Mostrar mensagens com a etiqueta Isabel Luna. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Isabel Luna. Mostrar todas as mensagens

20 setembro 2022

THOLOS DO BARRO - ESCAVAÇÕES ARQUEOLÓGICAS 2021/2022 - Jornal BADALADAS, 26 AGOSTO 2022

 

Escavações arqueológicas no Tholos do Barro, 2021/2022

 

 Ana Catarina Sousa 

UNIARQ, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Isabel Luna  

Museu Municipal Leonel Trindade, Município de Torres Vedras


Concluiu-se em Junho passado a campanha de escavação arqueológica do Tholos do Barro (Torres Vedras) iniciada em 2021, mais de um século depois da descoberta, escavação e classificação, como Monumento Nacional, deste sepulcro pré-histórico. Os trabalhos, coordenados pelo Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa (UNIARQ) e pelo Museu Municipal Leonel Trindade, resultaram de um protocolo de colaboração firmado entre o Município de Torres Vedras e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que, simultaneamente, permitiu uma formação prática, em contexto de campo, a alunos de licenciatura, mestrado e doutoramento em Arqueologia. A investigação do monumento foi determinada pela Direcção Geral do Património Cultural, como medida de diagnóstico e registo prévio, indispensável à intervenção de melhoria das condições de segurança, acessibilidade e fruição pública, que o município pretende desenvolver naquele sítio arqueológico, a exemplo do que já foi feito no Castro do Zambujal.

Correspondendo ao convite da Associação de Defesa do Património de Torres Vedras – que tem acompanhando este projecto com entusiástico interesse –, recorremos a este espaço de divulgação patrimonial, para partilhar, em linhas muito gerais, as primeiras notas desta campanha arqueológica.

As novas escavações realizadas no tholos – designação atribuída a sepulcros megalíticos de câmara funerária circular e cobertura em falsa cúpula – tiveram como objectivo reunir o máximo de informação sobre a arquitectura e os usos funerários e simbólicos deste singular monumento arqueológico, que sustentem uma intervenção de valorização do sítio e forneçam os conteúdos necessários à musealização do imóvel. Não é possível divulgar aquilo que não se conhece!

Situado no cimo do Monte da Pena, o tholos apresenta uma implantação muito pouco frequente neste tipo de monumentos. Com efeito, no território português apenas se conhece um outro sepulcro de falsa cúpula situado no topo de uma elevação: o tholos do Monge, na serra de Sintra.


A estrutura arquitectónica do tholos do Barro corresponde aos cânones dos tholoi do sul da Península Ibérica, apresentando um aparelho construtivo muito robusto, quase ciclópico, onde se destaca uma câmara funerária de dimensões extraordinárias: com 6,20 m de diâmetro, é a maior até agora encontrada na Península Ibérica. O corredor que dá acesso à câmara está orientado no sentido norte-sul, com a abertura voltada a sul, característica também pouco frequente, pois, por norma, os tholoi e as antas costumam estar voltados a nascente.

Datado do 3.º milénio a. C. (período Calcolítico), o monumento do Barro apresenta, também, abundantes vestígios materiais da Idade do Bronze. O registo deste espólio, recolhido maioritariamente no início do século XX e repartido entre o Museu Nacional de Arqueologia e o Museu Municipal Leonel Trindade, é muito deficitário, não apresentando informações concretas sobre o contexto arqueológico e o local específico de recolha, o que nos impede de compreender adequadamente as dinâmicas de utilização do sítio.

Desde a primeira escavação, realizada em 1909, o monumento foi sucessivamente citado e revisitado. Contudo, muito pouco se conhecia da sua estrutura e da sua história: não existia um levantamento arquitectónico fiável e actualizado, não possuía qualquer datação de radiocarbono que balizasse a sua cronologia e, sobretudo, não se compreendia a sucessão de utilizações, entre a Idade do Cobre e a Idade do Bronze.

Em 2021 foi possível, pela primeira vez, obter uma leitura integral das estruturas arquitectónicas e identificar a presença de vestígios de deposições funerárias na câmara e no corredor do monumento.

A campanha de 2022 teve como principal objectivo a escavação do átrio, junto à fachada do monumento, e dos vestígios de deposições funerárias mais tardias, feitas no corredor, aparentemente já após a selagem da câmara. Os trabalhos permitiram identificar uma intensa actividade simbólica e funerária na parte exterior do monumento, incluindo a construção de um murete, que delimita parcialmente a zona da entrada. Esta estrutura poderá estar associada à presença de um monólito, cuja origem é extrínseca ao local. Os materiais recolhidos (cerâmicas e materiais metálicos) parecem indicar uma cronologia da Idade do Bronze, sustentada por uma datação absoluta da primeira metade do 2.º milénio a. C. (Bronze Antigo e Pleno). Foi ainda confirmada a presença, na envolvente do monumento, de zonas de concentração de materiais do final da Idade do Bronze, sem qualquer material osteológico associado, indicando uma prática de visitações ao local, já não de natureza funerária, numa época mais recente.

