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20 setembro 2022

UM CURSO NOCTURNO EM S. PEDRO DA CADEIRA - JORNAL BADALADAS, 29 JULHO 2022

 

Memória de uma escola nocturna, em 1872-1873,

na freguesia de S. Pedro da Cadeira

Manuela Catarino

 

Ao longo do século XIX, as mudanças políticas propiciadoras do advento do liberalismo acabaram também por contribuir para algumas alterações no ensino. Numa fase primeira desse século, o mestre das primeiras letras foi sendo olhado como alguém que devia ser formado em instituições próprias a fim de obter os conhecimentos e as técnicas da profissão a desempenhar. Data desse período a sucessiva discussão e desenvolvimento dos três métodos de ensino – de ensino mútuo, de leitura repentina e a cartilha maternal – que pretendiam ser a solução para os problemas educacionais[1].

De igual forma, o debate em torno da alfabetização começou a ganhar uma maior proeminência entre os que se preocupavam com o futuro da vida nacional. Justino Pereira de Magalhães apresenta para meados do século do século XIX uma taxa que se situava acima dos 75%, se referenciada a ambos os sexos. Salienta o mesmo autor que a redução dessa taxa só atingiria um valor inferior a 50% em meados do século XX[2]. Se nos circunscrevermos ao concelho de Torres Vedras, encontraremos igualmente em Venerando Matos valores de analfabetismo que, ainda hoje, nos confrangem: 1878 – 86,07%, 1890 – 84,71%, 1900 – 83,31%[3].

Compreender-se-ão, à luz destes, essoutros números que D. Antonio da Costa, em 1870, lançava aos políticos nacionais como chamada de atenção para o que sucedia na Europa do seu tempo:  Em Hespanha ha 1 escola para 600 habitantes, em França, Baviera, Italia, Hollanda e Inglaterra 1 para 500 e 400. Na Suiça 1 para 300. Nos Estados Unidos 1 para 160. Na Prussia 1 para 150. Em Portugal 1 escola para 1:100 habitantes[4].

A irregularidade da frequência e a falta de aproveitamento verificado eram os factores que penalizavam os já de si poucos alunos que frequentavam as escolas em Portugal. Os professores de instrução primária desta segunda metade do século XIX bem tentavam ultrapassar a situação: forneço a muitos d’estes papel, tinta, pennas e livros, e no meio d’estes sacrifícios a frequencia continua muito irregular. Ha alunos que em todo o anno não chegam a frequentar um mez[5].

Todavia não eram apenas os mais novos que mereciam o olhar atento dos pedagogos nacionais. Os adultos analfabetos ou minimamente alfabetizados foram concentrando alguma atenção sobre si. Dessa forma, assiste-se à criação de cursos nocturnos, procurando dar instrução às pessoas que precisavam de trabalhar durante o dia para garantir o sustento diário. O ministro do reino, Martens Ferrão, em 1866, instava junto dos governadores civis para que abrissem cursos nocturnos nas várias localidades, sustentados por meio de gratificações das camaras municipaes e juntas de parochia[6]. O inicio foi prometedor: em 1867, abriam-se no reino português 545 cursos nocturnos. Todavia poucos subsistiram. Em 1870, lamentava-se a extinção da quase totalidade, ficando muitas das gratificações por pagar aos respectivos professores[7].

Uma escola nocturna em Portela de Belmonte

O acompanhamento de meninos na cadeira das primeiras letras, na freguesia de S. Pedro da Cadeira, encontra-se atestado, em sequência, desde 1822, por mestres laicos, de que o reverendo João da Anunciação será, em 1862, a excepção[8]. Os valores da frequência encontram-se de acordo com a realidade nacional que antes referimos.

Em pesquisas no Arquivo Municipal de Torres Vedras encontrámos, porém, uma breve memória referente a um curso nocturno que funcionou no ano lectivo de 1872-1873 no lugar de Portela de Belmonte daquela freguesia. Ter-se-iam inscrito 45 alunos, embora apenas 18 fossem de maior regularidade. As idades variavam entre os 16 e os 30 anos. Desses, um, frequentava em paralelo as aulas diurnas e as nocturnas. Criado em 2 de Dezembro de 1871, funcionou entre os meses de Outubro a Março, do ano seguinte, com um total de 123 lições. Era professor José Francisco d’ Albuquerque auferindo a gratificação da Câmara Municipal de Torres Vedras de 14:400 réis.

