03 janeiro 2021

PÁGINA "PATRIMÓNIOS" | 25 DEZEMBRO 2020 | O BAIRRO NOVO

 


O BAIRRO NOVO

 


A EXPANSÃO URBANA

O crescimento populacional em Portugal teve um forte incremento na segunda metade do século XIX, sentindo-se os seus efeitos logo nos primórdios da centúria seguinte, assistindo-se igualmente a uma mudança de regime (1910) que levou a uma nova classe social ao poder mas sobretudo a um repensar das velhas cidades, numa tentativa de modernização e expansão das suas estruturas por forma a acomodarem mais pessoas sem os problemas de outrora, nomeadamente, falta de saneamento básico, construções precárias e edificação desenfreada sem critério e sem planeamento.                                                                                              

A vila de Torres Vedras manteve-se até finais do século XIX praticamente dentro do perímetro das antigas muralhas, excepção feita a alguns segmentos de expansão nas margens da estrada nacional – a norte, na zona dos Pelomes, e a Sul, a via que levava à Fonte Nova.        Mas foi a chegada do comboio que constituiu o factor fundamental nesse incremento da população, criando-se então a necessidade urgente de dar habitação condigna aos novos habitantes. Esta expansão do perímetro urbano está patente nas novas avenidas - 5 de Outubro e Ten. Valadim - rasgadas para servirem a Estação do Caminho de Ferro, inaugurada em 1886.

 

OS PLANOS DE URBANIZAÇÃO

Dentro desta filosofia, em todo o país surgiram os Planos de Urbanização, entre os quais o de Torres Vedras, no qual Miguel Jacobetty foi encarregado de expandir o núcleo urbano, plano onde abundavam as zonas de moradias.                                                                          

A política de Duarte Pacheco, à época ministro das Obras Públicas, era impedir o crescimento desordenado das cidades e vilas, bem como uma arquitetura de má qualidade visual e construtiva, contemplando igualmente áreas de fruição coletiva, sendo exemplo entre nós os casos da criação do Jardim da Graça e a construção de equipamentos públicos. como os CTT, o Hospital e a Junta Nacional do Vinho.                                                                            

Plano este que não esquecia o já edificado , onde se fariam apenas as demolições necessárias aos novos eixos viários e ao “arejamento” das ruas, e se apontavam as linhas de expansão futuras, particularmente através da fixação dos grandes eixos viários – Avenida General Humberto Delgado e Rua Teresa de Jesus Pereira que fariam a ligação entre a Várzea e a Estação de Caminho de Ferro, criando uma cintura interna, que nos anos 70 se apresentava já insuficiente para conter a expansão para sul (Bairro Borges de Castro).                             

Inspirado nas ideias de Etienne de Gröer, um francês, que defendia o repensar de velhas urbes, instituindo a ideia da Cidade-Jardim e a limitação das demolições em zonas históricas ao estritamente necessário para o embelezamento das artérias e consolidação do edificado, o Bairro Novo apresentava-se como elemento de continuação e não de rutura.

 

O “ VELHO” BAIRRO NOVO 



O chamado Bairro Novo, projectado nos anos 40, desenvolveu-se a partir do Convento da Graça, para sul, delimitado pelas ruas Rua António Batalha Reis, Santos Bernardes, Teresa de Jesus Pereira e Maria Barreto Bastos. Foi criado como zona residencial, destinada a uma classe média emergente de comerciantes, funcionários administrativos e pequenos proprietários. Ruas rectilíneas, definindo grandes quarteirões, num arranjo racional do espaço, permitindo alguma liberdade de construção.  A sua tipologia, inicialmente de moradias unifamiliares, foi variando ao longo das décadas, acompanhando a tendência para o prédio de habitação (dito de rendimento) de vários inquilinos, mas mantendo uma certa harmonia na escala dos edifícios. Harmonia sobretudo nalgumas das primeiras habitações, onde se verifica uma tipologia do tipo “arte deco”, com animação das fachadas, através da modelação das superfícies, na marcação de pilastras, molduras e frisos, etc.                

São, na sua simplicidade, fachadas com desenho! Correspondem a uma atitude já modernista, mas que não consegue ainda dispensar o elemento decorativo, como traço identitário, longe do total despojamento formal/funcional da era seguinte.                                                              

Ao mesmo tempo, criaram-se quintais, ora para usufruto como jardins, ora para aproveitamento como hortas, sabendo-se esta uma vila rural, cujo plano de urbanismo reflete isso mesmo, no seu todo.                                                              

 O legado recebido foi, portanto, um edificado onde é possível observar exemplos da arquitectura portuguesa de meados do século XX, desde o estilo “arte deco”, rumo ao modernismo - já com o uso do betão como material de construção - passando pela arquitetura do Estado Novo, conhecida de forma crítica como Estilo Português Suave, constituindo-se como o símbolo de uma época.                                                                                                     

 Esta zona puramente habitacional representa uma etapa importante da renovação urbanística entre nós e conserva ainda uma certa homogeneidade, apesar da adulteração de alguns dos seus troços. Por isso, é um capítulo do discurso histórico que uma cidade (também) deve ser. Desde logo pelo seu carácter vincadamente residencial, como zona tranquila, alternativa a outros movimentos do viver citadino. Veja-se como, ​nestes tempos de pandemia, o facto de se ter acesso a um pequeno espaço privado de ar livre pode constituir uma mais valia.

A aparente retoma das actividades de construção civil, com algumas intervenções a decorrer, vem recolocar questões que não são consensuais – conservar versus renovar. Afinal a cidade reinventa-se sobre si mesma. Será que o contemporâneo pode coexistir com o antigo? Pode, claramente, mas há que definir regras claras.                                                             

Esquecer a vocação do Bairro Novo, zona com forte identidade no discurso da cidade moderna, constitui uma perda cultural, pela desvalorização dos seus valores originais e consequente densificação. Destrói-se uma harmonia conseguida e as memórias que transportam.                        Agora que a CMTV se dedica à definição de Áreas de Regeneração Urbana fica o nosso apelo para que o Bairro Novo possa merecer a atenção dos urbanistas a fim de preservar o seu contributo para o equilíbrio urbano, na inequívoca singularidade das suas características e na sua memória.