O trabalho de pesquisa, contudo, não se limita à campanha de campo. Em curso está o estudo integral do espólio depositado em museus, bem como uma aturada pesquisa arquivística. O cruzamento da informação documental conservada em museus e arquivos, com os resultados das escavações arqueológicas, permitirá uma melhor aproximação à história do monumento, sendo ainda necessário aguardar pelos diversos estudos analíticos da informação recolhida: antropologia física (patologias, dietas alimentares, mobilidade, ancestralidade), geologia (estudo geológico do sítio, do material de construção e do espólio), cronologia absoluta (datações de radiocarbono) e estudo dos contextos arqueológicos preservados, para se poder enquadrar o espólio previamente recolhido.

A equipa integra vários especialistas que se associaram ao projecto, nomeadamente João C. Duarte (Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) e Ana Maria Silva (Universidade de Coimbra), contando ainda com a consultoria do Prof. Victor S. Gonçalves (UNIARQ - FLUL).

Mais de um século após a sua descoberta, o tholos do Barro guarda ainda muita informação, que continuaremos a investigar, em prol do conhecimento e da divulgação deste importante património colectivo.

 

 

 





 [ Fotos: equipa da UNIARQ, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa]




 


25 setembro 2021

MURALHA DE TORRES VEDRAS

 

MURALHA DE TORRES VEDRAS

Como salvaguardar os seus vestígios?

...

Joaquim Moedas Duarte

 


O BADALADAS  de 10 de Setembro deste ano, publicou a seguinte nota: «Uma atenta e sensível leitora ligou-nos para que pedíssemos à Câmara, ao Museu ou à Associação do Património para olharem com outros olhos e cuidarem do que resta de uma das antigas muralhas da vetusta Turres Veteras, a qual está hoje numa montra de vidro sujo e com ervas daninhas quase da sua altura. O pedido está formulado!»

Respondemos a este pedido com todo o gosto. É que nós, Associação do Património, há muito que estamos preocupados com esta questão. Sucintamente, recordemos alguns factos.

No início de 1997, aquando da iminente demolição do stand de automóveis do Sr. Adelino Sousa, situado frente ao Chafariz dos Canos, a Associação do Património solicitou “à Câmara Municipal, com a maior urgência, a realização de uma curta intervenção de pesquisa arqueológica, em articulação com o Museu Municipal Leonel Trindade, no sentido de averiguar eventuais vestígios da antiga muralha da vila que, segundo documentação antiga, por ali passaria e da qual não se conheciam, à data, quaisquer testemunhos”. Esta iniciativa foi reforçada por um artigo no Badaladas, em 18 de Abril daquele ano, da autoria de Manuel Clemente - actual Patriarca de Lisboa e sócio, desde sempre, da Associação – no qual se faziam sugestões e recomendações pertinentes sobre a “necessidade de conservar e valorizar este importante e excepcional património”.

Dada a proximidade de um monumento nacional – o Chafariz dos Canos – os trâmites legais de autorização e definição de condicionantes para a realização da obra demorou algum tempo, mas acabou por iniciar-se, com a intervenção simultânea de uma equipa de arqueólogos e técnicos do Museu Municipal, que procederam às sondagens, investigação local e recolha de informações. Os trabalhos arqueológicos foram concluídos em Junho de 2001 e, das várias conclusões e informações a que chegaram, destacamos a confirmação da “existência da muralha tardo-medieval – sobre cuja efectiva construção existiam ainda muitas dúvidas – e da sua porta situada na antiga Rua da Corredoura, atestada pela confluência da estrutura com a rua. A porta situar-se-ia a meio da rua e dela já dificilmente restarão quaisquer vestígios”. O relatório dos trabalhos arqueológicos sublinhava que “a partir do momento em que se verificou a imponência e monumentalidade da estrutura descoberta e se percebeu o seu valor histórico, a direcção científica dos trabalhos chamou ao processo a Divisão de Gestão Urbanística da Câmara Municipal de Torres Vedras e o então IPPAR, a fim de se estudar a possibilidade de integrar a estrutura na nova construção, quer salvaguardando-a integralmente, quer mantendo a sua memória no futuro imóvel, de forma adequada”.

Em reuniões posteriores, entre os promotores da obra, a Câmara Municipal e representantes do IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico), ficou decidido salvaguardar o troço da muralha medieval que fora descoberto.

O processo parecia bem encaminhado, mas o facto de a loja com os vestígios da muralha ser propriedade privada e o proprietário exigir, naturalmente, ser ressarcido, mas apresentando valores incomportáveis, levou a um impasse sobre a necessária intervenção valorizadora daquele património histórico. E os anos foram passando. Inconformada com a situação, a Associação do Património de Torres Vedras contactou a Junta de Freguesia de S. Pedro e Santiago, bem como os serviços camarários e, em 20 de Julho de 2011, apresentou um Memorando no qual se disponibilizava para colaborar numa solução que dignificasse aquele espaço. Tal iniciativa ia ao encontro das preocupações da Junta de Freguesia que, correndo o risco de abuso indevido – como chegou a ser acusada pelo proprietário – procedia regularmente à limpeza daquele espaço. Esse Memorando foi também publicado no blogue desta Associação (ver:

 https://patrimoniodetorresvedras.blogspot.com/2011/07/o-que-resta-da-velha-muralha.html )

