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09 agosto 2023

Descobrir outros Patrimónios | Jornal BADALADAS 28 JULHO 2023

 

Descobrir outros Patrimónios - Torres Vedras e Marvila

Pedro Fiéis

Professor e Presidente da Direção da ADDPCTV

 

Tem sempre sido apanágio da Associação para Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras ( ADDPCTV) colaborar ativamente com as escolas, afinal é nos jovens que começamos a incutir a importância da preservação do Património, material e imaterial, da paisagem natural, da identidade que nos torna singulares num mundo global. Por isso, mas não só, aceitou esta direção desde o primeiro momento o desafio colocado por professoras do Agrupamento de Escolas Madeira Torres (AEMT), de colaboração no seu projeto do Plano Nacional das Artes (PNA).

Tal como descrito em texto anterior, o PNA utiliza as artes como forma de “indisciplinar” a escola, ou seja, é proposto aos participantes que saiam da norma habitual, que é a sua disciplina e sala de aula, que seja alargado o campo de ensaio do jovem, quer através da partilha de experiências interdisciplinares, quer convivendo diretamente com obras de arte e seus executores, por forma a poder construir-se “a nossa identidade em diálogo com esse depósito de humanidade que está no património e nas obras de arte”.

Recordo o intercâmbio entre alunos da Escola Básica Padre Francisco Soares (do AEMT), em Torres Vedras, e do Colégio Cesário Verde, em Marvila, que estabeleceu relações de cultura, promovendo o debate, a conservação, o conhecimento e a valorização do património de ambos os locais. Os itinerários explorados pelos alunos abrangeram uma diversidade de temas, como a arquitetura, as tradições, a gastronomia, lojas com história, todo um conjunto de património artístico e natural que nos une na diferença, mas onde podemos igualmente encontrar pontos em comum, como a firma Abel Pereira da Fonseca e as vivências quotidianas de outros tempos, projetadas na atualidade.

A cooperação entre estas escolas e a ADDPCTV facilitou a construção destes itinerários culturais, expressos em valores materiais e imateriais, conducentes à descoberta e fruição do património local. Pelo caminho foram de mãos dadas com a interdisciplinaridade e transversalidade, proporcionadas pela conjugação de várias formas de arte, promovendo o desenvolvimento de inúmeras competências e aprendizagens essenciais.

Em ambas as escolas, do todo se fez a criação final, no caso do AEMT, culminando na apresentação do espetáculo “Turres Veteras”, no palco do Teatro Cine em Torres Vedras, com uma primeira apresentação interna e uma segunda, a 19 de março de 2023, para as famílias, resultado da residência artística com a Associação MusicÁlareira, cujo repertório foi tocado ao vivo pelos ALBALUNA e as 3 turmas envolvidas.

O projeto, contudo, não se esgotou nesse momento, antes ramificou-se, permitiu explorar outras ideias, como se puxando o primeiro fio, outros surgissem, numa autêntica explosão da imaginação dos jovens, bem enquadrados pelos seus professores, tendo no património um mundo para descobrir e explorar.

Menciono, ainda, como a arte tem o poder de transformar e agregar, assim ao Projeto Cultural da Escola (PCE), o qual integrou o PNA, uniu-se o Plano Nacional de Cinema (PNC), o Plano Nacional de Leitura (PNL) e o Plano Local de Leitura (PLL), do município de Torres Vedras, surgindo o Emocionário Ilustrado I e II, outro trabalho transdisciplinar, com um docu-filme e pinturas e textos expostos na Biblioteca Municipal entre os dias 1 de junho e 14 de julho de 2023.

Alunos do curso de Artes Visuais do Agrupamento de Escolas Henriques Nogueira (AEHN) ilustraram emoções e colegas do AEMT escreveram sobre as mesmas. O que permanece nestes jovens? Uma excelente ferramenta para o autoconhecimento, comunicação, expressão de emoções, auxiliando na gestão de conflitos. Na página do Facebook PCE-AEMT podem ser consultadas notícias e imagens do imenso trabalho desenvolvido por esta equipa excecional.