Esse esforço de acompanhar jovens adultos a completar, ou a iniciar a sua instrução, afastando-os dos efeitos desastrosos do analfabetismo está aqui bem patente. Sabendo-se como na ruralidade o trabalho diário requer o contributo de todos os braços disponíveis, não se estranha que muitos pais não tivessem como prioridade a instrução dos seus filhos. Era essa a prática então. Caberia, pois, aos poderes públicos, contribuir para a alteração dessa mentalidade, mas e principalmente aos professores, que assim o entendiam, lutar tenazmente pela mudança. Atrevemo-nos a acreditar que seria esse o entendimento de José Francisco d’Albuquerque.

Curiosa a existência desta memória pois, conjugando-a com outros dados, podemos perceber que José Francisco d’Albuquerque era o mestre de primeiras letras que, em 1850, havia sido provido na escola diurna de S. Pedro da Cadeira e aí continuara pelo menos até 1857 quando outro professor assumiu a função. Nascido em Lisboa, na freguesia da Lapa, em 1826, veio a casar, em 1848, com Ludovina da Conceição Reis, natural de Santo Isidoro, concelho de Mafra. Em 1850 nasceria ao casal um filho – Eduardo Sebastião dos Reis Albuquerque. Entre 1883/1889 e 1891/1892 seria ele a assegurar o lugar de professor oficial da escola pública do ensino primário do lugar da Coutada, na mesma freguesia. Posteriormente, caberia à sua filha Laura do Rosário Reis de Albuquerque, em 1913, nessa escola[9], continuar o longo caminho de serviço público de qualidade e profissionalismo iniciado pelo avô.

José Francisco d’ Albuquerque viria a falecer com 69 anos, na Coutada, já viúvo, embora ainda em 1888 tenha percorrido a freguesia de S. Pedro da Cadeira, acompanhando seu filho Eduardo Albuquerque, ambos como agentes recenseadores do inquérito agrícola realizado esse ano. As suas assinaturas são maioritárias face ao muito reduzido número das que os respondentes apuseram nos boletins – evidência gritante do analfabetismo existente.

A instrução pública, nos tempos seguintes, iria continuar a depender do sentido cívico de outros habitantes da freguesia que lutaram para a concretização dos seus sonhos ao serviço da comunidade. Não temos notícia que se tenha, mais alguma vez, retomado este molde do ensino de curso nocturno. Foi este um fugaz episódio, mas que terá constituído verdadeiro desafio para quem nele se envolveu, permanecendo hoje como incentivo e memória patrimonial a não esquecer.

  

 Texto escrito segundo a antiga ortografia

 

Mapa estatístico da escola nocturna de S.Pedro da Cadeira - 1872 a 1873

 

 



[1] António Nóvoa, “Do Mestre-Escola ao professor do ensino primário. Subsídios para a história da profissão docente em Portugal (Séculos XV-XX)”, Análise Psicológica, 3 (V), 1987, pp.413-440.

[2] Justino Pereira de Magalhães, “Ler e escrever no mundo rural do Antigo Regime. Um contributo para a história da alfabetização e da escolarização em Portugal”, Análise Psicológica, 4 (XIV), 1996, pp.438-439.

[3] Venerando Aspra de Matos, “O tempo e o modo na construção de uma vila – Século XIX”, Nova História Local –Torres Vedras, Carlos Guardado da Silva (coord), Edições Colibri, Câmara Municipal de Torres Vedras, Universidade de Lisboa, Faculdade de Letras, Instituto de Estudos Regionais e do Municipalismo Alexandre Herculano, 2018, p.171.

[4] D. Antonio da Costa, Instrucção Nacional, Imprensa Nacional, Lisboa, 1870, p.112.

[5] Ibidem, pp.115-116

[6] Ibidem, p.121.