 

IDEIAS PARA UM CENTRO INTERPRETATIVO DA CORREDOURA (CIC)

 

(Primeiro esboço, desenho de José Pedro Sobreiro)


(Segundo esboço, desenho de José Pedro Sobreiro)

Resumidamente, a proposta que apresentámos e que continuamos a defender, tem como objectivo a valorização do único vestígio da muralha medieval da Vila de Torres Vedras, posto a descoberto em 2001, que se encontra situado na cave de um edifício em frente do Chafariz dos Canos. Este pequeno troço de muralha situa-se nas imediações do que seria a chamada Porta da Corredoura, Sendo difícil conciliar a sua presença e visibilidade com outras funções, designadamente comerciais, a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras (ADDPCTV) propõe a criação naquele espaço de um pequeno centro interpretativo da Muralha Medieval assim como do Chafariz dos Canos, existente naquele largo, recentemente restaurado. Criar-se- á, assim, um motivo de interesse pedagógico para a história da cidade que valorizará também o monumento mais singular de Torres Vedras.

A proposta, ainda em esboço, assenta na ideia da construção de uma plataforma parcial ao nível do piso térreo, em L, que permita o acesso público (condicionado) a um espaço expositivo onde através de painéis infográficos, fotografias e maquete tridimensional, se dê a conhecer a história e as características do monumento e da muralha/vila medieval. Sobre a abertura ao público, a ideia é, pelo menos da nossa parte, que esta seja condicionada a visitas previamente solicitadas (escolas, grupos, visitantes especiais,etc), assumindo esta associação o compromisso de assegurar o seu acompanhamento.

Considera-se que a sua abertura diária não se justificará, pelos encargos decorrentes. Mesmo assim, cremos que a proposta terá um efeito positivo em termos de informação pois que todo o dispositivo ficará visível do exterior (tal com agora, de resto)

A ADDPCTV disponibiliza-se para assegurar os conteúdos históricos do Centro Interpretativo, bem como para ministrar Formação e dar apoio ao seu funcionamento.

Do documento, então apresentado, fazia parte um esboço de intervenção, ao qual se juntaria outro, algum tempo depois, ambos da autoria de José Pedro Sobreiro.

 

 

(A Porta da Corredoura, hipótese interpretativa em desenho de José Pedro Sobreiro)


(O que resta da muralha – foto de 2011)

 

UM DOCUMENTO NOTÁVEL

         No texto principal desta página PATRIMÓNIOS transcrevemos algumas frases que retirámos do relatório intitulado “Porta da Corredoura, Torres Vedras: Resultados dos Trabalhos Arqueológicos”, da autoria de Isabel Luna e Guilherme Cardoso, consultado em 21/09/2021 aqui: https://historiasdetorresvedras.wordpress.com/2012/09/27/porta-da-corredoura/

Trata-se de um documento notável. Ali estão bem patentes as fases de uma campanha arqueológica, a metodologia seguida, a contextualização histórica, a enumeração exaustiva dos elementos recolhidos com as correspondentes imagens, bem como as conclusões e recomendações para aplicação futura.

Dos mesmos autores está também disponível outro texto que completa as informações do primeiro sobre a vila medieval, que consultámos na mesma data:

“A urbe de Torres Vedras e a sua cerca medieva” in: Fortificações e Território na Península Ibérica e no Magreb (Séculos VI a XVI) - Volume I, Coord. - Isabel Cristina Ferreira Fernandes, Edições Colibri/Campo Arqueológico de Mértola. Disponível in:

https://www.academia.edu/9229797/LUNA_Isabel_e_CARDOSO_Guilherme_A_urbe_de_Torres_Vedras_e_a_sua_cerca_medieva



VALORIZAÇÃO DO MONUMENTO MEGALÍTICO DO BARRO

 

VALORIZAÇÃO DO MONUMENTO MEGALÍTICO DO BARRO

Joaquim Moedas Duarte (Texto e fotos)

 (Publicado na página PATRIMÓNIOS, semanário BADALADAS, Torres Vedras, 30 de Julho de 2021)

 


ARQUEOLOGIA, SINAIS DO PASSADO

Imaginemos que o leitor tem um terreno agrícola na área rural ou um prédio numa zona histórica. Um dia, na plantação de bacelos ou numa obra de restauro, encontra vestígios de grande antiguidade: pontas de seta, fragmentos de cerâmica enegrecidos pelo tempo, um alinhamento inesperado de pedras sugerindo construção de outros tempos. Que faz o leitor? Pega numa picareta e começa a esburacar, na esperança de encontrar algum tesouro? Tapa tudo para evitar incómodos? Ou sinaliza o sítio e vai falar com alguém que perceba do assunto, o Museu Municipal, por exemplo?