J. Pedro Sobreiro

Pedro Fiéis





PÁGINA "PATRIMÓNIOS" | 27 NOVEMBRO 2020 | OS GUADAMECIS DA IGREJA DA MISERICÓRDIA

 

OS GUADAMECIS DA IGREJA DA MISERICÓRDIA

Joaquim Moedas Duarte

Continuando a assinalar os 500 anos da fundação da Misericórdia de Torres Vedras (1520), hoje destacamos três peças de grande valor artístico da Igreja da Misericórdia de Torres Vedras: os frontais dos altares da capela-mor, de couro pintado e lavrado, a que se dá o nome de guadamecis. Contudo, eles não podem ser vistos isoladamente, fazem parte de um conjunto de notável riqueza decorativa.

 

O ALTAR 

Desde a mais distante antiguidade, o altar era uma plataforma elevada onde se faziam sacrifícios à divindade. Encontramo-los na Bíblia judaica e nas praticas greco-romanas do mundo antigo. O altar era o centro das práticas religiosas. A Igreja Católica, ao longo dos seus dois milénios de existência, reformulou o significado e a simbologia do altar, nele concentrando memórias do passado e vivências do presente. Do passado, evoca-se o sacrifício de Cristo no Calvário, altar supremo da Redenção e a ceia de despedida, a última, em que foi instituída a presença eucarística; do presente, celebra-se o encontro dos crentes em redor do altar, mesa de convívio espiritual e de partilha do pão consagrado.

Os templos católicos sempre foram construídos em redor do altar-mor, colocado no lugar mais destacado e proeminente, para onde convergem os movimentos e os olhares dos fiéis. Ao altar-mor associou-se, também, o culto das relíquias dos mártires: os restos mortais de S. Pedro na grande basílica de Roma, os de Santiago em Compostela, os pequenos despojos de outros mártires na pedra de ara que obrigatoriamente ainda hoje se coloca no centro do altar onde se celebra Missa.

A importância do altar explica a prática de concentrar nele as mais exuberantes manifestações das artes decorativas, sobretudo após a renovação do Concílio de Trento, no século XVI e a posterior eclosão do estilo barroco. Peça por excelência do mobiliário religioso, o altar, em forma de mesa fechada, tem a face virada ao público – chamada “frontal” –  decorada com motivos aplicados sobre materiais diversos, seja pedra nua, azulejo ou madeira.

 

 



OS GUADAMECIS DOS FRONTAIS

Na igreja da Misericórdia de Torres Vedras, o altar-mor – onde se glorifica a imagem da Senhora da Misericórdia com o Menino Jesus ao colo – é ladeado por dois altares laterais. Do lado do Evangelho, o de Santo Cristo, ligado ao suplício do Calvário, com os símbolos da Paixão e uma belíssima imagem de Cristo Morto ocultada pelo frontal do altar; do lado da Epístola, à direita, o de Santo António. A parte superior de cada um dos altares é decorada com retábulos de talha dourada, numa exuberância e riqueza decorativas de magnífica opulência visual. Todo o conjunto é do século XVIII, contrastando com a elegância austera dos mármores policromados das paredes e do chão, ao gosto do séc. XVII e de que encontramos semelhança na igreja do Turcifal.

Inicialmente, estes altares, além do já referido esquife com o Senhor Morto, tinham frontais de madeira com imitação de embutidos de mármore, pintados sobre as tábuas. Porém, provavelmente já em fase adiantada do Séc. XVIII, os frontais destes altares foram revestidos de guadamecis.

Franklin Pereira, investigador que mais tem estudado este assunto, elucida: «O termo guadameci [também guadamecil] provém do árabe e significa ornamento floral vivo de cores ou couro assim decorado. A técnica do guadameci é realizada sobre couro de carneiro, cortado num rectângulo; fixa com um mordente, a folha de prata cobre toda a superfície. O desenho, vincado, é pintado com cores de óleos; um verniz, resultante da cozedura de ingredientes vegetais, dá à prata as tonalidades do ouro, e daí a designação de “couros dourados”, apesar do emprego do ouro ser raro». Os rectângulos eram cozidos uns aos outros, dando origem a panejamentos de dimensões variadas, com aplicações diversas: nas paredes dos palácios, em móveis, em frontais de altar, etc. (in: Revista Al Madan, nº 22, Janº 2018, p. 131-146)

Depois de pintado, o couro era “lavrado” ou vincado com punções metálicas de pouco recorte, dando-lhe uma textura de baixo-relevo. Esta técnica, proveniente de países árabes do próximo Oriente, foi aprendida e aplicada com brilhantismo, em Córdova, pelos artesãos da curtimenta de peles, ao longo da Idade Média, tendo-se posteriormente expandido por toda a Europa.

Sendo uma técnica complexa e onerosa, estes couros lavrados são relativamente raros. O caso dos guadamecis da Misericórdia de Torres Vedras reveste-se, pois, de uma notável importância patrimonial, tanto mais quanto eles se conjugam com os elementos decorativos que acima descrevemos.

Hoje, quando entramos nesta igreja, ficamos maravilhados com o brilho do seu interior, bem diferente da atmosfera soturna, escurecida pelo fumo das velas, do tempo em que foi capela mortuária. Mas ela só adquiriu essa expressividade depois das importantes obras de manutenção e restauro que decorreram entre 2003 e 2010 e que orçaram perto de cem mil euros. Confiados à oficina do mestre bracarense das artes decorativas que foi Martinho Lobo Ferreira, os altares e seus frontais foram desmontados e transportados para Braga, onde foram restaurados. Um esforço assinalável que restituiu à Misericórdia de Torres Vedras o antigo esplendor.




PÁGINA "PATRIMÓNIOS" | 30 OUTUBRO 2020 | IGREJA DA MISERICÓRDIA DE TORRES VEDRAS

 

IGREJA DA MISERICÓRDIA DE TORRES VEDRAS


PROPOSTA DE CLASSIFICAÇÃO

No passado dia 26 de Julho comemoraram-se os 500 anos de assinatura, pelo rei D. Manuel I, do alvará que criou a Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras. No ano de 1520.

Sendo uma instituição de inspiração religiosa, mas administrada por laicos, esteve sempre ligada a outras instituições da Igreja Católica de Torres Vedras como sejam o Convento de Nossa Senhora dos Anjos, do Barro ou as paróquias da sede do concelho.

