de Barcelos, filho bastardo do rei D. Dinis e da dama torriense Dona Gracia Froes.
Como a preservação do Património histórico se faz também pela evocação memorialística de personagens marcantes, aceitei o repto de procurar entender a pertinência da questão e tentar responder.
Que nos dizem sobre isto os velhos historiadores locais, Júlio Vieira e Madeira Torres?
Júlio Vieira, depois de enumerar as diversas visitas e permanências do rei D. Dinis em Torres Vedras, acrescenta:
«D. Dinis passava muitas vezes por esta vila nas suas idas a Leiria.
Foi numa das várias vezes que o rei trovador por aqui esteve, que se enamorou da linda torriense D. Gracia Froes, filha de João Froes ou Froyas e de D. Catarina Domingos Franco, e de cujos amores levados em segredo depois para o termo de Lisboa, próximo a Odivelas, nasceu o famoso D. Pedro, conde de Barcelos, autor do célebre Nobiliário do conde D. Pedro».
Madeira Torres, no qual Júlio Vieira muitas vezes se escora, junta mais pormenores, dos quais destacamos:
«Esta senhora, que nasceu em Torres Vedras, era grandemente abastada, e vindo para Lisboa com seu filho, que se pode presumir ter tido a mesma naturalidade, viveu junto à Sé, e dos seus bens instituiu, e mandou fazer a Capela de S. Gervásio onde jaz enterrada».
Retemos duas informações: por um lado, a referência à formosa dama torriense, Dona Gracia Froes, distinguida pela real líbido com a gestação de um bastardo real; por outro, o fruto desses amores ilícitos, D. Pedro Afonso.
Da primeira personagem pouco sabemos. Algumas fontes mais recentes dão-nos pistas interessantes, que prometemos desenvolver noutra ocasião. Ana Cruz Parra, que estudou as questões da paternidade medieval a partir do caso de D. Dinis, informa-nos que este rei teve seis filhos ilegítimos, todos de mães diferentes e assumidos como seus. Embora não se conheça a data exacta do nascimento, presume que o filho de Gracia Froes foi o primeiro ilegítimo, primogénito e, portanto, mais velho que o herdeiro, futuro rei D. Afonso IV.
A infidelidade conjugal dos reis, naqueles tempos medievos, não tinha o estigma social de hoje. Era essencial garantir descendência e, com ela, a força numérica da linhagem real e consequente poder político e económico. D. Dinis levou, talvez, longe de mais esta tarefa pois, no afã de garantir poder e riqueza ao bastardo preferido – D. Afonso Sanches – suscitou o ciúme do herdeiro legítimo, o que deu origem a uma guerra civil entre pai e filho. É aqui que entra o filho de D. Gracia Froes, D. Pedro Afonso. Homem sensato e culto, abastado e senhor de numerosos vassalos, sofreu adversidades resultantes dessa guerra insana – que o espoliou e obrigou a exilar-se alguns anos em Castela – mas soube aliar-se à Rainha D. Isabel e conseguiu mediar o conflito sangrento até à assinatura de um tratado de paz. Voltou à antiga grandeza e aos seus escritos que o tornaram célebre.

CONDE DE BARCELOS E ESCRITOR DE MÉRITO
D. Pedro Afonso recebeu o título de Conde de Barcelos mas foi em Lalim, concelho de Lamego, onde tinha Paço residencial e uma grande propriedade, que passou os anos finais da sua longa vida – cerca de 75 anos. Faleceu em 1354. No último testamento, determinou que queria repousar no Convento de S. João de Tarouca, ali perto. Ainda em vida, mandou construir o túmulo onde foi inumado. A imponência da estátua jacente e o realismo das cenas de caça, esculpidas nas faces maiores da arca tumular, levaram à classificação deste túmulo como Monumento Nacional.
O conde Pedro Afonso, fazendo parte da alta nobreza, manejava as armas de combate e de caça, geria os bens fundiários e subjugava as gentes avassaladas que viviam nos seus domínios senhoriais. Mas a glória maior deste homem é o seu legado literário. Em primeiro lugar, a Crónica Geral de Espanha de 1344. Foi a primeira grande obra historiográfica portuguesa, escrita em linguagem vulgar, já a desprender-se do Latim popular e a autonomizar-se no âmbito do Galaico-Português. Em segundo lugar, o conde Pedro Afonso redigiu um nobiliário, o Livro de Linhagens, obra basilar para quem queira estudar a sociedade medieval portuguesa. Na época não havia registos civis com as notações de nascimento, baptismo, casamento e morte. O Livro de Linhagens servia o propósito de legitimar a origem familiar e os direitos sucessórios, pesem, embora, os riscos inerentes às alterações sugeridas pelo interesse próprio ou pela rivalidade parental. Conhecem-se muitos acrescentos nas sucessivas edições manuscritas.
Por último, Pedro Afonso é considerado o último príncipe trovador, autor de Cantigas de Amor e de Escárnio, ao uso da época. Ele próprio fez uma compilação dessas peças poéticas, um Livro de Cantigas, que deixou em testamento ao seu sobrinho Afonso XI, rei de Castela. Perdido no tempo – numa época em que se desconhecia ainda a imprensa e tudo era manuscrito – este cancioneiro terá sido a fonte de que saíram os cancioneiros da Ajuda e da Vaticana, repositórios preciosos da nossa literatura primeva.
Que responderei, então, ao comandante Mendes Quinto?
A ligação de D. Pedro Afonso a Torres Vedras faz-se unicamente pela sua filiação materna. É plausível que aqui tenha nascido mas disso não há provas irrefutáveis. A sua notoriedade projectou-o no todo nacional, onde se insere Torres Vedras. Mais do que torriense, Pedro Afonso foi um homem notável do seu tempo. O enorme valor cultural do seu legado literário é que faz erguer o conde D. Pedro ao nível superior dos notáveis da nossa História.
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Notas bibliográficas:
Júlio Vieira – Torres Vedras Antiga e Moderna, 2ª ed., Livrododia e Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, Torres Vedras, 2011. (1ª ed.  1926). P. 107 e 108.
Madeira Torres – Descrição Histórica e Económica da Vila e Termo de Torres Vedras, Coimbra, 1862, ed. Fac- Sim.  Misericórdia de Torres Vedras.
Ana Raquel Parra – A paternidade na Idade Média – O caso de D. Dinis, dissertação de Mestrado, Fac. Letras de Lisboa, 2017/18.
Luís Krus – A construção do passado medieval- Textos inéditos e publicados, Inst. Estudos Medievais da FCSH da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 2011.



                        


24 abril 2020

25 DE ABRIL 2020


Assinalando a data, publicámos no semanário BADALADAS, de Torres Vedras, mais uma página PATRIMÓNIOS:



     O POSTO DE COMANDO DO 25 DE ABRIL JÁ FOI CLASSIFICADO COMO MONUMENTO NACIONAL

«Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. As Forças Armadas Portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa no sentido de recolherem a suas casas nas quais se devem conservar com a máxima calma».
Assim começava o primeiro comunicado do MFA, lido aos microfones do Rádio Clube Português, pouco depois das 4 h. da manhã do dia 25 de Abril de 1974. No entanto, o quartel general do movimento estava muito longe dali. Situava-se no Regimento de Engenharia Nº 1 (Pontinha) – no actual concelho de Odivelas – onde permaneceu nos dias 24, 25 e 26 de Abril. «A escolha do local teve em consideração a proximidade da capital, combinada com o relativo isolamento e discrição das instalações, sem esquecer que o Regimento de Engenharia n.º 1 era uma unidade de confiança dos revolucionários» – segundo refere o Decreto instituidor da classificação deste Monumento Nacional. Lá  funcionou o cérebro do movimento dos capitães que dirigiu as operações que puseram fim à ditadura de 48 anos e restaurou a liberdade. Por isso, desde 2001 aquele espaço foi musealizado por iniciativa de cidadãos e da Câmara Municipal de Odivelas.  No dizer da memória descritiva, «através da dignificação deste espaço e da criação de condições de apoio aos visitantes, procura-se não apenas a valorização do local, mas principalmente a sua divulgação junto do público escolar e de todos aqueles que manifestem interesse pelos acontecimentos que marcaram a história do nosso país».
Ali se mantém, preservada, a sala de operações militares, com imagens de figurantes em tamanho natural, acompanhados dos equipamentos de comunicações daquela época, assim como de armas, munições e mapas
O edifício militar é um singelo pavilhão pré-fabricado. Como recorda o preâmbulo do Decreto, ali «estiveram detidos Marcelo Caetano, Presidente do Conselho de Ministros, Silva Pais, Director da PIDE/DGS, e Ruy Patrício, Ministro dos Negócios Estrangeiros». Foi ali, também, que se deu a conhecer ao país o programa do MFA e se reuniu, pela primeira vez, a Junta de Salvação Nacional, instituição inicial do poder revolucionário.





MONUMENTO NACIONAL PORQUÊ?
O Posto de Comando do MFA foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto nº 21 / 2015, de 23 de Outubro, aprovado pelos Conselho de Ministros presidido por Pedro Passos Coelho e ratificado pelo Presidente da República de então, Aníbal Cavaco Silva.
O conceito de Monumento Nacional já há muito que ultrapassou a visão limitada de grandioso edifício civil ou religioso, ou de marcada antiguidade temporal. Os critérios de apreciação e classificação estão bem definidos na Lei de Bases do Património (Lei nº 107/2001, de 8 de Setembro) e alargam o conceito de património classificado a múltiplas áreas da cultura humana – seja esta material ou imaterial, antiga ou contemporânea. É o próprio Decreto de classificação que explicita que teve em conta «os critérios constantes do artigo 17º do mesmo diploma, relativos ao interesse do bem como testemunho simbólico, ao seu interesse como testemunho notável de vivências ou factos históricos e à sua extensão e ao que nela se reflecte do ponto de vista da memória colectiva».


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O PATRIMÓNIO CULTURAL E O 25 DE ABRIL

O entendimento sobre a preservação do Património, que a sua Lei de Bases institui, é radicalmente diferente da perspectiva defendida no tempo do regime da Ditadura. Correndo o risco de simplificação, diremos que, para o chamado Estado Novo, o Património tinha duas finalidades: celebrar o nacionalismo através de monumentos simbólicos, revestidos de grandiosidade exemplar; e fixar a imagem de um povo rural identificado como representação pura da portugalidade. Para a primeira, fizeram-se restauros forçados e abusivos de castelos, palácios e catedrais, reconstruídos como cenários de uma História que só existia nas narrativas artificiosas dos ideólogos do Regime; para a segunda, definiu-se um programa de folclorização etnográfica que projectava a imagem de uma ruralidade romantizada, bem expressa na canção que  exalta “uma casa portuguesa, com certeza”.
O 25 de Abril não menosprezou a importância dos monumentos como símbolos da memória colectiva nem o reconhecimento das vivências populares como factores de identidade social. O que fez foi corrigir as distorções no seu tratamento – resistindo, e bem, à tentação de destruir o que de errado se fizera nos monumentos, e enriquecendo as formas de estudo, abordagem e divulgação dos modos de vida tradicionais.
Mas houve outro aspecto que sofreu profunda mudança com o 25 de Abril: foi a participação activa de todos os cidadãos na defesa do seu Património Cultural. A prevalência de elites iluminadas que definiam a política patrimonialista, na penumbra dos gabinetes, foi substituída pela intervenção cívica das populações, agora organizadas em Associações de Defesa do Património, num movimento poderoso que varreu todo o país na década de 80. Como exemplo vivo desta realidade, o Movimento Cívico Posto de Comando Sempre mostra-nos como a intervenção cívica de cidadãos interessados pode influenciar decisivamente o reconhecimento de um lugar de memória como Monumento Nacional. Foi esse Movimento, juntamente com as autarquias locais do concelho de Odivelas e personalidades credenciadas que se lhes juntaram, que desencadeou o processo de classificação do Posto de Comando do MFA como Monumento Nacional. Um dos proponentes mais activos, o historiador Jorge Martins, exprimiu bem o que estava em causa: A classificação como Monumento Nacional é muito importante porque foi uma luta muito longa, porque se corria o risco, como noutros espaços tem acontecido, de se perder este local.(…) Corríamos o risco de ser ir apagando a memória, quer da resistência à ditadura quer do Dia da Liberdade, com a conquista da Liberdade e da Democracia a 25 de Abril de 1974. O Posto de Comando, a par do Quartel do Carmo, são os dois grandes lugares míticos da Revolução dos Cravos.

Referências:
Fotos do site da Câmara Municipal de Odivelas e do site Odivelas Notícias.