Equipa à qual deixo um profundo agradecimento: Cristina Coimbra (Coordenadora), Ana Nunes, Elisabete Reis e Niki Paterianaki, com as quais partilhámos esta experiência e as quais terão sempre nesta Associação um parceiro com que podem contar. Bem hajam pela vossa determinação e vontade em construir uma vivência diferente.

Queremos mais, divulgar é palavra primordial nos objetivos da ADDPCTV, é por esse meio que temos dado a conhecer a importância no nosso património coletivo, daí estarmos recetivos a propostas de trabalho, através do email: addpctvedras@gmail.com. A Escola afigura-se como um parceiro imprescindível, veículo de comunicação e cruzamento de saberes entre as várias gerações e de ligação entre o passado e o futuro.

Qual o papel a desempenhar? Precisamente aquele previsto pelo PNA, de mediação, interligando as artes e o património por forma a despertar o olhar, a curiosidade, a criação. Tal como nos é dito, pela junção do tradicional com o contemporâneo, do popular com o erudito, estamos a incutir nas novas gerações a importância do trabalho colaborativo e das artes, sob diversas formas, como sentido para a vida humana, despertando o respeito pelo outro, pela diferença, enfim, construindo uma sociedade mais justa.

É aos jovens a quem escrevo por fim, com 44 anos de existência, esta Associação precisa de todos para continuar a ter razão de existir. Há muito por fazer, projetos para abraçar. Juntem-se a nós com novas ideias, mantendo viva a esperança de ser o Património um elemento primordial na construção futura da nossa sociedade.

Grupo de professores das escolas parceiras com o artista residente em Marvila.


Cartaz exposição Biblioteca Municipal de Torres Vedras

 


Espetáculo Azul – artista residente Alba Luna

 


Espetáculo Azul - Final


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19 novembro 2019




Na passagem do seu 40º aniversário,
a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras
endereça este CONVITE PÚBLICO para a sessão de apresentação do vídeo-livro
SENTIR-TE A VOZ,  com texto de Luís Filipe Rodrigues e imagem de José Pedro Sobreiro.

Este trabalho, produzido e editado pela ADDPCTV, com o apoio da Câmara Municipal de Torres Vedras, constitui-se como narrativa cuja temática incide sobre a história de Torres Vedras, desde as suas origens até ao tempo presente.
Trata-se de uma evocação simbólica assumida por uma personagem - a menina cidade, na voz de Marta Roml - que se descreve a si própria rememorando os vários períodos históricos, os eventos marcantes da sua evolução e revisitando
os lugares mágicos da sua memória urbana.

Disponível em dois formatos - Livro+DVD e Livro + PEN USB.

08 março 2019

AFINAL, JÁ TEMOS BIBLIOTECA



Saiu hoje, no semanário BADALADAS, de Torres Vedras:



AFINAL, JÁ TEMOS UMA BIBLIOTECA


EQUIPAMENTOS CULTURAIS

No decurso destas quatro décadas de democracia, a melhoria das condições económicas tem permitido às autarquias colmatar algumas das suas lacunas, assistindo-se por todo o lado à construção de novos edifícios, equipamentos cujos custos têm sido sustentados por contribuições da administração central e quase sempre apoiados em fundos comunitários.
Um esforço que se saúda e que tem transformado a paisagem social do país. Acontece que a par se tem assistido à degradação dos centros históricos, sem que as câmaras municipais tenham instrumentos para promover a sua reanimação em termos de vida social, perante o abandono do edificado e consequente desertificação.
No caso de Torres Vedras, e não obstante um reconhecível esforço, por vezes questionável, de dignificação do espaço público, a reabilitação habitacional tarda em arrancar e o comércio definha perante a agressão dos grandes espaços comerciais instalados na periferia. Assim, a nossa câmara tem apostado no incremento da vida cultural, quer instalando os seus serviços culturais, quer apoiando o associativismo, quer promovendo eventos na zona. Recuperar velhos edifícios para novas funcionalidades é sem dúvida uma das estratégias a prosseguir, na reanimação das zonas históricas.

EDIFÍCIOS VELHOS/FUNÇÕES NOVAS

Vem isto a propósito do novo projeto para a Biblioteca Municipal. Como se sabe, foi esta instalada em parte do edifício da antiga Moagem Clemente – com inauguração solene em 25 de Abril de 2016 – numa decisão que desde sempre nos pareceu correta, dado que:
- A área bruta do edifício parece corresponder às necessidades daquele equipamento cultural, reconhecendo-se que o projeto de instalação /organização dos espaços e valências da Biblioteca se encontra razoavelmente ordenado.                                                                                     
- A reutilização da antiga moagem tem a vantagem de recuperar um edifício com grande significado histórico e social, cujas características de escala dificilmente encontrariam uma solução mais adequada a um novo ciclo de funcionalidade.                                                 
 - A sua localização é óptima uma vez que se situa no Centro Histórico, área carente de funcionalidades que possam contribuir para a sua revitalização, pela criação de fluxos de utilizadores compatíveis com as suas características urbanas, isto é, encontra-se no centro da cidade, em zona tranquila, permitindo mais circulação pedonal.
Lembremos que, quando se encarava a proposta de localização da nova biblioteca no Choupal (!) foi desta Associação que partiu a ideia de transformar o que era então um edifício industrial parcialmente devoluto, outrora ligado à indústria da farinha, da qual se fazia o pão que alimentou tantas gerações de torrienses, em espaço de cultura destinado agora a alimentar o espirito!
Certamente ainda se poderão melhorar as condições para os leitores, de que um depósito de livros e a integração das salas cedidas a uma associação local, serão as mais urgentes. Concluindo, parece-nos que o problema da biblioteca está bem resolvido, conjugando a rara circunstância de conciliar a funcionalidade de um serviço cultural importante, com a recuperação de um edifício antigo com características apropriadas para efeito.

UMA NOVA BIBLIOTECA

 A Câmara Municipal de Torres Vedras implementou, no entanto, um concurso de arquitetura para a construção de um novo edifício para a Biblioteca mais um duvidoso “Museu do Brinquedo”, a ser construído no espaço a norte da Igreja de Santiago, atual parque de estacionamento, processo que quanto a nós acarreta os seguintes problemas:
- Inviabiliza a existência de uma nova Praça, como espaço de respiração e abertura numa malha urbana muito densificada.
- Implica a perda da atual perspetiva sobre o Castelo e Igreja de Santa Maria, que constituiu uma surpreendente mais valia como leitura do espaço urbano, em consequência do desmantelamento do imenso e pesado edifício fabril.
- Suprime o estacionamento de superfície que se tem revelado tão útil para a manutenção da acessibilidade e do pouco que resta de vida social daquela zona.                                                                                            
Embora esta perda seja acautelada com a proposta  de estacionamento subterrâneo, existem dificuldades técnicas - não esquecer que se trata de zona de leito de cheia, e quem já tentou construir uma cave nessa zona bem conhece tais problemas - com riscos inerentes à solidez dos edifícios envolventes (Igreja de Santiago, p. ex.) para a própria segurança noturna e respetivos custos adicionais.                                         
- Por fim, cria uma rotura, pela escala e pela forma, relacionando-se mal com a envolvente de construções tradicionais de pequena escala e com um edifício histórico - a igreja de Santiago.
Estes aspetos ressaltam claramente de uma leitura do projeto premiado em concurso, ao qual podemos reconhecer qualidade arquitetónica em abstrato, mas que não se enquadra com o edificado.                                               
Repetimos, esta é uma zona sensível do ponto de vista hidrológico, urbanístico e histórico.



A POSIÇÃO DA ADDPCTV

Tem esta Associação apresentado a refutação ao projeto ora divulgado, defendendo a manutenção da Biblioteca no edifício da Moagem Clemente e a proposta de um arranjo urbanístico para a praça, pelo reenquadramento das traseiras dos edifícios da Rua Serpa Pinto, que possa conciliar a tomada de vistas e condições para o lazer, mantendo o estacionamento automóvel, pois todo o Centro Histórico beneficia com a sua presença, nomeadamente o comércio tradicional, tão carente de medidas de apoio.
Apostar novamente na densificação urbana deste local é um erro, perde-se a sua identidade e as referências espaciais, que nos orientam. Parece-nos ser este mais um caso de obreirismo fátuo, que se traduz em investimentos avultados para o erário público, e, afinal de contas, desnecessário.


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29 fevereiro 2016

QUE É QUE TEMOS ANDADO A FAZER?


Não temos actualizado o nosso blogue, é verdade. Contudo, ele continua a ser visitado diariamente por um número regular de interessados no nosso Património, o que nos incentiva a continuar com o empenhamento de sempre.
A Associação do Património de Torres Vedras tem mantido uma actividade permanente, na concretização do seu programa de acção. Assim:

1 -  Temos dado continuidade à publicação, no jornal Badaladas, da rubrica PATRIMÓNIOS com testemunhos vivos das memórias do séc. XX de Torres Vedras. A rubrica, que sai normalmente duas vezes por mês, já vai em cerca de 100 publicações.

2 - Tivemos uma reunião com o Vereador da Câmara Municipal Bruno Ferreira para esclarecimento de questões relacionadas com a gestão urbanística. Ficou decidido realizar regularmente estas reuniões.

3 - Iniciámos uma parceria com a Câmara Municipal para a realização de sessões sobre Património Local integradas no Clube Sénior. A primeira foi em 11 de Janeiro, no Outeiro da Cabeça; a segunda, em Dois Portos, realizou-se em 25 de Fevereiro.








4 - Continuámos a colaborar com o Projecto ISA Património (Idosos Saudáveis e Activos), através de acções de formação para os participantes que asseguram a abertura de algumas igrejas de Torres Vedras. Destaque especial para a Capela de Santa Maria do Amial que foi aberta ao público em Janeiro do corrente ano, no âmbito deste projecto.





5 - Prosseguimos a publicação de uma página no Boletim da União de Freguesias de Santa Maria, S. Pedro e Matacães, dedicada aos Monumentos desta unidade territorial administrativa. Já foram publicados dez números com a nossa colaboração.



6 - Publicámos em Janeiro, com o apoio da Promotorres,  o nº 20 da revista de sátira carnavalesca O BARRETE.


7 - Iniciámos em Janeiro a colaboração com o Pelouro do Património Cultural da Câmara Municipal de Torres Vedras num projecto de apoio a imigrantes do Extremo Oriente sediados no concelho de Torres Vedras. Comprometemo-nos a realizar sessões de divulgação cultural centradas no nosso Património Local.

8 - Participámos activamente na Assembleia Geral do Forum de Associações de Torres Vedras integrando os seus Corpos Gerentes com três elementos da Nossa Direcção.




9 - Respondendo a uma solicitação do Centro de Formação das Escolas de Torres Vedras e Lourinhã, orientámos uma visita guiada nas Linhas de Torres Vedras, integrada no Curso de Formação para Professores intitulado (Re)Conhecer Torres Vedras - As Linhas.





10 - Continuámos o moroso e paciente trabalho de organização dos nossos arquivos documentais e fotográficos.

11 agosto 2013

SANTA SUSANA DO MAXIAL



Hoje, 11 de Agosto, é o dia consagrado pela Igreja a Santa Susana.
A freguesia do Maxial, concelho de Torres Vedras, tem Santa Susana como padroeira. No cemitério local existe uma capela com a designação desta santa, capela que é, afinal, o que resta do antigo templo, destruído pelo terramoto de 1755. A Junta de Freguesia decidiu, em iniciativa que louvamos, proceder a obras de restauro e beneficiação daquela relíquia patrimonial. Assinalando o acontecimento, ontem, dia 10, foi lá celebrada Missa pelo Pároco P. José Miguel Ramos, cerimónia para a qual a Junta convidou a população, estendendo o convite aos amigos do Património e, como tal, à nossa Associação.
Como sinal e testemunho, publicou um pequeno opúsculo que reproduzimos, bem como a totalidade do texto, da autoria do Dr. Carlos Guardado da Silva, responsável pelo Arquivo Municipal de Torres Vedras e Presidente da Assembleia Geral da Associação do Património de Torres Vedras.
Associamo-nos, assim, à festa de Santa Susana e à meritória iniciativa da Junta de Freguesia do Maxial.







Contracapa do opúsculo, com a imagem de Santa Susana
















Folha interior do opúsculo com as referências de publicação.









Para uma biografia de Santa Susana do Machial


A igreja paroquial

A existência da igreja de Santa Susana do Machial, então com a designação de Santa Susana de Alcabrichel, remonta, muito provavelmente, ao início do domínio cristão da Estremadura, na sequência da conquista definitiva da linha do Tejo, em Outubro de 1147, por D. Afonso Henriques, no contexto da Segunda Cruzada. A fundação da paróquia teria sido instituída mais tarde, no século XIV, com pia baptismal, sino e fregueses, em data posterior a 1315, uma vez que consta da lista de todas as igrejas, comendas e mosteiros que havia nos reinos de Portugal e Algarves, de 1320-1321. O seu quantitativo demográfico bastaria, por si só, para justificar a independência administrativa e eclesial, em inícios da centúria de trezentos. Constando a igreja de Santa Susana do Alcabrichel do rol das igrejas de que o rei era padroeiro em 1258-59, a sua independência das matrizes da vila não estaria provavelmente completa.
Aquando da sua fundação e ao longo da Baixa Idade Média, Santa Susana era uma paróquia anexa da matriz de São Miguel da vila de Torres Vedras, encontrando-se a igreja paroquial fora do lugar.
Entre 1315 e 1317, o bispo de Lisboa D. Frei Estêvão atribuiu a cada uma das quatro igrejas urbanas de Torres Vedras o seu território paroquial, cujos limites rurais foram definidos, embora a parte urbana tivesse ficado completamente silenciada. Santa Maria do Castelo, São Pedro e São Tiago partilhavam, entre si, áreas de dimensão idêntica na vila. São Miguel obteria uma porção exígua do espaço urbano, recebendo, em contrapartida, a maior parte do espaço periurbano.
Ao longo do século XIV manter-se-iam contendas sobre os direitos eclesiásticos, sobretudo no que dizia respeito à receita das dízimas. Certo é que a imprecisão dos limites territoriais das paróquias, assim como as diversas transformações ocorridas no povoamento contribuíam para relançar, de vez em quando, a discussão sobre quem detinha os direitos dizimais. As crises económicas exigiam igualmente a cada igreja a defesa dos seus interesses, meio de sustentação da sua comunidade ou de cumprimento dos ofícios, assim como de manutenção do edifício. É neste contexto que surge um contencioso entre a colegiada de São Miguel e o prior de Santa Susana de Alcabrichel acerca dos limites das respectivas paróquias. Se em 1315 D. Frei Estêvão havia atribuído um extenso território à colegiada, que cobria a parte norte e leste do termo torriense, o pároco de Santa Susana do Maxial, já elevada esta a igreja paroquial, reclamaria os direitos sobre o território que anteriormente se encontrava sob a influência material e espiritual de São Miguel.
Como as demais igrejas de Torres Vedras, Santa Susana de Alcabrichel era de padroado régio. Um facto que não exclui a possibilidade de ter sido instituída pelos fregueses que, em dado momento, seriam substituídos naquela função pelo monarca. Na década de 30 do século XVI, a igreja foi objecto de nova construção.

12 julho 2012

IR A BANHOS NO SIZANDRO


Quinta das Fontainhas, à saída de Torres Vedras, logo a seguir ao Aqueduto


Júlio Vieira, no seu TORRES VEDRAS ANTIGA E MODERNA (2ª ed. 2011), a páginas 264, refere que em tempos houve um lugar de banhos no rio Sizandro, numa zona em frente da Quinta das Fontainhas.
Era uma referência que nos intrigava e que carecia de verificação para se ver até que ponto ainda perduraria alguma coisa desse tempo. Não nos esqueçamos que J. Vieira escrevia no início da década de 20 do século passado - a 1ª edição do seu livro é de 1926.
Estávamos convencidos de que os degraus de pedra referidos pelo autor já não existiriam, até porque as margens do rio foram solidificadas na sequência das grandes inundações de 1983.
Por outro lado, a vegetação circundante é muito densa e o carril referido pelo autor há muito que desapareceu.