A sua sede inicial foi o antigo hospital e capela do Espírito Santo, pertencentes à Confraria do mesmo nome, localizado junto à porta da muralha de Sant’Ana. Apesar das alterações ocorridas ao longo dos séculos – de que a mais significativa foi a demolição da muralha e daquela porta -  a Misericórdia de Torres Vedras ali tem permanecido até aos nossos dias.

Nos finais do século XVII, perante a ameaça de ruína da primitiva capela, foi decidido construir uma nova igreja, cuja primeira pedra foi lançada em 1 de Março de 1681. Em 1710 a primeira fase da obra estava concluída e a bênção da nova igreja teve lugar em 6 de Setembro daquele ano. As obras de beneficiação e apetrechamento continuaram ao longo desse século, caso da sacristia, concluída em 1752. O terramoto de 1755 causou estragos, pelo que foram necessárias diversas obras de restauro. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, obras de manutenção garantiram a perenidade deste espaço de culto. Já nos finais do século XX, as mais recentes e importantes obras, tanto no exterior como no interior, restituíram brilho e magnificência a todo o edifício, no qual se integra “um dos templos de maior interesse em todo o concelho”, no dizer dos autores do volume IV dos “Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa”.

Tendo em conta a antiguidade e valia deste templo, parece estranho que nunca tenha sido  classificado. Sendo a classificação uma forma de protecção de um bem cultural (Artº 16º da Lei de Bases do Património – Lei nº 107 / 2001, de 8 de Setembro), talvez que a pertença da Igreja da Misericórdia a uma instituição consolidada e estável ao longo de muitos séculos explique que a sociedade torriense não tenha sentido a necessidade de socorrer-se daquele instrumento legal para a sua preservação. Igualmente, o facto de a Igreja se situar no perímetro urbano designado como Centro Histórico parece garantia suficiente de protecção do edifício e da sua envolvente.

Os tempos que vivemos aconselham, porém, uma reconsideração das condicionantes que envolvem o edifício. As vivências cultuais de hoje são bem diversas dos tempos primitivos da Misericórdia: já não há doentes do hospital que ali assistam aos ofícios religiosos e as paróquias da cidade têm as suas próprias igrejas, embora na Misericórdia se continuem a realizar actos de culto em situações festivas. Por outro lado, o turismo cultural ganhou uma dimensão impensável há décadas atrás, pelo que a classificação dos monumentos deixou de ter apenas o valor de protecção legal, para se assumir como garantia de interesse turístico e de atractivo para a sua divulgação.

 

CONDIÇÕES NECESSÁRIAS

Terá a Igreja da Misericórdia de Torres Vedras características que permitam considerá-la dentro de algum ou alguns dos critérios genéricos de apreciação para uma possível classificação, enumerados no Artigo 17º da referida Lei? Parece-nos que sim. Desde logo, o seu carácter matricial, espaço criado como apoio religioso da Misericórdia e assim se tendo mantido ao longo destes 500 anos; e também o interesse do bem como testemunho simbólico ou religioso e como testemunho notável de vivências ou factos históricos; o seu valor estético, técnico e material, bem como a concepção arquitectónica e urbanística, perfeitamente integrada no tecido urbano do centro histórico; por último, a marca indelével na memória colectiva como espaço que sempre fez parte das vivências quotidianas da população torriense.

Foi com base nestes pressupostos que a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras considerou oportuno que se iniciasse o processo de classificação da Igreja da Misericórdia de Torres Vedras, disso dando conhecimento à Mesa Administrativa daquela instituição.

Diz o Artigo 25º da Lei de Bases do Património que “o impulso para a abertura de um procedimento administrativo de classificação ou inventariação pode provir de qualquer pessoa ou organismo, público ou privado, nacional ou estrangeiro”. Assim sendo, e tendo em conta os objectivos e a prática da Associação do Património de Torres Vedras, esta associação tomou a iniciativa de requerer a classificação da Igreja da Misericórdia, de acordo com o enquadramento legal definido pelo Decreto-Lei nº 309/2009, de 23 de Outubro.

O processo tem uma fase inicial que consiste no preenchimento de um formulário constante do site da Direcção Geral do Património Cultural. É nesse preenchimento que se está a trabalhar, de modo a facultar aos decisores os elementos necessários para a abertura do processo de classificação. Após a entrega do formulário, os trâmites administrativos subsequentes serão demorados, nunca menos de dois anos. Para já, o processo vai ser iniciado.

Direcção da ADDPCTV





O contraste entre a fachada austera e a exuberância artística do interior – talha dourada, azulejos, pintura e escultura – é característico do chamado “estilo chão” do Barroco português. Mais importante do que a aparência externa é a beleza do que está la dentro – parece ser essa, a mensagem dos construtores, clara alegoria à dualidade corpo/alma.


30 setembro 2020

1º CONGRESSO DAS ASSOCIAÇÕES DO PATRIMÓNIO DO OESTE - 3 de OUTUBRO 2020

 



O associativismo tem vindo a desempenhar um papel importante na defesa do património nacional.

O I Congresso das Associações de Defesa do Património do Oeste pretende dar a conhecer o trabalho desenvolvido pelas associações do Oeste e traçar um caminho comum na defesa do património da região.

Por razões que se prendem com a actual situação de pandemia, o congresso não será publico mas poderá ser seguido online através do site da Associação Patrimonium – Centro de Estudos e Defesa do Património da Região de Peniche:

 

Programa

Inicio - 15:00

Presidentes de mesa:

Luís Rendeiro - Presidente da PATRIMONIUM

Aida Rechena - Museu Nacional Resistência Liberdade - Peniche

 

ADDPCTV - 15:10

Joaquim Moedas Duarte

 “ PATRIMÓNIO INDUSTRIAL, MEMÓRIAS E IDENTIDADE COMUNITÁRIA ”

 

CEHL - 15:25

Teresa Faria

“ O CONTRIBUTO DUMA ASSOCIAÇÃO NA PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA COLETIVA.“


ARMÉRIA - 15:40

Jorge Maia

“ UTOPIAS PATRIMONIAIS ”

 

CEPAE - 15:55

Adélio Amaro

“ PATRIMÓNIO EM REDE ”

 

 Tempo pergunta resposta

 Coffee Break – 16:20

 