[7] Ibidem, pp.121-123.

[8] Manuel Agostinho de Madeira Torres, Descrição Económica da Vila e Termo de Torres Vedras, 3ª edição, Edições Colibri/ Câmara Municipal de Torres Vedras, 2020, p.34, Nota dos Editores da 2ª edição.

[9] Manuela Catarino, S. Pedro da Cadeira. História, Memórias e Património de uma freguesia torriense, Junta de Freguesia de S. Pedro da Cadeira, 2021, pp. 124-125.





15 fevereiro 2019

O que fazer com estas Memórias? A obra de Madeira Torres tem duas partes. Falta publicar a Parte económica

PATRIMÓNIOS NO "BADALADAS" - 2 E 3 Parte económica do livro de Madeira Torres e Património Industrial de Torres Vedras




O que fazer com estas Memórias?

 A obra de Madeira Torres tem duas partes. Falta publicar a Parte económica



A transmissão das memórias colectivas de uma geração para as seguintes permite que os acontecimentos do passado possam ser reavaliados no presente e perspectivem a acção humana no futuro. Afinal é essa a Missão fundamental da História.
Terá sido imbuído dessa consciência, e seguindo a prática em voga no meio cultural do século XIX, que Manuel Agostinho Madeira Torres apresentou à Academia Real das Ciências de Lisboa, o texto intitulado Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, aceite e publicado em 1819 no Tomo 6º, parte 1ª, das Memorias daquela instituição.
Volvidos alguns anos, o autor vê a mesma Academia autorizar para que seja impresso o texto que constitui a vulgarmente conhecida Parte Economica, publicado no Tomo XI, parte II, no ano de 1835. Dessa forma completava o autor a sua obra apresentando significativos dados (alguns com precisão quantificada) relativos à população e aos sectores económicos em desenvolvimento no espaço geográfico-administrativo do concelho – agricultura, indústria e comércio.




No século XX, a importância da História local foi ganhando mais consistência nos meios académicos e nos planos curriculares do ensino básico e secundário. O estudo do património local nas suas várias acepções, bem como a utilização de fontes históricas locais na produção de trabalhos de investigação, ganhou maior fôlego. As publicações aumentaram. A divulgação esteve ao serviço da memória colectiva.

No ano de 1988, por iniciativa da Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, sai a público a  “Parte Histórica” da obra de Madeira Torres. Trata-se de uma edição fac-similada da 2ª edição produzida pela imprensa da Universidade de Coimbra, datada de 1862, e contendo as utilíssimas anotações de dois torrienses – José António da Gama Leal e José Eduardo César de Faro e Vasconcelos.
Estas anotações não ficaram apenas pela Parte Histórica do texto de Madeira Torres. Também se alargaram substancialmente aos conteúdos da Parte Economica, acrescentando informações actualizadas aos tempos da segunda metade do século XIX. Infelizmente, até aos dias de hoje, esse manuscrito continua sem conhecer a divulgação impressa. A obra completa de Madeira Torres continua assim amputada do conhecimento alargado que merece. É certo que poderemos consultar, graças à tecnologia, os sítios da internet que digitalizaram e disponibilizam os textos iniciais do autor torriense. Mas não seria um serviço público à memória colectiva se esta parte económica, mais enriquecida, fosse igualmente publicada e que finalmente o desígnio de se apresentar a Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras se concretizasse?
No ano de 1987, os membros do Conselho Pedagógico decidiram propor como patrono da então Escola Secundária de Torres Vedras o nome de Manuel Agostinho de Madeira Torres. Fizeram-no tendo em conta o seu papel de homem de cultura e o valor da obra para a História Local torriense. Hoje, no século XXI, a comunidade escolar que faz parte de Agrupamento de Escolas Madeira Torres persiste em identificar-se com essa memória.
No passado dia 27 de Janeiro de 2019 decorreram 183 anos após o falecimento de Madeira Torres, na sua residência, na actual Rua Mouzinho de Albuquerque, em Torres Vedras.
Por que não honrar a sua memória, partilhando com os torrienses a publicação do manuscrito anotado da segunda parte da sua obra?

Manuela Catarino





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PATRIMÓNIO INDUSTRIAL, MEMÓRIA DO TRABALHO 

PRODUTIVO

Uma ideia estimulante para a nossa reflexão é a que Françoise Choay propõe, ao denunciar o que classifica como a fetichização do património, expressa em duas formas contraditórias de o olhar: de um lado a perspectiva passadista e nostálgica, resistente à articulação integradora entre o antigo e o novo; do outro a visão progressista que reduz o património preservado a objecto de museu [1].
A contradição radica na própria ambiguidade do conceito de Património que se alargou exponencialmente a todas as áreas da actividade humana[2]. Daí a necessidade de reafirmar a abordagem histórico-sociológica que articule, simultaneamente, os valores do tempo longo (dimensão maior da História) e do tempo curto (vivências quotidianas), de modo a que o conceito de Património reassuma a dimensão de portador de consciência histórica e de memória das comunidades humanas.
Uma das áreas mais recentes da tendência patrimonializadora é a do Património Industrial que ganhou expressão sobretudo depois da 2ª Guerra Mundial. Aqui, a carga histórica do tempo longo cede à verificação do imediato, marca da contemporaneidade. Emergem as memórias de quotidianos recentes, símbolos de um presente que se extingue debaixo dos nossos olhos, induzindo valores importantes como o turismo cultural de crescente expressão económica e a reutilização criteriosa e criativa de antigas instalações fabris.
Quando a “Casa Hipólito” ou a “Fundição de Dois Portos” – indústrias locais de Torres Vedras que prosperaram no séc XX – se afundam na falência e fecham as portas, tal significa o apagamento súbito de um passado recente cuja memória urge preservar para que as novas gerações entendam as razões do vazio sócio-económico que se instalou numa cidade subitamente órfã da sua prosperidade.
A Carta de Nizhny Tagil sobre o Património Industrial, aprovada em 2003, bem como a sua extensão nos chamados “Princípios de Dublin”, de 2011, mostram como estas preocupações locais têm dimensão internacional. Tais documentos apontam para metodologias de identificação, inventário e investigação, indispensáveis para a valorização e preservação deste Património, cada vez mais presente em múltiplas formas de apresentação e interpretação garantidas pelos poderes públicos articulados com as comunidades locais.
Acredita-se que esta saída cultural – preservação dos vestígios físicos acompanhada de uma narrativa histórica esclarecedora – constitua uma mais-valia face à rápida modificação das condições da vida económica, portadora, muitas vezes, de sofrimentos e frustrações. Vemos hoje um Museu do Pão, em Seia, que contrapõe à uniformizada industrialização panificadora a memória de antigas formas de moer e fabricar. Multidões saudosas de antigos sabores e odores invadem aquele espaço e regressam a um passado que ainda há pouco era o seu próprio presente.
E mais ao sul, o Museu do Trabalho Michel Giacometti, em Setúbal, mostra os antigos processos da indústria conserveira, em que nos parece ver ainda os vultos dos homens e das mulheres que ocupavam as linhas de produção, ao som de apitos estridentes.
Esta valorização do Património Industrial – cujos exemplos se têm multiplicado de norte a sul do país desde há duas décadas - é, em si mesma, a consagração do bem mais duradouro da História, o trabalho humano, mostrado como processo, como sofrimento, como superação, como riqueza. Aqui, Património já não é Monumento, símbolo de poder, afirmação de elites ou linhagens. É imagem do Homem que, em sociedade, se eleva acima da estrita sobrevivência individual. Por isso a preservação do Património Industrial é indispensável para a persistência da memória histórica desse longo caminho em que, como dizia M. Vieira Natividade, ilustre patrimonialista alcobacense, “o homem fez a indústria e a indústria fez o homem”.

Joaquim Moedas Duarte


[1] Françoise Choay – As questões do Património – Antologia para um combate, Edições 70, Lisboa, 2011.
[2] Dominique Poulot – “La multiplication des patrimoines”, Patrimoine et musée. L’institution de la culture, Paris, Hachette, 2001.