Há dias fizemos o percurso pedestre pela margem esquerda, seguindo pelo carril que vai da estação da CP até às Termas dos Cucos, na companhia de um amigo que nos falara numa "Fonte dos Coxos" existente naquela zona. Ela lá estava, com um grande caudal que saía de um cano, rodeado de degraus de pedra por onde é possível aceder à água.  Ele desconhecia o texto de Júlio Vieira. Outro amigo, Pedro Fiéis, membro da Associação do Património de Torres Vedras, fez connosco o mesmo percurso uns dias depois e lembrou o tal texto que nos apressámos a reler. E tudo condiz. As fotos que aqui publicamos documentam este reencontro.
Não nos atrevemos a entrar no rio, não tínhamos o fato de banho à mão, o que nos permitiria fotografar de frente para a saída da água. Mas é aquele o lugar referido por Júlio Vieira, não temos dúvidas.

Aqui ficam as fotos e, no final, o texto de Júlio Vieira.


 Ao fundo a Quinta das Fontainhas. Mais próximos de nós, o rio. Visível, em primeiro plano, a abertura na vegetação por onde se pode descer ao rio pelos degraus que são visíveis nas fotos mais abaixo.




É bem visível que a água saída do cano é muito límpida e forma uma bacia de água transparente ali à volta. Ao lado do cano mas tapada pela vegetação existe uma outra saída de água - são os "olhos de água" de que fala Júlio Vieira. Com cuidado, provámos a água. É tépida, muito macia, e sabe bem. O amigo que me acompanhava costuma ir àquele lugar e ali se descalça e banha os pés longamente pois nota que lhe desgasta as calosidades. Experimentámos também esse "tratamento" e comprovámos que a pele fica muito macia. O que condiz com o texto de J. Vieira.




 Em pé sobre os degraus que ladeiam a Fonte tirámos estas duas fotos, uma para montante e outra para juzante.



Uma última foto da Fonte que o amigo que nos acompanhou disse chamar-se "dos Coxos"...


Texto de Júlio Vieira:


BANHOS DO RIO

Há alguns anos já que acabaram estes antigos banhos cha­mados do rio e que eram tomados em barracas de madeira arma­das sobre o leito do rio Sizandro, na época da estiagem, em frente da quinta das Fontainhas e em sítio onde todos os anos afloram uns olhos de água de temperatura tépida.
Esses banhos bastante agradáveis e também bons para a pele eram explorados por Francisco Rodrigues desta vila que tinha li­cença para armar as barracas todos os anos.
Eram muito frequentados no verão, tornando-se aquele
Há alguns anos já que acabaram estes antigos banhos cha­mados do rio e que eram tomados em barracas de madeira arma­das sobre o leito do rio Sizandro, na época da estiagem, em frente da quinta das Fontainhas e em sítio onde todos os anos afloram uns olhos de água de temperatura tépida.
Esses banhos bastante agradáveis e também bons para a pele eram explorados por Francisco Rodrigues desta vila que tinha li­cença para armar as barracas todos os anos.
Eram muito frequentados no verão, tornando-se aquele passeio muito agradável para as pessoas da vila, que iam gozar o ensombrado do sítio.
Acabaram aqueles banhos, parece que por dificuldades le­vantadas a quem os explorava.
Hoje só existe o carril público que da estrada, em frente ao portão de ferro da quinta das Fontainhas, vai ter ao paredão do rio construído modernamente e a propósito, com degraus de pe­dras para se descer para o local dos banhos.

TORRES VEDRAS ANTIGA E MODERNA, 2ª ed., LivroDoDia e Ass. do Património, 2011. 

05 julho 2011

PATRIMÓNIOS 12

Publicado no BADALADAS de 1 julho 2011


O Centro Histórico no tempo das Invasões ( I Parte)
 Os limites da Vila no primeiro quartel do século XIX

João Flores Cunha

Torres Vedras, fazendo fé nos britânicos que por aqui andaram há duzentos anos, e segundo fontes diversas, seria assim:
Uma vila bem situada no flanco de uma colina, quase a meio de um vale rodeado de montes, muitos deles com moinhos de vento. No vale vêem-se prados e vinhas que trepam pelas encostas do sul e do poente. A vila é grande, mas as ruas são estreitas, tortuosas, irregulares e sujas; as casas não têm mais que dois andares e, apesar de bem construídas e serem de pedra, são humildes e estão em mau estado. A população não excede os dois mil e duzentos habitantes, sendo poucas as famílias opulentas que aqui vivem. A vila é abastecida de água, por um pequeno aqueduto, que obtém das nascentes dum monte do lado leste. O aqueduto tem arcos sobre o rio Sizandro e sobre a estrada que vai para Lisboa pelo Sobral de Monte Agraço. Também todos os jardins têm poços. As provisões são abundantes assim como o combustível que se poderá tirar dos muitos pinhais envolventes. Quatro igrejas, outros tantos conventos e um hospital são os edifícios públicos. Poderia abrigar uma divisão de oito mil homens.
               Torres Vedras, no tempo das invasões, estava dividida em quatro paróquias: Santa Maria do Castelo, São Pedro, Santiago e São Miguel. Cada paróquia compreendia uma parte urbana e uma parte rural. Os anotadores de Madeira Torres, José Eduardo César e António Jacinto Gama Leal, em 1859, descrevem e delimitam estas paróquias. Esses limites seriam, muito provavelmente, os mesmos de cinquenta anos atrás, comparando a sua descrição com os livros de Registos Paroquiais e de Róis de Confessados da época.
               Vejamos, então, qual o espaço ocupado pela Vila nesse tempo.
               Santa Maria do Castelo tem os seguintes limites: «pelo norte toda a costa do Castello, e caminhando para o poente todas as casas da rua que desce para S. Miguel e bairro de Carcavellos, ficando só de fóra (porque pertencem a S. Miguel) uma pequena casa junto á praça dos toiros, e a parte direita da rua de Carcavellos; depois volta para o sul comprehendendo a Horta Nova, e d´ahi vem pela rua do Patim d´ambos os lados, e volta para o nascente pela rua do Açougue dos clerigos do lado esquerdo, ou norte d´ela, caminhando do mesmo lado pela rua detraz dos açougues do povo até à rua dos Pelomes, onde chega ao bèco do Quebra- Costas, e sobe por ele acima tudo do mesmo lado esquerdo até à muralha do Castello, d’onde vae fechar até ao portão d’elle.» 
               São Pedro, «os seus limites dentro da Villa são os seguintes: pelo nascente tem a rua da Cêrca começando à esquina da estrada, que vae do largo da Graça para S. João pelo lado esquerdo e segue à Corredoura; e tem pelo norte toda esta rua de ambos os lados, e vêm pela rua dos Canos até à esquina da familia dos Taváres, que é também a esquina da rua dos Pelomes da parte direita; d’ahi volta para poente por detraz dos açougues do povo só do lado esquerdo, e rua do açougue dos Clérigos do mesmo lado até á esquina, em que se volta para o Patim; e tornando atráz, vae pela rua dos Celleiros de Santa Maria de ambos os lados até ao largo do Terreirinho, aonde do lado direito chega até à esquina do Cano Real, e depois voltando atráz ao mesmo Terreirinho, segue pelo lado esquerdo, e sobe pela rua da Misericordia acima do mesmo lado até ao largo da Graça a fechar na dicta esquina da rua da Casa da Cêrca. Além disto tem também no sítio da Porta da Varzea, junto ao Poço do Retiro encravados na Freguesia de Sant-Iago 3 ou 4 fógos.»
               Santiago, «os seus limites dentro da Villa são os seguintes: pelo Norte, começa na esquina da Rua do Terreirinho, e Misericordia, vindo para Poente pelo lado esquerdo d’aquella, pelo Cano Real até ao Alpilhão, e d’ahi voltando para Sul, tudo até comprehender a Quinta dos Francos, hoje de Francisco José de Bastos e Silva, e d’ahi pela Estrada Real direito á Villa, e á Porta da Varzea (aonde ha apenas três ou quatro Fregueses de S. Pedro), e d’ahi voltando para Nascente, pela Rua da Ollaria acima, d’um e doutro lado, e d’ahi pela Rua da Misericordia abaixo, do lado esquerdo, até á esquina da Rua do Terreirinho, aonde começou.»
               São Miguel, «o seu districto na Villa é o seguinte: do lado do nascente contém a rua dos Pelomes toda de ambos os lados até á esquina do Bêco do quebra-costas, que sóbe para o Castello, e do outro lado até ás casas mysticas com a familia dos Tavares, que estão na esquina da rua dos Canos, e já são de S. Pedro; depois sóbe pelo dicto bêco do lado direito até á muralha do Castello. Do lado do poente comprehende uma pequena casa junto á Praça dos Touros a Carcavellos, e a parte direita da rua dicta de Carcavellos até á estrada, que vem da Horta Nova. Do sul comprehende o bairro de Sancta Anna todo no Largo da Graça do lado direito da estrada para S. João, e do lado esquerdo da que vae para Lisboa.»
               Seriam estes os limites da vila no primeiro quartel do século XIX. E, se nesta época “Centro Histórico” fizesse parte dos conceitos do município torriano, ele estaria muito provavelmente confinado à parte urbana da Paróquia de Santa Maria do Castelo.

              

08 outubro 2010

Reportagem do BADALADAS - 8 OUT 2010



Encontro sobre património da ADDPCTV

TORRES VEDRAS TEM NOVE MONUMENTOS NACIONAIS

Joaquim Ribeiro

"Hoje todos os autarcas gostam muito de di­zer que têm um monumento no seu território, mas as questões do património continuam a ser muito mal tratadas", afirmou Joaquim Moedas Duarte, da direcção da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras (ADDPCTV), du­rante a sessão intitulada "Mo(nu)mentos da Memória. Ver e ler o nosso património", que decorreu no passado dia 24 de Setembro no auditório municipal de Torres Vedras.
O encontro não teve muito público pre­sente, mas os poucos animaram o debate que se seguiu à apresentação dos nove mo­numentos nacionais torrienses, alguns desco­nhecidos da maior parte da população. Uma sessão dirigida ainda por José Pedro Sobreiro e também pelos poemas declamados de Luís Filipe Rodrigues, ambos da direcção da asso­ciação, integrada nas Jornadas Europeias do Património. No domingo houve mais duas iniciativas, de manhã um passeio pedestre e à tarde uma visita-guiada à igreja de São Pe­dro. Refira-se que a ADDPCTV foi fundada em 1979 precisamente para defender o pa­trimónio de Torres Vedras e conta actualmente com 130 associados.
Dos nove monumentos nacionais do ter­ritório torriense, seis estão classificados como património arquitectónico. Os elementos ro­mânicos da igreja de Santa Maria do Castelo são um deles, datados de 1208 e ainda hoje podem ser apreciados, apesar das sucessivas modificações ao longo dos séculos. Uma classificação que, contudo, não se aplica a to­do o castelo. Outro monumento nacional é a ermida de Nossa Senhora do Ameal, no Choupal, do século XIV, também ela alvo de várias obras ao longo do tempo. O chafariz dos Canos é outro, fonte gótica do século XIV, uma verdadeira relíquia nacional, única em Portugal e muito rara em toda a Europa, que, contudo, segundo a ADDPCTV, tem sido muito mal tratada. A completar esse lote de monumentos nacionais está ainda a igreja de São Pedro, restaurada no século XVI, com portal manuelino de 1712 e porta lateral qui­nhentista. Os outros dois monumentos são o aqueduto de Torres Vedras, que servia para abastecer o chafariz dos Canos, remodelado na segunda metade do século XVI; e o mos­teiro do Varatojo, mandado construir em 1470 por Dom Afonso V como pagamento de uma promessa a Santo António, onde se destaca o portal gótico.
Há depois três monumentos nacionais do património arqueológico: o castro do Zam­bujal, povoado fortificado pré-histórico des­coberto em 1938 por Leonel Trindade; o tholos do Barro ou da Pena, monumento fu­nerário do Eneolítico descoberto em 1909; e a gruta artificial da época Calcolítica da Ermegeira (Maxial), estrutura funerária desco­berta em 1930, onde se descobriu um par de brincos em ouro, seguramente o menos co­nhecido deste lote dos nove monumentos nacionais de Torres Vedras.
Da discussão que se seguiu realce para a sugestão de se criar um centro interpretativo junto ao chafariz dos Canos e o resto das muralhas da porta da Corredoura. Também foi dito que Torres Vedras tem três dos mais antigos relógios mecânicos do país: Varatojo, Castelo e Graça. Para além dos monumentos nacionais, o concelho é rico em património, com um vasto conjunto de edificações classi­ficadas, cuja lista pode ser consultada em: http://patrimoniodetorresvedras.blogspot. com.