Aspiring Geoparque Oeste - uma candidatura à UNESCO – 16:30

Rute Torres

“ APRESENTAÇÃO DO PROJECTO, GEOCONSERVAÇÃO E  GEOSITIOS ”

 

Património Histórico - Grupo de Estudos – 16:45

Joana Beato Ribeiro

“ PATRIMÓNIO HISTÓRICO – GRUPO DE ESTUDOS E FERNANDO DA SILVA CORREIA ”

 

PATRIMONIUM – Centro de Estudos do Património da Região de Peniche – 17:00

Adriano Constantino

“ PATRIMONIUM, DESDE DE 1997 EM PROL DO PATRIMÓNIO ”

 


Investigador/Antropólogo – 17:15

André Camponês

“ A SALVAGUARDA DO PATRIMÓNIO CULTURAL EM PENICHE E ALCOBAÇA NO FINAL DO SÉCULO XIX: O PAPEL DO ASSOCIATIVISMO E DOS ERUDITOS PORTUGUESES ”

 

Professor – 17:30

 Francisco Fidalgo Félix

“ ORGANIZAÇÕES LOCAIS, REDES SOCIAIS E VALORIZAÇÃO DO PATRIMÓNIO NATURAL ”


Tempo pergunta resposta

Encerramento- 18:00

PÁGINA "PATRIMÓNIOS" | 25 SETEMBRO 2020 | TODOS OS ANOS EM SETEMBRO

 

PATRIMÓNIOS  | 25 SETEMBRO 2020

 


TODOS OS ANOS EM SETEMBRO

 


                    

A Associação do Património de Torres Vedras participa, há uns bons anos, nas Jornadas Europeias do Património que se realizam sempre em Setembro. Este ano decorrerão nos dias 25, 26 e 27. Cabe à Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) coordenar as iniciativas que se organizam por todo o país. O tema deste ano é “Património e Educação”. A página web da DGPC explica: “Pretende-se com este tema sensibilizar para o papel do património na educação e para o papel da educação no património, para a riqueza e para a complexidade desta relação – na literatura, nas artes, nos monumentos, na dança, no teatro, na paisagem, nos jogos, nos museus, na fotografia, nos sítios arqueológicos ou na música, entre muitos outros”.

Infelizmente, as condições restritivas impostas pela pandemia da Covid–19 condicionaram a nossa participação nas Jornadas deste ano. Bem gostaríamos de organizar um acontecimento público como em anos anteriores – caminhada temática, ou visita guiada, ou colóquio / conferência ou o que quer que a criatividade e as circunstâncias permitissem. Não foi possível e por isso não constamos da lista nacional de iniciativas. Mas estamos presentes. Esta página PATRIMÓNIOS, que vimos publicando todos os meses no Badaladas, é, afinal, a forma de participação mais adequada ao tema “Património e Educação”. Quando aqui abordamos o nosso Património local, fazemo-lo com intuitos educativos, na perspectiva da Educação para todas as idades. Inspirando-nos no Latim de origem, a palavra “educar” aponta para um movimento (educere) para fora. É isso que o nosso Património nos pede: olhar para além de nós e entender o valor dos vestígios do passado.

Vem a propósito contar o que se passou há uns anos numa paróquia do nosso concelho. As pessoas encarregadas da limpeza do cartório paroquial depararam-se com uns livros antigos, cheios de pó, quase ilegíveis, a cheirar a mofo. Juntaram-nos ao lixo das varreduras e, no fim do dia, fizeram uma fogueira no pátio. Salvaram-se alguns que pareciam mais conservados. Alguém avisado deu conta disto e perguntou às diligentes encarregadas da limpeza o que tinha acontecido. “Eram papéis velhos, sem préstimo” – foi a resposta inocente.

Afinal, o que tinha desaparecido irremediavelmente eram registos cartoriais de enorme valor documental: baptizados, óbitos, actas de confrarias, livros de visitações, despesas de obras, etc. Livros seculares que uma leitura paleográfica competente desvendaria, trazendo até nós pedaços de vidas passadas e informações preciosas sobre a História Local. Assim desapareceram parcelas únicas da memória social que nos ajudariam a entender melhor o presente em que vivemos.

Este não foi caso único. Por esse país fora, quantos aconteceram! Felizmente há pessoas esclarecidas que entendem o valor patrimonial da documentação antiga e os exemplos de salvaguarda talvez compensem as perdas. Zeladores cuidadosos guardam carinhosamente a documentação histórica ou encaminham-na para os arquivos nacionais. Nas mãos de investigadores preparados, esses velhos papéis falam com eloquência do passado das comunidades humanas.

Um dos lemas da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras é este: “Conhecer para melhor preservar”. Nada do que é o nosso Património nos pode ser estranho ou inútil, tem sempre algo a dar-nos, por insignificante que pareça. Aquelas pessoas não agiram por mal mas por ignorância. Ajudá-las a conhecer é um dos objectivos destas Jornadas Europeias do Património.

 

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PATRIMÓNIO: ENCONTRO DO PASSADO COM O FUTURO

 

Há quem menospreze as preocupações com a preservação do Património Cultural com o argumento de que o passado está morto e devemos dar primazia ao presente e ao futuro. Leia-se o que, a este propósito nos diz Guilherme d’Oliveira Martins numa obra que recomendamos vivamente, Património, herança e memória – a cultura como criação (Ed. Gradiva, Lisboa, 2009, p. 14):

«Tradição significa transmissão, dádiva, entrega, gratuitidade. Modernidade representa o que em cada momento acrescentamos à herança recebida, como factor de liberdade e de emancipação, de autonomia e de criação. A novidade resulta sempre desse diálogo entre o que recebemos e o que criamos. E a cultura situa-se nesse ponto de encontro e de saída – não em confronto com a natureza, mas complementarmente a ela. As casas, os lugares, as regiões, os povos, as nações, têm um espírito, sempre feito de diferenças e de interdependência.

Temos, por isso, de entender o “espírito dos lugares” e de transformar essa compreensão num modo de nos enriquecermos culturalmente a partir do diálogo entre o que recebemos dos nossos antepassados, correspondente ao Património material e imaterial, e o que criamos de novo, a contemporaneidade – que nos insere na História, onde tudo se transforma».