Qualquer uma destas situações já ocorreu perto de nós, em tempos recentes. Há uns anos, um Monumento Nacional pré-histórico foi vandalizado e praticamente destruído por curiosos, à procura de tesouros “dos Mouros”. Vestígios de construções medievais foram encobertos para se evitarem pesquisas que atrasariam a obra. Mas a terceira hipótese foi, frequentemente, a escolhida por pessoas esclarecidas, que deram conhecimento de achados importantes. Foi assim que se descobriu o Castro do Zambujal, nos anos 30 do século passado, quando Leonel Trindade – o grande arqueólogo torriense -  foi alertado e se deslocou até lá. Como este, muitos outros casos, cujo estudo e publicação de resultados mostram exuberantemente que o espaço concelhio de Torres Vedras é habitado desde há milhares de anos.  

A Arqueologia ocupa-se da procura e estudo de vestígios materiais do passado humano. Mas não é desporto ou ocupação de tempos livres, que possa ser feito por qualquer pessoa, por mais gosto que tenha pelas coisas antigas. É Ciência: aplicação de técnicas específicas de registo e recolha metódica, estudo e comparação de dados, recurso a análises laboratoriais complexas. Exige formação académica e experiência, com abordagens multidisciplinares das ciências humanas, das ciências biológicas, das ciências da terra, e até das ciências exatas. E deve respeitar legislação específica, que regulamenta a sua prática. Uma exploração feita por amadores é sempre catastrófica, pois os objectos são retirados do contexto histórico, o único que permite a sua datação e interpretação, destruindo irreparavelmente o que o passado nos legou.

 

CAMPANHA ARQUEOLÓGICA

Esta introdução vem a propósito da mais recente campanha arqueológica realizada no nosso concelho, que incidiu sobre um arqueossítio já conhecido e investigado há muitos anos. Trata-se do sepulcro megalítico de falsa cúpula (conhecido como “tholos”), situado no alto do Monte da Pena.  Foi o arqueólogo e pré-historiador Padre Paul Bouvier-Lapierre quem identificou aquela estrutura em 1909, depois de, no ano anterior, ali terem sido encontrados e recolhidos outros vestígios pré-históricos, quando se fazia a construção da plataforma para colocação de uma imagem da Virgem Maria.

O local foi escavado e estudado pouco depois da descoberta. A sua dimensão e características de construção, bem como o espólio votivo nele encontrado, levaram à sua classificação como Monumento Nacional, logo em 1910. Mas o tempo passou – mais de cem anos! – e nunca mais ali se fizeram investigações, para além do registo, em 1971, de um corte resultante da exploração de uma antiga pedreira.

A Câmara Municipal de Torres Vedras promoveu agora uma nova campanha de trabalhos arqueológicos, que decorreu entre 14 de Junho e 2 de Julho passado. No comunicado que temos presente, informa-se que o objectivo foi “a caracterização arquitectónica, estratigráfica e cronométrica deste monumento com as mais recentes metodologias científicas”, bem como “uma avaliação patrimonial rigorosa do monumento, para futuras acções de vedação e valorização”.

É de sublinhar que os princípios de actuação que acima enumerámos, como exigíveis para os trabalhos arqueológicos, foram rigorosamente seguidos. Começando, desde logo, com o “Pedido de Autorização de Trabalhos Arqueológicos” apresentado à Direcção Geral do Património Cultural, sem o qual nada poderia ser feito. Depois, com a constituição de uma vasta equipa especializada. Na Direcção científica: Ana Catarina de Sousa, arqueóloga, professora da Faculdade de Letras de Lisboa e investigadora da UNIARQ (Centro de Arqueologia da Universidade de Lisboa); Isabel Luna, arqueóloga, Conservadora do Museu Municipal Leonel Trindade, de Torres Vedras; Ana Maria Silva, antropóloga, professora da Universidade de Coimbra. Como Consultores: Victor Gonçalves, professor catedrático jubilado, investigador da UNIARQ; Michael Kunst, arqueólogo jubilado do Instituto Arqueológico Alemão, de Madrid; Rui Parreira, arqueólogo, da Direcção Regional de Cultura do Algarve.

Outros elementos se juntaram a esta equipa, nomeadamente o geólogo torriense, João C. Duarte, investigador e professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, André Texugo, investigador da UNIARQ, encarregado da fotogrametria e drones e Cátia Delicado, da UNIARQ, além de alunos mestrandos e doutorandos, de universidades portuguesas e espanholas.

Este trabalho foi acompanhado, apoiado e financiado pelo Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Torres Vedras. A Associação para Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras esteve presente, apoiando dentro das suas possibilidades.

 





PERSPECTIVAS DE FUTURO

A estreita colaboração agora iniciada entre a academia – sob a coordenação da Faculdade de Letras de Lisboa – e o município – Câmara Municipal e Junta de Freguesia – abre perspectivas para a prossecução e desenvolvimento, com carácter regular, da investigação e da valorização do património arqueológico torriense.

 Há condições excelentes para isso: por um lado, o concelho de Torres Vedras é rico em jazidas arqueológicas de todos os períodos, com expressão mais notável ao nível do Calcolítico, com várias dezenas de arqueossítios identificados, de que o mais emblemático é o Castro do Zambujal; por outro lado, a proximidade de centros de investigação da Universidade de Lisboa, e a centralidade geográfica de Torres Vedras em relação a outras universidades do país, constituem factores de atracção para os currículos de estudo que encontram aqui um terreno fértil para a formação académica prática.