                             

      A memória do passado é um alicerce do futuro (Igreja da Graça, foto Moedas Duarte)

                    

JORNADAS EUROPEIAS DO PATRIMÓNIO

«As Jornadas Europeias do Património são uma iniciativa anual do Conselho da Europa e da União Europeia que envolve mais de 50 países, no âmbito da sensibilização dos povos europeus para a importância da salvaguarda do Património. Neste sentido, cada País elabora anualmente um programa de actividades a nível nacional, a realizar em Setembro, acessível ao público gratuitamente.

A ideia base da iniciativa é promover o acesso aos monumentos e sítios, convidando à participação activa na descoberta de uma herança cultural comum, implicando o envolvimento dos cidadãos europeus com o património cultural. Os objectivos principais são reforçar os sentimentos de identidade cultural, de memória colectiva e de afirmação de um património comum cuja riqueza reside na sua diversidade. As Jornadas Europeias do Património representam, por isso, uma celebração da solidariedade internacional, do diálogo e da diversidade culturais, constituindo momentos de reapropriação dos vestígios culturais do passado».

(http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/recursos/projectos-de-divulgacao/jep-jornadas-europeias-do-patrimonio/)

 

Direcção da Associação para a Defesa e Divulgação

do Património Cultural de Torres Vedras

 

 

 

 






28 agosto 2020

PÁGINA "PATRIMÓNIOS" NO JORNAL "BADALADAS" - 28 AGOSTO 2020

 

CAIXARIA

O PRAZER DE VER O NOSSO PATRIMÓNIO

Joaquim Moedas Duarte (Texto e fotos)


À DESCOBERTA

Temos ouvido algumas queixas sobre o esquecimento a que estaria votado o património cultural torriense existente fora da cidade. De facto, Torres Vedras não é só o aglomerado urbano da sede concelhia, tem em seu redor um vasto território de 400km2 que faz dele o concelho mais extenso do antigo distrito de Lisboa. Nas doze freguesias do termo concelhio há um riquíssimo espólio patrimonial que importa divulgar e valorizar. A Associação do Património tem procurado fazê-lo nas suas diversas actividades:  páginas nas redes sociais, passeios a pé, visitas guiadas e intervenções na imprensa regional, como esta página “Patrimónios”, que publicamos mensalmente no Badaladas.

Há dias fomos convidados a elaborar pequenos textos introdutórios a quatro concertos vídeo-gravados em igrejas do concelho. Logo nos dispusemos a colaborar, fiéis ao que atrás dissemos. Há um valioso património edificado que é necessário lembrar. Um exemplar notável é a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, na Caixaria, Dois Portos, uma das escolhidas para esses concertos.

A Estrada Nacional nº 248, entre Runa e Dois Portos, passa ao lado da pequena povoação da Caixaria. É necessário sair da estrada e entrar por uma das duas vias de acesso. Foi o que fizemos. A experiência já nos ensinou que vale a pena fazer incursões inesperadas e palmilhar as ruas com os olhos disponíveis e curiosos. Lá encontrámos velhas adegas, portões antigos, cantarias vetustas. Ou um poço público com bomba de volante accionada manualmente, um equipamento que a Casa Hipólito fabricava nos anos 50.



Surpreendente, foi a descoberta do belíssimo relógio de sol, colocado na esquina de uma casa, a cerca de seis metros de altura, numa travessa próxima do adro da igreja. Datado de 1733, de orientação duplamente declinante, em pedra lioz, ainda cumpre a sua função, marcando horas num intervalo das 5 da manhã às 7 da tarde.[1] 




O adro da igreja convida a uma paragem. Dos bancos junto ao muro, na sombra de frescas faias ramalhudas, observamos o vale da Ribaldeira e as colinas que o rodeiam, imagem esplendorosa do verdejante Oeste estremenho, numa saturação de adjectivos que não conseguimos reprimir, absortos que estamos na luz da tarde que nos envolve.  




IGREJA DE NOSSA SENHORA DOS PRAZERES    


                  

A invocação mariana da padroeira celebra as alegrias, ou prazeres, da Virgem no seu percurso terreno.

Olhemos a fachada. Típica do século XVIII, com o remate das linhas onduladas das volutas e os fogaréus no cimo das falsas pilastras, sugeridas pelas barras verticais azuis. Os mesmos elementos encontramos na torre sineira, bem proporcionada, a poente. O conjunto tem harmonia, sublinhada pelo contraste entre as superfícies brancas e as barras azuis.


O interior é de feição barroca, bem expressa na exuberância e variedade dos elementos decorativos: o tecto de berço, com o anagrama mariano, os lírios e as composições geométricas; a pintura marmoreada das paredes, com efeitos tromp l’oeil (ilusão de óptica); o púlpito com talha dourada; e o coro alto, com sua imponente balaustrada de madeira a imitar o mármore.

          


       

É na capela-mór que encontramos o conceito da arte total, do barroco joanino: o retábulo setecentista, com colunas salomónicas a delimitarem o espaço das imagens sacras em que se destaca a padroeira, no trono central; nas paredes laterais, as pinturas, de desenho ingénuo, com cenas da vida da Virgem, os painéis de azulejos com simbologia mariana e a imitação de elementos arquitectónicos. A existência dos degraus que conduzem ao plano sobre-elevado do altar, e nos quais encontramos decoração com embutidos de mármore, recorda o que foi o templo primitivo do séc. XVII, atestado por uma inscrição de 1640.







Na sacristia, um arcaz singelo guarda peças admiráveis de paramentaria e têxteis litúrgicos.

 

PARTICIPAÇÃO DAS POPULAÇÕES LOCAIS

Não nos cansamos de elogiar o papel importantíssimo das comunidades locais na preservação do seu património. Coordenadas pelos párocos, cada vez mais sensibilizados para estas questões, elas têm sido de uma enorme generosidade que motiva e arrasta a participação de entidades exteriores, como os antigos governadores civis e as autarquias locais – Câmara Municipal e Juntas de Freguesia. Foi esta dinâmica que permitiu as dispendiosas obras de manutenção e restauro da igreja da Caixaria, que decorreram entre 1997 e 2000. Nas conversas que tivemos durante a nossa visita, na companhia do pároco actual,  Pe. Rui Gregório, registámos nomes e factos. Correndo o risco de esquecermos alguém, nomeamos a Comissão inicial que dinamizou a angariação de fundos: Gabriela Correia, zeladora da igreja, como já o havia sido sua mãe, Silvina Tomé; Nazaré Tomás; os irmãos Marcos, António e Joaquim José; Américo Romão. Almoços de convívio, exposições, caminhada, sorteios e leilões nas festas, tudo se fez para juntar os milhares de contos necessários. Apareceram dádivas avultadas de pessoas anónimas.