A disponibilidade do Pelouro da Cultura foi um factor determinante para o êxito desta campanha arqueológica, que teve como sustentação institucional um protocolo de colaboração celebrado em 2019, entre o município e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Registe-se a preocupação de sensibilizar a comunidade local para estes trabalhos, através da organização de um “dia aberto”, inserido nas Jornadas Europeias da Arqueologia, no dia 20 de Junho.

 Os trabalhos terão continuidade nos próximos meses, com o processamento e a análise dos dados recolhidos, prevendo-se a sua apresentação e publicação em data oportuna.





18 março 2015

DIA INTERNACIONAL DOS MONUMENTOS E SÍTIOS - 18 ABRIL


A participação da Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras neste Dia Internacional consiste na organização de uma visita guiada à Igreja de Santiago, na zona histórica da cidade de Torres Vedras. Razões desta escolha:  

 - Esta Igreja foi recentemente classificada como Imóvel de Interesse Público;
- Os torrienses conhecem mal este espaço;
- O seu estado de conservação aconselha um melhor conhecimento da comunidade para 
   melhor o preservar;
- Uma das formas mais eficazes para a preservação dos monumentos é a sua reafectação a novos usos, pelo que se justifica um debate sobre este assunto.


Neste sentido convidamos a população torriense para o seguinte programa:

18 de ABRIL de 2015 (Sábado)

 14H45: concentração dos interessados junto à Igreja, na Praça Machado dos Santos

15H00 : Visita guiada à Igreja de Santiago, em Torres Vedras, seguida de

15H45: Palestra, na própria igreja, sobre o lugar em que ela se situa, a cargo da Drª Isabel Luna (autora de um circunstanciado relatório das escavações arqueológicas feitas no terreno contíguo ao Monumento), seguindo-se 

16H30: Debate sobre hipóteses de utilização futura deste espaço.


Conhecer melhor o nosso Património é a melhor forma de o preservar e defender. Participe com a sua presença. 
     

A DIRECÇÃO DA ASSOCIAÇÃO PARA A DEFESA E DIVULGAÇÃO
DO PATRIMÓNIO CULTURAL DE TORRES VEDRAS








18 fevereiro 2013

"PATRIMÓNIOS" no semanário BADALADAS


Nº 35 - Publicado em 9 de Novembro de 2012



É PRECISO DEFENDER O PATRIMÓNIO NOS CENTROS HISTÓRICOS
(I Parte)

ISABEL LUNA
(Arqueóloga)
“Há dois erros comuns no que diz respeito ao património. O primeiro é pensar que é sobre edifícios: é sobre as pessoas e o que elas investem nos tijolos. O segundo é pensar que é sobre o passado: é sobre o futuro, o que ficará depois de nós desaparecermos” (Simon Thurley).

Os conceitos de património cultural e de conservação, tal como hoje os entendemos, são construções da moderna sociedade ocidental. O processo de patrimonialização, isto é, de distinção daquilo que se considera herança colectiva e que, como tal, deve ser preservado e legado às gerações vindouras, tem por base valores sociais condensados em convenções internacionais, cuja dinâmica tem sido patente ao longo das últimas décadas.
Se, no final do século XIX, a conservação patrimonial incidia sobre o monumento, entendido como criação arquitectónica excepcional, isolada e expressão de culturas passadas, a partir dos anos 60 do século XX, o conceito de monumento amplia-se, abarcando os conjuntos edificados e os sítios, urbanos ou rurais, sejam eles formados por grandes criações artísticas ou por edificações modestas e anónimas que, enquanto conjunto, adquiriram significado cultural (Carta de Veneza, 1964). Os sítios urbanos passam então a ser considerados monumentos históricos, uma sensibilidade que está intimamente ligada à devastação de inúmeras cidades europeias, provocada pela Segunda Guerra Mundial, e ao reconhecimento do papel dos centros urbanos na construção e consolidação da identidade colectiva das sociedades.
O progresso que caracterizou o pós-guerra trouxe, porém, novas ameaças às cidades. O acelerado desenvolvimento urbano, destacando-se os grandes empreendimentos públicos e privados, associados também à especulação imobiliária, criou uma enorme pressão sobre os núcleos urbanos, de que resultaram irremediáveis destruições. Assim, a partir dos anos 80, as preocupações voltaram-se para o ordenamento territorial e para o enquadramento harmonioso das novas construções nos antigos núcleos edificados, tentando respeitar o carácter das cidades antigas e das aldeias tradicionais, os seus edifícios dominantes e a sua relação com a paisagem envolvente.
A noção de cidade congrega dois sentidos complementares: um sentido territorial – topográfico, urbanístico, arqueológico –, que engloba espaços e edifícios, e um sentido social, de comunidade politicamente organizada para a consecução de objectivos comuns. Os núcleos urbanos constituem, assim, expressões materiais da vida das sociedades que os habitaram ao longo dos tempos e, por esse facto, devem ser também entendidos como documentos históricos. São os centros históricos urbanos que preservam, primordialmente, o carácter histórico da cidade e o conjunto de elementos materiais e simbólicos que exprimem a sua imagem; ou seja, são eles que consagram a memória da cidade. O património construído constitui, neste contexto, uma parte relevante e insubstituível do tecido urbano, crucial para a identidade de uma cidade e dos seus residentes, presentes e futuros.
Locais primordiais de socialização, as cidades são entidades complexas, cuja identidade, apesar de historicamente enraizada, está em permanente mutação. O derradeiro objectivo da conservação do património urbano consiste, assim, na manutenção, potencialização e transmissão dos valores e quadros históricos de referência da cidade, em permanente equilíbrio com o moderno progresso, a bem do desenvolvimento harmonioso das sociedades. Porque “uma cidade sem passado é como uma pessoa sem memória” (Carta Urbana Europeia, 1992).