O resultado está à vista. Aquela pequena povoação pode mostrar, com legítimo orgulho, um templo que é a expressão viva da adaptação dos cânones barrocos eruditos ao gosto e aos escassos recursos populares.



[1] Medição do tempo em Torres Vedras – José Mota Tavares et al., Câmara Municipal de Torres Vedras, 2012, p. 40, 41.




01 agosto 2020

PÁGINA "PATRIMÓNIOS" NO JORNAL BADALADAS

Em 31 de Julho de 2020




O EDIFÍCIO DAS TERMAS DA FONTE NOVA

PRESENTE


 


Desde sempre nos habituámos a ver este edifício, na Rua Santos Bernardes, já perto da rotunda que antecede a zona do Hospital. É mais antigo do que qualquer um de nós, terá sido construído por meados do séc. XIX. Habitado até há cerca de 15 anos, ficou devoluto e entrou em rápida degradação. Os dois logradouros que o rodeiam transformaram-se em matagais quase impenetráveis. Olhávamos para aquele imóvel e sentíamos o desconforto da decadência. Janelas entaipadas, empenas escondidas. Quando a vegetação permitia, conseguíamos ver a fachada de um pavilhão ao lado da casa, com um portal expressivo e, sobre ele, uma inscrição: TERMAS DA FONTE NOVA. A designação de Fonte Nova liga-se à existência de um antigo fontanário que existiu perto dali, construído no século XVI, chamado de “novo” por antinomia com o “velho”, do século XIV, o bem conhecido Chafariz dos Canos. Um e outro garantiam o abastecimento de água a quem chegava ou partia pelas duas principais vias de acesso à velha urbe torriense.

A Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras, por diversas vezes, fez sentir junto dos órgãos autárquicos a necessidade de preservar aquele conjunto edificado. Não só por ser o único vestígio oitocentista naquela área mais recente da cidade, mas pela qualidade arquitectónica e pelo conteúdo memorial a ele ligado. Foi com regozijo que soubemos da sua compra pela Câmara Municipal, em Janeiro deste ano. Quando há dias visitámos aquele espaço, verificámos o estado de ruína das Termas mas, devido à limpeza previamente feita, observámos as potencialidades que conserva, nomeadamente o edifício principal e os logradouros envolventes – o da fachada principal e o das traseiras, voltado à R. Capitão Figueiroa Rego.



PASSADO

Litografia da revista O OCIDENTE

A revista O Ocidente que se publicava em Lisboa, mas versava assuntos de Portugal e do estrangeiro, inseriu no seu número de 5 de Junho de 1895, uma reportagem intitulada “Visita a Torres Vedras – Inauguração das águas da Fonte Nova”, assinada por Caetano Alberto e ilustrada com litografia feita a partir de uma fotografia de Martinez Pozal. A prosa expressiva e a bela ilustração transportam-nos à época em que António dos Santos Bernardes, proprietário da casa, convidou altas personalidades da terra e da capital, bem como várias bandas de música, para a inauguração das suas termas. Festa rija que incluiu almoço nas Termas dos Cucos e jantar no Hotel Natividade. O repórter, encantado com as paisagens do Oeste e as degustações refeiçoeiras, mais se deliciou com as moçoilas que serviam a água aos visitantes das novas termas inauguradas naquela Quinta Feira de Ascensão, 23 de Maio de 1895. Ele o diz: «Aquelas águas, servidas por umas empregadas tão garridas e tão pitorescamente formosas, devem necessariamente duplicar os seus efeitos salutares…».

Salinas Calado, notável patrimonialista que viveu muitos anos em Torres Vedras, já aposentado, acalmava saudades em crónicas regulares no Badaladas. Em 16 de Junho de 1962 dava conta de um folheto que casualmente lhe viera às mãos, intitulado “Fonte Nova (Torres Vedras) – Águas medicinais”, no qual “o sábio analista Charles Lepierre” assegurava as qualidades medicinais daquelas águas, indicadas para males de estômago, entre outros.

Adão de Carvalho, que tanto amou e divulgou as antiguidades torrienses, assinalou o centenário da inauguração das termas da Fonte Nova com um artigo no Badaladas de 19 de Maio de 1995. Socorrendo-se dos apontamentos e recortes antigos de imprensa que laboriosamente colecionava, lembra que as termas foram uma iniciativa do proprietário que as mandou construir sobre a nascente daquelas águas medicinais. Previamente analisadas, assegurou-se do seu valor – foram comparadas às das Pedras Salgadas e Vidago. A verdade é que o povo já se habituara a procurar nelas o alívio das más digestões e, até, do reumático. A construção das termas respondia à procura, garantindo qualidade de manuseio e assistência médica no seu consumo.

As termas funcionaram cerca de cinco anos e, a seguir foram encerradas pois as despesas eram superiores às receitas. Motivo prosaico a que se juntou o decréscimo da qualidade da água, talvez devido à maior procura e à proximidade de um número crescente de habitações. O proprietário morreu e o sobrinho ainda permitiu, durante algum tempo, o usufruto gratuito das águas.

A propriedade acabou por ser adquirida mais tarde pela família Chichorro, da Quinta de Vale de Galegos, que a manteve praticamente até aos nossos dias.


FUTURO


Desenho tosco, apenas indicativo

De acordo com o site da Câmara Municipal de Torres Vedras, «o procedimento de concurso público para conceção, realização de obras de requalificação e exploração para fins hoteleiros, termais e de restauração do edifício das antigas “Águas Termais da Fonte Nova” insere-se no “Programa Estratégico de Oferta Hoteleira da Cidade de Torres Vedras”».

Significa, pois, que aquele espaço será requalificado e reactivado. O auto de vistoria, realizado pela Divisão de Gestão Urbanística, com a colaboração da Área de Regeneração Urbana, analisou pormenorizadamente todo o conjunto e apontou como orientação de respeito obrigatório a manutenção da traça primitiva do edificado e, «caso seja equacionada a possibilidade de ampliação do edifício, de modo a viabilizar o investimento na sua reabilitação e revitalização, (…) que essa ampliação se efetue para a Rua Capitão João Figueirôa Rego, preenchendo o espaço do logradouro compreendido entre a fachada poente do edifício habitacional e o prédio contíguo com o n.º 3 desta rua».  