......................................................................................................................................

Nº 36 - Publicado em 21 de Dezembro de 2012


A IMPORTÂNCIA DA ARQUEOLOGIA URBANA
(II Parte)

ISABEL LUNA
(Arqueóloga)


Os núcleos urbanos constituem expressões materiais da vida das comunidades que os habitaram ao longo dos tempos e, por esse facto, constituem “um dos mais poderosos arquivos da memória da sociedade contemporânea”: “na cidade, o passado está sempre presente” [1]. Mas o património histórico dos centros urbanos não se confina aos espaços e às construções que se erguem acima do solo. De facto, sob os solos das cidades acumulam-se sucessivas camadas de vestígios arqueológicos, que testemunham a vida de dezenas de gerações de antepassados que habitaram o mesmo local e que o foram transformando ao longo dos séculos.
As cidades, vilas e aldeias são estruturas complexas, pluri-estratigrafadas, que resultam de lentos processos de construção, alteração, reformulação, deterioração e renovação, devidamente sedimentados pela passagem do tempo. Estas acções acabam por ficar registadas no subsolo, numa complexa sobreposição de níveis de ocupação que, apesar de “invisíveis”, constituem verdadeiros "arquivos do solo" [2], de elevado potencial histórico-documental.
A consideração da cidade como sítio histórico-monumental (Carta de Veneza, 1964) pressupõe o seu entendimento como uma realidade única, um todo em si própria. Nesta perspectiva, o estudo da cidade deverá partir de uma abordagem integral e transdisciplinar, que tenha em conta a sua integração tanto no espaço como no tempo. A Arqueologia Urbana, através das suas metodologias específicas, é a disciplina que permite recuperar a informação contida no subsolo das cidades e proceder ao seu estudo sequencial, revelando a origem e evolução da urbe.
A Arqueologia Urbana desenvolveu-se a partir da segunda metade do século XX, quando o objecto de estudo da arqueologia se alargou para lá dos períodos clássicos da história, estabelecendo a aplicabilidade dos seus métodos a todas as épocas do passado, até à actualidade. Também a destruição urbana provocada pela Segunda Guerra Mundial permitiu uma consciencialização do volume de informação histórica irremediavelmente perdido, num processo conhecido por “erosão da história”.
Todavia, a arqueologia urbana não deve confundir-se com uma mera “arqueologia em meio urbano”, de carácter necessariamente pontual e fragmentário: mais do que uma arqueologia na cidade, ela deve constituir-se como uma arqueologia da cidade. O que, de certa forma, pressupõe que cada cidade seja “objecto de um projecto de investigação consistente, com objectivos concretos” [3]. A arqueologia urbana deve ser entendida, pois, como uma arqueologia “das cidades vivas”, enquanto prática contínua, decorrente de um projecto de investigação coordenado por uma entidade tutelar [4]. A cidade é percebida como uma entidade viva, em permanente evolução, em que a arqueologia procura não apenas o seu conhecimento, mas fazer simultaneamente com que esse conhecimento seja utilizado na gestão quotidiana e sustentável do espaço urbano, tendo em conta que os recursos arqueológicos são limitados e a sua perda irreversível e irreparável.
Em Portugal, destacam-se os casos de Braga e Mértola onde, através de projectos integrados de arqueologia, foi possível obter um conhecimento profundo sobre as cidades e, simultaneamente, fazer reverter esse mesmo conhecimento em prol do desenvolvimento das urbes.

± Texto escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico


[1] MARTINS, Manuela e RIBEIRO, Maria do Carmo – «A arqueologia urbana e a defesa do património das cidades», 2010, 149-177.
[2] GALINIÉ, Henri – «La gestion des archives du sol en ville», 1992, 137-162.
[3] MARTINS, Manuela e RIBEIRO, Maria do Carmo, op. cit.
[4] GASPAR, Alexandra, DELGADO, Manuela & LEMOS, Francisco Sande – «O salvamento de Bracara Augusta», 1986, 27-42.



.........................................................................................................................

Nº 37 - Publicado em 11 de Janeiro de 2013



O LUGAR DA ARQUEOLOGIA NO CONTEXTO ACTUAL DA HISTÓRIA DAS CIDADES
(III Parte)

ISABEL LUNA
(Arqueóloga)

O desenvolvimento das investigações em arqueologia urbana levou a que, na década de 70 do século XX, se tenha constatado a incoerência da repartição do estudo dos centros urbanos entre uma disciplina arqueológica que investigava o património construído oculto no subsolo, e uma disciplina arquitectónica que investigava aquele que se elevava acima do solo. De facto, o património arqueológico, apesar de soterrado, aflora por vezes à superfície, a partir das fundações dos edifícios existentes. A própria genealogia histórica dos imóveis é atestada pela investigação arqueológica, pelo que a acção do arqueólogo se estende ao edificado e a do arquitecto tem de passar, invariavelmente, pela componente arqueológica dos edifícios. Nasceu assim a denominada Arqueologia da Arquitectura, uma especialização metodológica e instrumental, pluridisciplinar, que envolve urbanistas, arquitectos, engenheiros, historiadores de arte, arqueólogos e artífices, que veio renovar e alargar consideravelmente os estudos de arqueologia urbana. Basicamente, consiste na aplicação aos edifícios das metodologias arqueológicas, nomeadamente dos sistemas de análise estratigráfica e de registo. A estratigrafia horizontal, do subsolo urbano, é entendida como formando uma unidade natural com a estratigrafia vertical das paredes dos edifícios, com a qual claramente se interrelaciona.
A Arqueologia da Arquitectura beneficiou de um conjunto de desenvolvimentos teóricos e tecnológicos registados nos últimos anos, como os sistemas de datação absoluta de paramentos (dendrocronologia e termoluminescência), as técnicas de registo e representação (fotogrametria), os sistemas de análise de técnicas e materiais de construção e um novo sistema de representação estratigráfica: a matriz de Harris (1979). Estas técnicas, aplicadas aos edifícios, permitem obter informações não apenas sobre a construção, mas igualmente sobre as alterações, restauros e reconstruções efectuadas ao longo do tempo.
A arqueologia urbana, enquanto arqueologia da “cidade em devir”, procura estudar, entre outros aspectos, a origem e evolução da cidade, o seu enquadramento, planeamento, estrutura morfológica, relações e hierarquias espaciais, infra-estruturas e edificações urbanas, bem como as suas vocações, locais simbólicos, actividades económicas e movimentos populacionais. A nova abordagem dada pela arqueologia da arquitectura veio acrescentar a este volume de informação uma série de conhecimentos específicos sobre as edificações urbanas, nomeadamente o estudo dos espaços e dos usos, bem como dos processos, técnicas e fases de construção.
Não obstante todos os desenvolvimentos da arqueologia urbana, no final do século XX o crescimento demográfico das cidades e a consequente expansão da construção civil, a par dos projectos de renovação urbana, em particular dos centros históricos, acabaram por afastar a disciplina dos seus propósitos iniciais, passando esta a funcionar quase exclusivamente como uma “arqueologia de salvamento”, cuja função consiste em libertar os terrenos urbanos dos empecilhos arqueológicos, de modo a viabilizar novos empreendimentos. Se bem que a maioria dos municípios disponha já de gabinetes de arqueologia, que procedem ao acompanhamento das intervenções levadas a cabo nos centros urbanos, muitos limitam ainda a sua acção aos trabalhos arqueológicos mínimos obrigatórios, nos imóveis classificados e suas respectivas zonas de protecção, remetendo a história das cidades para um plano claramente secundário. Por isso, os centros históricos urbanos continuam a assistir, diariamente, à realização de obras em espaços públicos, edifícios e infra-estruturas, que destroem irremediavelmente volumosas e preciosas parcelas da história das cidades e dos nossos antepassados.

± Texto escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico


.................................................................................................................................

Nº 38 - Publicado em 1 de Fevereiro de 2013


  
DESCOBERTAS REALIZADAS NO CENTRO HISTÓRICO – BREVE INTRODUÇÃO
(1ª Parte)

EMANUEL CARVALHO
(Assistente de Arqueólogo)


Desde a sua criação que os centros históricos se revelaram como elementos do espaço urbano da maior importância, pois não só representam como estão na origem das cidades, vilas ou aldeias.
E se a sua importância se revela como o espaço onde “tudo” começou, no caso de Torres Vedras, é o castelo que surge como o núcleo central que esteve na origem da actual cidade. Todavia, todo o espaço “intramuros” que delimitou a área urbana, até pelo menos ao século XIX, faz parte do centro histórico, visto que muito cedo, com a expansão da urbe, foi ocupado por populações que, à sombra do castelo, aqui se vieram instalar, e por diversos motivos consoante as necessidades: defesa, comércio, política, etc. Desse tempo ficou-nos a malha urbana, na maior parte das vezes adaptada ao relevo do terreno.
Podemos afirmar assim que o centro histórico é uma das referências identitárias das populações que aqui nasceram, cresceram e morreram.
Dos principais locais a destacar no centro histórico teremos o castelo, o bairro islâmico, a judiaria, os palácios e as construções ligadas à actividade religiosa – sendo estes os locais possíveis de identificar através dos documentos históricos.
Os centros históricos, como realidades vivas, devem merecer o maior cuidado e relevância – para além da arquitectura – de outras disciplinas, como a História, a Arqueologia, a Antropologia, a Geografia, a Sociologia, cujos contributos são indispensáveis para uma visão integrada do fenómeno urbano. Porém, é no âmbito da Arqueologia que nos iremos deter mais demoradamente.
Locais como o castelo, onde na década de 80 e 90 do século XX se realizaram diversas intervenções arqueológicas, serão objecto da nossa atenção, tal como os Paços do Concelho, pela importância dos achados ali encontrados durante as obras de recuperação no início do século XXI. Outros locais, como a área de implantação do primitivo Convento de Santo Agostinho, a Rua Cândido dos Reis (antiga Corredoura), ou as recentes intervenções na Travessa do Quebra Costas e na área envolvente do Chafariz dos Canos e da Igreja de São Pedro também serão aqui referenciadas.
No início do século XXI os centros históricos afirmam-se cada vez mais como um grande mercado urbano do lazer, visto que se vem assistindo à requalificação do espaço público e à crescente implantação de bares, restaurantes, ateliers, espaços culturais, etc.
Torna-se evidente que os centros históricos desafiam cada vez mais a nossa consciência patrimonial dado que são o reflexo do passado, mas também do nosso presente, apontando metas para o futuro.

 ...............................................................................................................

Nº 39 - Publicado em 22 de Fevereiro de 2013
  

 PESQUISAS NO CENTRO HISTÓRICO – ZONA DO CASTELO
 (2ª Parte)

EMANUEL CARVALHO
(Assistente de Arqueólogo)

O Castelo de Torres Vedras apresenta um conjunto de construções pertencentes a diversas épocas, cuja origem pode remontar a um período pré-histórico – entre as quais se destacam as ruínas do Palácio dos Alcaides, a Igreja de Santa Maria do Castelo, o conjunto de panos de muralhas, torreões, barbacã, contrafortes e cisternas. Indubitavelmente, este núcleo urbano assume-se como o elemento mais notável do património torriense, não só pela sua relevância geográfica, mas também como o local onde “tudo começou”.
Ciente desta importância e querendo compreender melhor a história deste complexo monumental, a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras em parceria com o Espeleo Clube de Torres Vedras e com o apoio do Museu Municipal e patrocínio da Câmara Municipal, tomaram a iniciativa de lançar na década de 80 e 90 do século passado diversas campanhas de escavações arqueológicas. Este projecto foi dirigido desde o seu início pelo Dr. Clementino Amaro, tendo contado com a participação de jovens oriundos de vários países da Europa, integrados em Campos Internacionais de Trabalho, e apoiados pelo Instituto Português da Juventude.
Nas últimas campanhas a direcção dos trabalhos de escavação arqueológica foi assegurada pela dr.ª Isabel Luna que participou nas primeiras campanhas como voluntária.
A escolha do local para início dos trabalhos, – a muralha sul do castelo, junto à barbacã (pátio de entrada) – deveu-se a uma descoberta do arqueólogo torriense Leonel Trindade, que tinha observado restos de “opus signinum” (cimento romano) em alguns blocos de pedra da muralha, virados para o exterior. Foi a partir destes dados que os investigadores da altura lançaram a hipótese de que seria possível encontrar níveis da época romana à cota onde se situavam esses vestígios.
Era já conhecida a presença romana na área do castelo, uma vez que a norte existem duas cisternas que deverão ter sido construídas nessa época, facto possivelmente relacionado com a existência de uma pequena fortificação.
Apesar das fortes expectativas em trazer à luz do dia vestígios da ocupação romana, a primeira campanha, para surpresa dos investigadores, veio a revelar uma extensa necrópole (cemitério) da época medieval/moderna. Com o avançar dos trabalhos, constataram os arqueólogos que essa necrópole se estendia por toda a área em redor da Igreja de Santa Maria do Castelo.
Nos primeiros níveis escavados foi recolhido sobretudo espólio associado às invasões francesas ou às guerras civis que se lhe seguiram, uma vez que foram encontradas diversas balas esféricas de chumbo e botões de farda. No nível estratigráfico imediatamente abaixo, surgiu então a referida necrópole, com cerca de meia centena de sepulturas, contendo ossadas pertencentes a todas as faixas etárias. Tais sepulturas apresentavam tipologias construtivas diferentes: desde simples covas no chão a caixas em pedra (algumas antropomórficas) construídas com lajes calcárias, com esteios e tampas. Algumas das quais mantinham ainda na sua cabeceira as estelas – lápides decoradas com diferentes motivos, muitas delas referentes à profissão do defunto. É importante destacar que mais de metade pertencia a crianças, na sua maioria recém-nascidos. Uma dessas sepulturas – coberta por uma laje que tinha sido utilizada como tabuleiro para o jogo do moinho – apresentava uma figura humana, empunhando um bastão decorado, rodeada de cruzes de malta, símbolo que poderá corresponder à figura de um funcionário judicial medieval, designado como Saião. No contexto deste projecto de investigação esta peça foi considerada, pelo seu carácter inédito, um dos achados de maior importância.



± Texto escrito ao abrigo do antigo acordo ortográfico