Aguardemos, agora, a coragem e o investimento necessários ao ressurgimento da Fonte Nova.

Direcção

da Associação para a Defesa e Divulgação

do Património Cultural de Torres Vedras


Nota publicada na página do Facebook de Joaquim Moedas Duarte:

Complementando o que anteriormente aqui deixei escrito sobre o edifício das Termas da Fonte Nova, transcrevo a parte do Auto de Vistoria, realizado pela Divisão de Gestão Urbanística, com a colaboração da Área de Regeneração Urbana, que refere o que deve ser respeitado na futura recuperação do edifício.
Lembro que a imagem do edifício futuro é apenas desenho tosco que não passa disso.
O documento pode ser analisado pelos interessados na Câmara Municipal ou pedido por mail.
Dada a sua extensão, não é viável a sua reprodução neste espaço.


AUTO DE VISTORIA:

(...) [ Descrição pormenorizada de todo o conjunto, com enumeração das anomalias e estado das estruturas, pavimentos, paredes, tetos, etc. ]

«2. Elementos Patrimoniais a preservar nos edifícios

2.1 Edifício Habitacional

Avaliado o edifício habitacional, considerou-se que deveriam ser element
A escada interior principal do edifício que se encontra em bom estado de conservação, devendo manter-se a sua forma, guarda e revestimento dos degraus em madeira;

Os tetos trabalhados em estuque e madeira (esta pode ser substituída por madeira nova), sobretudo no piso térreo;

Os vãos das portas interiores principais dos diversos compartimentos, sobretudo, as que apresentam na parte superior do vão elementos em vidro;

Procurar aproveitar as portas interiores em madeira que estejam em bom estado;
Os pavimentos cerâmicos do piso térreo;

Na Cozinha e na instalação sanitária do piso 1, deverão ser preservados a chaminé, os elementos de azulejaria e os pavimentos cerâmicos;

Os pavimentos em madeira do piso térreo e do piso 1 e sótão deverão ser reabilitados, devendo ser substituídos por madeira nova, nos casos em que não seja possível manter os existentes;

Os rodapés em madeira do piso térreo também deverão ser reabilitados;

Ao nível do exterior do edifício deverão manter-se as fachadas principais, com a métrica dos vãos, materiais das molduras dos vãos, materiais da fachada e dos vãos (madeira) e cor da fachada (amarelo torrado).

As portas e janelas exteriores cujo material em madeira esteja em bom estado deve valorizar-se a sua recuperação em detrimento de colocação de novos vãos em madeira;

As testas dos vãos interiores e exteriores com bandeira em vidro, deverão ser repostos/reabilitados com o mesmo desenho e métrica, existentes;

A chaminé principal do edifício deverá igualmente ser mantida. Deverá manter-se o pé-direito dos pisos térreo e piso 1.
Na fachada poente existem ainda uma varanda e uma escada exterior metálica em caracol, cuja manutenção deverá ser equacionada, caso o edifício seja ampliado na Rua Capitão João Figueirôa Rego. Neste caso deverá equacionar-se a possibilidade de relocalização da escada exterior noutro local do edifício.

Considera esta comissão que poderá equacionar-se para um aproveitamento do piso de sótão, a subida do arranque da cobertura, cuja morfologia poderá ser alterada, através o aumento da cota da cumeeira.

2.2 Edifício das Termas

No edifício das termas deverá procurar-se manter a sua cércea e volumetria, assim como a imagem exterior que tinha e que consta da imagem acima.

Deverão ainda manter-se:

Os pavimentos cerâmicos e azulejos;
A escadaria de acesso à fonte termal e o compartimento com os bancos; Não foi possível visualizar a fonte termal, devido à densa vegetação
existente, mas deverá procurar-se manter este elemento, como memória do local;

Ao nível do exterior, e tal como do edifício principal deverá manter-se a imagem, métrica dos vãos e materiais associados aos vãos e fachada, assim como a sua cor;

No que diz respeito à cobertura, deverá ser encontrada uma solução que, não obstante a sua contemporaneidade, resulte de uma reinterpretação da
morfologia original, incluindo a iluminação zenital, sem comprometer a identidade do edifício.

2.3 Logradouro

O logradouro principal para a Rua Santos Bernardes deverá manter o seu estado original, assim como os muros, portão principal e gradeamento em ferro, que deverá ser preservado. Poderá admitir-se, no entanto, uma alteração do muro na zona junto ao edifício com o n.º 3 da Rua Santos Bernardes de modo a também valorizar o espaço público e acessos ao recinto, mas sempre mantendo o pórtico preexistente no respetivo local.

Caso seja equacionada a possibilidade de ampliação do edifício, de modo a viabilizar o investimento na sua reabilitação e revitalização, esta comissão aconselha que essa ampliação se efetue para a Rua Capitão João Figueirôa Rego, preenchendo o espaço do logradouro compreendido entre a fachada poente do edifício habitacional e o prédio contíguo com o n.º 3 desta rua.

Uma ampliação do edifício nesta rua permitiria também anular a empena que o n.º
3 da Rua Capitão João Figueirôa Rego gera sobre o terreno.

[ Fotos com indicações diversas]

(...)


4. Conclusão
Sugere-se que as intervenções nos edifícios e logradouro, obedeçam aos seguintes princípios:

Habitação – a intervenção deve ser mais ligeira, voltada para conservação e reabilitação, onde a quantidade de elementos originais justifica o seu reaproveitamento acompanhado pela reposição de elementos em falta: estrutura, soalho, azulejos, mosaicos, carpintarias, etc. Conseguir uma solução que garanta os princípios de autenticidade e reversibilidade do património existente. A futura intervenção não deve ser demasiado invasiva, aproveitando o máximo de compartimentos interiores, para a integridade estrutural não ficar comprometida.

Termas – exige uma reabilitação mais profunda, onde os elementos a aproveitar são em menor quantidade, não justificando recorrer a imitações.

Logradouro – ampliação/construção nova, cuja solução respeite a preexistência, mas que assuma a sua contemporaneidade




27 junho 2020

PÁGINA "PATRIMÓNIOS" NO JORNAL BADALADAS


Em 26 de Junho de 2020:





O ENCANTO DA ERMIDA DO SIROL
Joaquim Moedas Duarte

De Torres Vedras ao Sirol – pequena povoação da freguesia de Dois Portos (União das freguesias de Dois Portos e Runa) – distam cerca de 15 km. Diz a historiadora Ana Maria Rodrigues que a povoação já vem mencionada na inquirição de 1309 e no numeramento de 1527, com a indicação de que, nesses anos, tinha 10 e 9 fogos, respectivamente. Isto é, cerca de meia centena de moradores. Quando há dias lá fui, em mais uma das visitas que gosto de repetir, verifiquei que a povoação continua maneirinha, pacata, acolhedora nas vozes das vizinhas que se encontram no pequeno largo e que responderam com familiaridade espontânea ao meu “bom dia”. O que me leva ao Sirol é a sua ermida, no deleite de rever, como se fosse a primeira vez, o seu magnífico interior. Socorro-me do que disseram os autores do precioso repositório artístico da Junta Distrital de Lisboa quando aqui estiveram em 1963: «um conjunto surpreendente de estuques da segunda metade do século XVIII, que revestem completamente paredes e abóbada. De um lado e de outro, quatro grandes painéis de estuque, representando os Evangelistas, e, ladeando o arco triunfal, S. Sebastião e Santa Bárbara. Alguns motivos decorativos, de excelente desenho, revelam modelos eruditos e são característicos da época». Maior seria a surpresa se vissem o resultado dos restauros que foram feitos nos anos posteriores e que restituíram cor e integridade aos estuques iniciais, danificados pelo tempo. Eles também se referem aos azulejos, num comedido comentário: «Bons os silhares de azulejos, do final do séc. XVIII». Aqui temos de pedir opinião ao grande estudioso da azulejaria nacional, J. M. dos Santos Simões, que passou pelo Sirol nos anos 70 do séc. XX, quando fazia o seu minucioso inventário por todo o país. Diz ele que «os azulejos são de magnífica qualidade, de bom desenho e coloração. Julgo-os de cerca de 1770-75 e não me repugna que hajam sido fabricados na Fábrica Real[do Rato], logo nos primeiros anos da sua laboração». Alargando a sua apreciação, faz descrição minuciosa da composição, característica da época: painéis historiados com cenas marianas – vida da Virgem – monocromáticos de azul em fundos brancos, emoldurados por cercaduras de motivos de “asas de morcegos” a azul forte. Estes silhares revestem a parte inferior das paredes da nave e da capela-mor, «azulejo de um mesmo tipo, época e fabricação, ou seja, fez parte de uma encomenda global» (SIMÕES, 2010, p. 413). Acima deles, correm os grandes painés de estuque com a representação de figuras sacras – dois doutores da Igreja, os quatro evangelistas, S. Francisco de Bórgia com a caveira coroada, símbolo da vida efémera; S. Sebastião e Stª Bárbara; e Stª Ana e S. Joaquim, pais da Virgem, cujo dia se celebra em 26 de Julho, data da sagração deste templo, atestada por uma inscrição em pedra no arco da porta de entrada. É o estuque colorido, desenhado e aplicado com mestria, que dá uma ambiência única a este espaço, «exemplar raríssimo», como sublinha Santos Simões. Mas é na capela-mor que mais se admira a unidade de concepção decorativa, a chamada “arte total” distintiva do Barroco, que articula harmoniosamente os estuques das paredes e do tecto, os azulejos, as figuras escultóricas – com destaque para a notável imagem de Nª Senhora com o Menino – e os mármores do retábulo. Bem se entende o nosso encantamento com a Capela do Sirol.








O CONTRASTE DA FACHADA





O vulto exterior da capela não indicia o que há no interior. Recordo-me da impressão da minha primeira visita: um certo desequilíbrio entre a monumentalidade da torre sineira e o corpo do edifício, que parecia apoucado por ela. Mas um e outro elementos, analisados em separado, são dignos de registo. A porta da capela é precedida de uma galilé aberta por uma arco de volta perfeita sobre o qual se encontra a inscrição da sagração do templo: HERMIDA / DE N. Sra. DA PURI / FICAÇÃO  / Bta [benta] a 26 DE / JULHO DE / 1749. Logo acima do arco, uma grande janela com varandim de ferro e moldura em cantaria recortada, serviria para os sermões em dia festivo de missa campal. A torre é semelhante a muitas que encontramos nas igrejas da região, características do século XVIII: lançamento em altura, com quatro janelas sineiras e coberta por abóbada bulbosa pontuada por quatro fogaréus no acrotério das quatro faces. Cá em baixo, grossos pilaretes marcam o espaço do adro.
A monumentalidade e singularidade desta ermida de Nª Srª da Purificação – classificada como Monumento de Interesse Público desde 1967 –, dominando a pequena aldeia do Sirol, suscita a interrogação sobre quem terá financiado a sua construção inicial e posterior decoração do interior. Arrisco uma hipótese plausível: aqui bem perto, a cerca de três quilómetros a oeste, fica a Quinta da Conceição, que nos séculos XVII e XVIII pertenceu aos Marqueses do Lavradio, a maior casa senhorial e agrícola da área rural torriense. A capela do imponente Paço da Quinta, com uma pequena sineira, é de mesquinha dimensão. Terão os seus senhores contribuído para valorizar o templo da aldeia dos seus assalariados e rendeiros?  

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS:
Ana Maria Feliciano e António S. Leite: A Casa Senhorial como matriz da territorialidade, Caleidoscópio, s/l, 2015.
Carlos de Azevedo e Adriano de Gusmão: Monumentos e edifícios notáveis do distrito de Lisboa – Torres Vedras, Lourinhã, Sobral de Monte Agraço, Junta Distrital de Lisboa, 1963.
J. M. Santos Simões: Azulejaria em Portugal no Século XVIII, Fund. C. Gulbenkian, Lisboa, 2010.
Sites da Direcção Geral do Património Cultural e do SIPA – Sistema de Informação para o Património Arquitetónico

FOTOS: Joaquim Moedas Duarte


 Como chegar à aldeia de Sirol, a partir de Torres Vedras: