09 agosto 2023

O ÓRGÃO HISTÓRICO DA IGREJA DA MISERICÓRDIA DE TORRES VEDRAS | Jornal BADALADAS 26 MAIO 2023

 

O Órgão Histórico da Igreja da Misericórdia Celebra 250 Anos

(Primeira parte)

 

Daniel Oliveira

Organista titular, professor de Órgão no Conservatório Nacional de Lisboa

e no Conservatório de Música de Torres Vedras.

 

Um Testemunho Vivo do Património Musical e Histórico Torreense

Os instrumentos musicais históricos despertam muitas vezes fascínio e curiosidade e, sendo documentos vivos da sua época, conseguem por vezes levar-nos por autênticas viagens pelas práticas musicais, culturais e artísticas dessa mesma época e região.

O órgão de tubos da igreja da Misericórdia em Torres Vedras é mais um fascinante exemplo de um instrumento do passado, que testemunha as técnicas de construção desse tipo de instrumentos em Portugal, em particular na região Oeste.

Este instrumento foi construído por Bento Fontanes em 1773, celebrando, portanto, este ano, 250 anos de existência. Este construtor, em linguagem organística designado por organeiro, pertencia a uma família de organeiros oriundos da Galiza (Espanha) e que se fixaram em Portugal deixando um significativo número de instrumentos no nosso país, atravessando várias épocas e filosofias de construção. De referir que a família Fontanes trabalhou em Portugal durante os séculos XVIII e XIX. Em 1765, João Fontanes de Maqueira, pai de Bento Fontanes, constrói o grande órgão de São Vicente de Fora, em Lisboa, um dos maiores exemplares da organaria ibérica.

Bento Fontanes fixou-se em Lisboa em meados do século XVIII, onde tinha o seu atelier em Santa Engrácia e aí desenvolveu todo o seu trabalho. A região Oeste conta com três exemplares adicionais deste organeiro que, para além do Órgão Histórico da Igreja da Misericórdia, construiu o órgão da Igreja de Santa Maria em Óbidos e o instrumento que se encontra na Igreja da Encarnação, pertencente ao concelho de Mafra.

O tipo de construção destes instrumentos era bastante sofisticado, seleto e pormenorizado, denotando um profundo estudo dos espaços e uma preocupação com a adequação acústica e estética aos locais onde estariam inseridos.

Centrando-nos novamente no Órgão Histórico da Igreja da Misericórdia, este foi alvo de um restauro bastante criterioso em 2008, pelo mestre organeiro Dinarte Machado, respeitando toda a sua origem, desde a conservação e manutenção dos materiais até à afinação e pressão do ar que o instrumento possuía na altura.

Sendo que cada órgão tem uma personalidade própria, não havendo seguramente dois instrumentos iguais, neste caso estamos perante um instrumento com caraterísticas ibéricas, mas onde vemos claramente uma forma de construção bastante influenciada pela escola italiana setecentista. É típico dos instrumentos italianos terem os tubos da frente organizados em forma de triângulo, aspeto visual que encontramos também claramente no órgão da Igreja da Misericórdia.

 

 Pormenor do Órgão Histórico da Igreja da Misericórdia onde vemos a montra dos tubos em forma de triângulo, típica da construção italiana no século XVIII


Durante os séculos XVIII e XIX, os instrumentos em Portugal, Espanha e Itália tinham um aspecto em comum: a existência de apenas um teclado.

Dentro desta caraterística típica, havia um sistema que permitia que, no mesmo teclado, fosse possível coexistirem duas sonoridades bem distintas. Ou seja, a parte mais grave (mão esquerda) poderia ter o som de flautas e, por sua vez, as partes média e aguda do teclado (mão direita) poderiam ter um som completamente diferente como uma corneta, havendo assim a possibilidade de criar obras musicais com vários contrastes sonoros e tudo isto apenas com um teclado. Portugueses, Espanhóis e Italianos já aqui “economizavam”, e este instrumento torreense é um testemunho claro dessa filosofia de construção e, consequentemente, do repertório que por cá seria executado.


Teclado único e registos laterais

 

O uso do instrumento na liturgia

Sabemos, através de alguns documentos pertencentes à Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras que, em pleno século XVIII, o instrumento servia particularmente  os serviços litúrgicos e que, nas maiores solenidades litúrgicas havia lugar à contratação de músicos da Capela Patriarcal de Lisboa (grupo de músicos profissionais que estava ao serviço da Patriarcal). Sabemos aínda que, este serviço foi extinto aquando de uma crise financeira do hospital da Misericórdia (que funcionava na atual sede da Santa Casa da Misericórdia), sendo que o orçamento destinado para a contratação de músicos acabou por ter de ser utilizado para a compra de camas e outros bens de primeira necessidade para o hospital. Desde então, o instrumento não foi mais utilizado, acabando por se degradar até ao seu restauro em 2008.

Hoje em dia, este instrumento está inteiramente integrado nas liturgias da igreja da Misericórdia, cumprindo a sua função na perfeição.



Registos (timbres) do Órgão da Igreja da Misericórdia

..................................................................................................

PÁGINA DO JORNAL BADALADAS




BARROS E CUNHA: PUBLICISTA E POLÍTICO | Jornal BADALADAS 28 ABRIL 2023

 

Barros e Cunha: publicista e político 

Álvaro Costa de Matos*

Recordamos que a figura do ilustre torriense Barros e Cunha foi tema de uma tertúlia na Garrafeira Venceslau (Mercado Municipal), no passado dia 2 de Março. O seu autor aceitou o nosso convite para resumir a sua palestra para a página PATRIMÓNIOS, o que agradecemos.| JMD

 

 


Aquando da morte de João Gualberto de Barros e Cunha, a 10 de Janeiro de 1882, os jornais, mesmo aqueles que o combateram politicamente, traçaram um retrato consensual acerca da sua vida e obra. O Diário Ilustrado, órgão do Partido Regenerador Liberal, caracteriza Barros e Cunha “como homem de acção”, um self-made man que “chegou à mais alta posição social, tendo apenas a acompanhá-lo nesse longo trajecto uma vontade tenaz e uma audácia sem igual.” A revista O Ocidente fala dum “estadista”, que “foi incontestavelmente um homem de trabalho e de estudo”, um progressista cujo nome foi dos “que mais excitaram as paixões políticas do nosso país”. Vejamos como este retrato jornalístico se encaixa com o seu percurso histórico.

Vida & Obra

Barros e Cunha nasceu a 10 de Outubro de 1826, em Runa, no concelho de Torres Vedras. Era filho de Maria Rita de Barros e Cunha e de António Luís Pereira da Cunha (tenente-coronel do exército). Começou por tentar uma carreira literária como poeta, mas falhou. Escreveu regularmente artigos de opinião na imprensa, teve uma importante carreira política, sobretudo parlamentar, e publicou vários livros: Hoje (1868), História da Liberdade em Portugal (1869), A dívida de Mr. Lowe (1870), Os factos (1870), Da Fazenda Pública (1871), Real d’Água. Discurso proferido na câmara electiva (1872), Pântanos e irrigação. Relatório e projecto de lei apresentado à câmara dos senhores deputados (1876) e Lourenço Marques (1881).

Publicista

Barros e Cunha foi articulista em vários jornais e revistas, sendo de destacar a sua colaboração literária n’A Revolução de Setembro, um dos principais jornais do liberalismo monárquico, na Gazeta do Povo, com escritos políticos, e n’A Semana de Lisboa, com poesia. Participou em algumas polémicas nacionais, “onde se manifestou contra o iberismo, apreciou a evolução da política internacional, discutiu a introdução do sistema de representação de minorias no parlamento inglês e condenou veementemente a Saldanhada de 1870[1], golpe militar que levou à demissão do governo de Loulé. Barros e Cunha não fez da escrita em periódicos o seu modo de vida, profissão e, consequentemente, principal fonte de rendimento. Foi essencialmente um publicista, usando a imprensa como uma tribuna para divulgar as suas ideias políticas e uma rampa de lançamento para uma auspiciosa carreira política.

Político

Seguindo as pisadas do pai, Barros e Cunha alistou-se voluntariamente e combateu nas fileiras das tropas populares durante a guerra civil da Patuleia (1846). A partir daqui passou a desempenhar várias funções: foi secretário do duque de Loulé, vogal do Conselho Geral do Comércio, Agricultura e Manufacturas (1865) e ministro das Obras Públicas no governo do marquês de Ávila (5/III/1877 a 29/I/1878). Como ministro, assumiu-se como o braço direito de Ávila, sendo-lhe confiada a condução geral da política do governo. Segundo carta da altura de Emídio Navarro a José Luciano de Castro, Barros e Cunha “estava ministro de todas as pastas”! E na leitura de Pinheiro Chagas, era o representante do “partido progressista” no ministério[2], que ficou conhecido como “mientras vuelve”, já que em Espanha se noticiou que este governo se manteria em funções até que regressasse Fontes Pereira de Melo – o que aconteceu com a queda de Ávila no final de Janeiro de 1878.

Barros e Cunha começou por filiar-se no Partido Histórico, que reunia os liberais progressistas de “esquerda” e absorveu os setembristas, liderado por Loulé. Em 1876 afastou-se deste partido e aproximou-se do Partido Reformista, que congregava os liberais moderados. Alinhou, depois, com o grupo político de Ávila, que juntava os liberais conservadores (cartistas), o que acabou por o levar ao governo. Em suma: Barros e Cunha evoluiu do setembrismo (liberalismo progressista) para o cartismo (liberalismo conservador). Ordem acima da desordem e da transformação social radical.

Sem surpresa, vai envolver-se em várias controvérsias com os seus adversários políticos: o conflito com Espanha relacionado com uma questão de pescarias no Algarve, o inquérito às obras da Penitenciária de Lisboa, que deu origem a uma viva polémica na imprensa, nas Cortes e acabou por causar a queda do governo (29/I/1878), ou o Tratado de Lourenço Marques: apesar de anglófilo, Barros e Cunha foi um dos seus mais vibrantes opositores, tendo até sido orador num comício republicano (8/III/1881).

Se, como ministro, teve uma experiência efémera, como deputado teve uma prática longa e prolífica: foi eleito deputado pelo círculo de Torres Vedras em 1864, pelo de Vila Franca de Xira em 1870, pelo de Silves em 1871 e 1874, pelo Partido Histórico, pelo de Lisboa em 1878, pelos “avilistas”, e pelo círculo do Cadaval e Lisboa em 1879, pelo Partido Progressista, então no poder. Era um orador prolixo e exuberante, um parlamentar temível e polémico, como o atesta o obituário d’O Ocidente (11/II/1882): “Eleito deputado, enfileirou-se nas hostes progressistas, e foi um dos campeões mais enérgicos desse partido. A sua voz, vibrante e cortante, a sua grande verbosidade, davam-lhe, nas lutas do parlamento, uma vantagem sobre muitos dos seus adversários, com quem travou frequentemente duelos mortais, porque a sua palavra, incisiva e violenta, acendia muitas vezes a paixão política nos mais plácidos debates.” Pertenceu a várias comissões, trabalhando com afinco na Comissão de Verificação de Poderes para o Parlamento, e proferiu extensos discursos sobre as mais diversas matérias: abolição de todos os privilégios de isenção de impostos concedidos aos bancos, de modo a criar condições de igualdade entre os vários agentes económicos e obstar à desordem social (1871); rejeição do projecto de reforma da Carta Constitucional apresentado pelos reformistas (1871); discurso contra o real de água, pois os impostos injustos eram outra das origens dos protestos sociais (1872); defesa da colonização interna do Continente face à viragem para África (1881); e homenagem em memória do duque de Ávila (1881).

Estes discursos mostram que Barros e Cunha tinha um conhecimento profundo dos problemas domésticos e que estava a par do pensamento político, social e económico, não só nacional como internacional, com citações de Dudley Baxter, Proudhon, Frederic de Bastiat, Robert Peel, Thiers e doutros.

Em jeito de conclusão, importa reter cinco ideias que julgo definirem o perfil político-ideológico de Barros Cunha: (1) um self-made man, que se elevou socialmente pelos seus próprios méritos; (2) um homem de acção, de trabalho, mais do que de doutrinação, embora actualizado na teoria; (3) um polemista temível, quer no parlamento quer nos meetings públicos, respeitado até pelos seus “inimigos políticos”; (4) um adepto da liberdade económica para combater a desigualdade social; (5) uma figura incontornável do parlamentarismo português nas décadas de 1860-70.



* Historiador.



[1] F.M. – “CUNHA, João Gualberto de Barros e (1826-1882)”, in Dicionário Biográfico Parlamentar: 1834-1910. Lisboa: Assembleia da República, 2004, pp. 945-947.

[2] História de Portugal. Vol. X!!. Lisboa: Escritório da Empresa, s.d., p. 620.



IGREJA DE S. MIGUEL DE TORRES VEDRAS | Jornal BADALADAS 31 MARÇO 2023

 

Igreja Matriz de S. Miguel de Torres Vedras 

Em busca da memória perdida

 

Manuela Catarino

 

“Longe da vista, longe do coração” reza a sabedoria popular a propósito de alguém, ou de algo, que se fasta da nossa convivência e se vai esvaindo inexoravelmente em direcção ao esquecimento. Aos contornos nítidos da sua presença vão sucedendo sombras, mais ou menos fugazes e, por fim, um total olvido que quase surpreende que houvera existido.

A evolução do tempo, práticas humanas, sensibilidades culturais e outros factores têm sido os agentes das alterações que na paisagem urbana foram acontecendo ao longo dos séculos e, com maior ou menor mudanças, chegaram até ao tempo presente.  Sinais de evolução, de transformações ávidas de futuro.  No entanto, aqui e ali descortinam-se algumas marcas antigas, indícios de outras vivências, relembrando as comunidades antecessoras que escolheram o mesmo espaço para se fixarem, viverem e nele baixarem à derradeira morada.

Caminhe-se no vagar de uma qualquer tarde de sol primaveril pela cidade de Torres Vedras. Do parque da várzea, a norte, no morro sobranceiro, os olhos avistam a vetusta silhueta da Igreja matriz de Santa Maria do Castelo, aconchegada ao que resta de um outrora proeminente paço dos alcaides. Adentrando-nos no casario, no coração antigo da urbe, vamos encontrar a Igreja matriz de Santiago, hoje sem funções religiosas, ostentando, porém, um património digno de cuidada visita.

Pelas ruas do centro histórico, as marcas da toponímia prendem-nos a atenção. São acenos de estórias e de História comum. Os passos irão dar à Igreja matriz de S. Pedro, plena de ricos elementos patrimoniais que justificam longa paragem e um olhar pormenorizadamente apreciativo. A tarde ainda convida a que a caminhada continue. À sombra da colina do castelo busquemos as águas do Sizandro. Os documentos antigos dão conta da existência, nos tempos idos, de quatro igrejas matrizes em Torres Vedras. Já notámos três, falta-nos uma quarta…a de S. Miguel.

Quando nos acercamos da margem esquerda do rio Sizandro, desembrulhamos um mapa de 1882. Nele, o arquitecto sinalizou o que, ao tempo, ainda restava da Igreja de S. Miguel. Também a antiga ponte, do mesmo nome, que dava acesso á circulação de homens e bens em direção aos lados do mar.  A ponte moderna, ampliada, não se situa no sitio da anterior e o próprio rio sofreu alterações para que as catástrofes das cheias não voltassem a sobressaltar os torrienses. Todavia, olhando em redor, não encontramos qualquer menção à antiga matriz, nem um ínfimo sinal. No espaço que ocupou, estão automóveis estacionados. Sinais dos tempos hodiernos.

 

MEMÓRIAS ESCRITAS

Será apenas nas memórias escritas que a Igreja matriz de S. Miguel de Torres Vedras ainda se perpetua. Por elas lhe percebemos a antiguidade, remontando ao século XIII, contemporânea das outras três paroquiais da antiga vila. Entendemos a sua localização, próxima do rio, fonte de problemas incessantes pela devastação que as cheias produziam, tendo os poderes religiosos equacionado a transferência para lugar mais seguro, o que nunca se efectivou. Compreendemos a sua organização de igreja paroquial e da Colegiada que lhe era inerente, com o colégio constituído pelo seu prior, raçoeiros e outros clérigos necessários à organização interna que asseguravam o seu funcionamento.

Pelos testemunhos escritos perpassam igualmente notas de incúria que os olhos dos paroquianos detectaram, a que nem as admoestações dos visitadores eclesiásticos sempre garantiram atempadas reparações. São da primeira metade do século XVI essas notícias onde respigamos a menção a problemas no edificado:  a chuva entrava na igreja já que o madeiramento do tecto estava podre e com goteiras; o campanário, destelhado, sujeito a infiltrações faziam perigar as porcas dos sinos; também falta de objectos de culto: inexistência de paramentos e de cortinas de altares adequados aos ofícios religiosos, cálices em mau estado assim como a penúria de cera;  e inexistência de livros para as devidas anotações da comunidade religiosa. Queixas que se foram repetindo sem remédio, a que acrescia a ausência dos beneficiados a quem cumpria a cura das almas dos fregueses e que a desleixavam de forma reiterada.

A Igreja teve cinco altares: o altar-mor, dedicado ao orago Arcanjo S. Miguel, celebrado a vinte e nove de Setembro. Dois dedicados ao Menino Jesus e a Santo Anastácio, do lado do Evangelho. Do lado da Epístola, outros dois, sendo um para o evangelista S. Marcos e o restante para S. Bento. Com o terramoto de 1755, viria a sofrer danos consideráveis, à semelhança das congéneres torrienses, tendo caído o tecto em abóbada, o campanário com os sinos e sofrido estragos o coro da Igreja.

Perante a necessidade de obras de reconstrução, a Colegiada teve de arcar com as despesas. Nessa sequência, foram feitas algumas modificações ainda visíveis no século XIX: o corpo da igreja, de uma só nave, passou a ser coberto por um tecto de madeira, todo pintado, com as armas reais no meio; o coro passou a situar-se no piso inferior, na capela-mor; quanto à torre sineira, na parte norte da Igreja, só seria refeita em 1822.

A Igreja Matriz de S. Miguel parecia ganhar nova vida. São as fontes escritas que, mais uma vez, nos dão a conhecer essa realidade: a igreja, com a porta principal virada a poente, tinha de fundo 150 palmos, de largo 36, e a capela mor, 26 de largo. Os arcos e mesas dos altares eram de “variados marmores”, havendo na Sacristia uma mesa igualmente de mármore destinada aos cálices. Continuavam a existir cinco altares, mantendo o altar-mor a dedicação a S. Miguel, cuja imagem estava “do lado do Evangelho em sua peanha na parede, e do lado da Epístola a de S. Bernardo”, nas paredes do coro “seis painéis dos Passos do Senhor em madeira “. Do lado do Evangelho, o segundo altar, “dedicado ao Menino Jesus, e Privilegiado, é a Capella do SS. Sacramento”. Seguia-se, nesse lado, o terceiro altar, de S. Bento com a respectiva imagem. Do lado da Epístola, o quarto altar, de Nossa Senhora dos Remédios enquanto que o quinto era de Jesus Cristo crucificado.

Não foi tão duradoura a existência da reconstruída matriz de S. Miguel. Logo em 1859, por decreto de 4 de Novembro, do cardeal patriarca D. Manuel Bento Rodrigues se extinguia a sua freguesia, sendo anexada à de Santa Maria do Castelo. Sucederam as inundações do Sizandro e os consecutivos estragos do imóvel. O abandono tornou-se inevitável. Em 1877, pela Lei de 9 de Abril, era concedido à Camara Municipal de Torres Vedras o edifício em ruínas da “antiga igreja de S. Miguel da mesma vila, a fim de ser demolido, e empregados nas obras da ponte de S. Miguel e outras obras municipaes indispensáveis os materiaes que poderem ser aproveitados.”

O sol da tarde vai declinando nos outeiros e surgem as primeiras sombras. O Sizandro a nossos pés alonga-se entre as reestruturadas margens. O trânsito de pessoas e viaturas intensifica-se na área envolvente. Repegamos no mapa de 1882.  Fixamos o olhar nas linhas desenhadas e nos sinais convencionais. Por instantes, a memória da antiga matriz de S. Miguel identifica-se no espaço físico a que pertenceu. Voltará a pertencer-lhe algum dia?


Pormenor de mapa da Vila de Torres Vedras, 1882- assinalada a lo


Localização da igreja de S. Miguel de Torres Vedras (AMTVD, Obras Municipais: Melhoramentos no rio Sizandro perto de Torres Vedras, 1882-1938, Cx.62, nº720)


 Leituras de base

Pereira, Isaías da Rosa – “Visitações da Igreja de S. Miguel de Torres Vedras (1462-1524)”, Separata de Lusitania Sacra, 2ª série (7), 1995.

Rodrigues, Ana Maria Seabra de Almeida - Torres Vedras. A Vila e o Termo nos finais da Idade Média, Fundação Calouste Gulbenkian/Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica,1995.

Torres, Manuel Agostinho Madeira - Descripção Historica e Economica da Villa e Termo de Torres Vedras, reprodução do fac-simile da 2ª edição de 1862, Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras, 1988.

Vieira, Júlio - Torres Vedras Antiga e Moderna, 2ª edição, LIVRODODIA Editores, 2011.


............................................................................................................................




 

TURRES PATRIMONIUM - DIVULGAÇÃO E DESAFIO | Jornal BADALADAS 24 FEVEREIRO 2023

 

Turres Patrimonium – Divulgação e Desafios

DIRECÇÃO DA ASSOCIAÇÃO PARA A DEFESA E DIVULGAÇÃO DO PATRIMÓNIO CULTURAL DE TORRES VEDRAS



Roteiro um dia em Torres Vedras - visita dos alunos do Colégio Cesário Verde 
aos colegas da Escola Padre Francisco Soares de Torres Vedras


Espetáculo do projeto cultural de escola realizado 

no dia 15 de fevereiro 2023 no teatro cine de Torres Vedras

 

No ano letivo de 2021/2022 foi a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras (ADDPCTV) desafiada pela equipa Projeto Cultural de Escola (PCE) do Agrupamento de Escolas Madeira Torres, constituída pelas professoras, Ana Nunes, Elisabete Reis, Niki Paterianaki e Cristina Coimbra, sendo a última a coordenadora, para fazer parte de um projeto que então tinham em mãos, intitulado “Turres Patrimonium”, incluído num formato mais amplo, pois integrava o Plano Nacional das Artes (PNA).

O PNA foi instituído pelo Ministério da Cultura e pelo Ministério da Educação, com o quadro temporal de 2019 a 2029, partindo das premissas da Constituição, artigos 73º: “(…) o Estado promove a democratização da cultura incentivando e assegurando o acesso de todos os cidadãos à fruição e criação cultural.” e 78º: “1. Todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural.” 

Foi assim criado este organismo destinado a “organizar, promover e implementar, de forma articulada, a oferta cultural para a comunidade educativa e para todos os cidadãos, numa lógica de aprendizagem ao longo da vida”.

A ADDPCTV acolheu este projeto de forma natural, a divulgação do nosso património coletivo é uma preocupação desde a fundação e, as escolas, um palco natural para a prossecução do mesmo. A primeira tarefa constituiu numa visita às turmas, explicando em que consiste a identidade regional, que tanto apregoamos, e porque é importante a sua defesa, demonstrando como uma rua, uma loja, uma fachada, uma porta, fazem parte daquilo que são as nossas memórias e estas não têm igual em nenhuma parte do mundo. Os alunos receberam orientação, por parte da professora Isabel Morgado, e partiram em busca do património oral, realizando trabalho de campo, na recolha de lendas do concelho.

Numa segunda fase, foi realizada uma visita guiada por alguns dos locais mais icónicos, um roteiro para o qual contámos com a preciosa colaboração do arquiteto André Baptista, nosso associado e é extraordinário “ver” ruas, pelas quais já passeámos inúmeras vezes, pelos olhos destas crianças que também nos ensinam sobre a beleza de um puxador de porta, o geométrico padrão de um velho e gasto chão, ou uma chaminé, pormenores novos que só vieram enriquecer o nosso próprio conhecimento da urbe. A atividade associou momentos de “desenho à vista”, permitindo o registo e o cruzamento com as artes plásticas.

Este é afinal um processo de aprendizagem mútua e tudo aquilo que foi estudado foi posteriormente transmitido, num processo de intercâmbio: “Descobrir outros Patrimónios: Torres Vedras e Marvila”, aos alunos do Colégio Cesário Verde em Marvila, que vieram conhecer a cidade pelos olhos dos colegas e decerto levaram a sua história para contar, partilhando com os alunos locais, o conhecimento adquirido através do levantamento do seu património local.

Tanto o Agrupamento de Escolas Madeira Torres, como o Colégio Cesáro Verde, contaram com a contribuição de artistas residentes. Do primeiro, resulta um espetáculo, no dia 15 de fervereiro (para os alunos) e 18 de março (para as famílias e amigos), no Teatro-Cine de Torres Vedras.  O mesmo foi construído em torno da peça musical “Turres Veteras”, da responsabilidade do diretor artístico da Associação MusicÁlareira, Ruben Monteiro. Do segundo, o intérprete de Kora (instrumento oriundo da África Ocidental), Mbye Ebrima, acompanhou, com a sua arte, o relato das histórias locais. Através destas residências artísticas, os alunos tiveram a oportunidade de aprofundar o seu conhecimento sobre o património local, mas também de experienciar diversas artes performativas que contribuem para o desenvolvimento de competências, promoção da criatividade e autoconhecimento. Os alunos participantes tiveram a oportunidade de explorar diversas artes, como dança, música, literatura / poesia, e expressar-se através da linguagem artística, tornando a sua aprendizagem mais significativa e aliciante.

 É este mecanismo que nos traz aquilo que afinal pretendemos, um futuro para as nossas memórias coletivas, construídas e ampliadas por uma nova geração.

As equipas agradecem o precioso contributo de todos os parceiros, sejam associações, Câmaras Municipais, Juntas de Freguesia, professores, encarregados de educação e alunos.



Exposição de trabalhos sobre património local na biblioteca  da Escola Padre Francisco Soares de Torres Vedras 


Atividade inter escolas no Colégio Cesário Verde


....................................................................................



MEMÓRIAS PESSOAIS COMO FONTE HISTÓRICA - Jornal BADALADAS 27 Janeiro 2023

 

MEMÓRIAS PESSOAIS COMO FONTE HISTÓRICA

 Joaquim Moedas Duarte





A concepção positivista, ainda dominante no séc. XIX, privilegiava o documento escrito oficial como fonte para o estudo da História. Acreditava-se que os estudos históricos, com base nesses documentos, produziriam narrativas factuais objectivas, aceites como a “verdade histórica”. O fio condutor da historiografia resultava da sucessão de acontecimentos políticos, numa prática que já vinha da Antiguidade. Era a História dos Imperadores, dos Reis, das Dinastias, dos Tratados, das Guerras. Os livros da Instrução Primária, até ao final dos anos 50 do século passado, pautavam-se por essa visão. Foi assim que muitos de nós estudámos História

Entretanto, por volta de 1930, surgiu em França um movimento de renovação dos estudos históricos ligado à revista Annales – Anais de História Económica e Social, que revolucionou o modo de pesquisar e escrever História. Marc Bloch e Lucien Febvre foram os fundadores desta escola historiográfica, integrando os métodos já em uso nas Ciências Humanas –a Sociologia, a Antropologia, a Geografia Humana, a Economia, a Psicologia – na abordagem histórica. Deste modo, a visão estreita do positivismo foi substituída por uma grande angular sobre o horizonte da actividade humana no decorrer do Tempo. Tudo passou a caber nos interesses e preocupações dos historiadores, numa perspectiva de História Total, como lhe chamavam os homens dos Annales. O passado, muito mais do que a sucessão dos reis ou dos grandes chefes políticos, é, afinal, um imenso mosaico onde se interpenetram infinitas abordagens. Da vida privada à evolução das técnicas agrícolas, da história do urbanismo à história do trabalho, da demografia histórica às monografias de vilas e aldeias, da história da sexualidade à história das mentalidades, da história das empresas à história das lutas operárias, da história da infância à história da morte – tudo pode ser objecto de estudo. Esta visão fragmentária está bem longe da História Total, mas hoje parece consensual que o caminho passa pelas abordagens ecléticas e pluridisciplinares que ajudem a entender a complexidade da vida humana e dos rastos que vai deixando ao longo do Tempo.

 

O PROBLEMA DAS FONTES

A diversidade de objectos de estudo exige, naturalmente, o recurso a fontes históricas que o positivismo rejeitava. Assim, a história contemporânea recorre hoje à imprensa escrita, à fotografia, aos relatórios de empresa ou da polícia, às sentenças dos tribunais, às actas de reuniões, etc. Tudo pode ser útil, numa prática que se assemelha à investigação criminal, na procura de indícios, vestígios, restos. Os historiadores aprenderam a incorporar os diários e arquivos pessoais, sobretudo as memórias escritas, que articuladas e cruzadas com outras fontes, permitem aprofundar o conhecimento do passado, não raro com novos e surpreendentes dados. É o caso, por exemplo, das Memórias Políticas de José Relvas, publicadas décadas depois da sua morte, tal como ele havia determinado, que vieram iluminar aspectos obscuros dos primeiros anos da 1ª República. Tal como as Memórias do Marquês de Fronteira e d’Alorna enriqueceram o conhecimento histórico das primeiras décadas do séc. XIX.

Este recurso às memórias pessoais tem perigos evidentes. A memória é, por natureza selectiva, pois seria impossível arquivar no cérebro tudo o que aconteceu ao autor. Por outro lado, há que ter em conta o mecanismo psicológico do esquecimento como garantia natural de saúde mental. Acresce que o processo de recordar e passar à escrita é regido por escolhas conscientes, pautadas pelos valores pessoais, pela formação e pelo enquadramento de género, nacionalidade ou classe de quem escreve. Cabe ao historiador adoptar metodologias rigorosas que cruzem informações e diversifiquem as perspectivas de análise, de modo a discernir a verdade aceitável da enfabulada fantasia.

 

UMA MULHER NA HISTÓRIA

Estas considerações e reflexões foram induzidas pelo aparecimento de um livro da autoria de Maria Luísa Bouza Serrano, recentemente publicado e lançado nos Paços do Concelho de Torres Vedras, com o título Nascida em 1944. A autora é torriense e mulher da História. Licenciada nesta área, foi professora entre 1973 e 2014. Quando se aposentou, decidiu continuar na História e ofereceu-se para trabalhar como voluntária na Secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa.

O primeiro resultado deste trabalho foi a publicação, em 2018, em parceria autoral com Olívia Beleza Afonso, também professora de História, de um importante acervo de documentos históricos que abrangem a História de Portugal desde meados do séc. XIV até aos nossos dias. O título é expressivo: Como fomos, assim estamos – Portugal escrito pelos Portugueses, e não só. Diz-nos como o passado se repercute no presente e molda a nossa identidade. Propõe-nos uma viagem do passado até ao presente, através “de textos, todos eles acessíveis ao público, mas nunca publicados em conjunto desta maneira” – como nos explicam as autoras. Trata-se, pois, de uma antologia original de grande utilidade e interesse, tanto para o leitor comum como para os professores de História, que encontram aqui documentos históricos importantes e de difícil acesso.


Quanto ao Nascida em 1944, de Maria Luísa Bouza Serrano, não é um trabalho de cariz académico, antes uma rememoração dos seus anos de vida, em jeito de memórias pessoais. Evitando a mera narração de factos por ordem cronológica, foi introduzindo, quando a propósito, pequenos relatos sobre pessoas e acontecimentos que tiveram eco na sua vida. E é nestes que nós, leitores, encontramos ressonâncias na nossa própria vida. Afinal, Maria Luísa caminhava perto de nós e disso nos dá conta, numa prosa escorreita, despida de subjectivismos importunos, atenta à necessidade de escrever o que viu e viveu. Ela o afirma no capítulo inicial: "E descansem, não vou encher folhas com descrições de paisagens e de estados de alma, meus ou de outras pessoas, tenho muito para contar, objectivo, factual, mesmo que por vezes com alguma, pouca, fantasia".

Organizando a narrativa em capítulos temáticos, vamos seguindo a biografia da autora com o interesse de quem revisita lugares conhecidos e reconhece referências a acontecimentos culturais e políticos. Aos torrienses interessará, sobremaneira, as recordações ligadas aos espaços que todos conhecem, como sublinha a escritora e jornalista Joana Leitão de Barros no prefácio deste livro: «Uma outra camada de leitura será a que permite enriquecer uma História em escala micro, a da vida rural de Torres Vedras, a dos animados e elitistas Verões na Praia de Santa Cruz (…), em que não poucas vezes perpassa uma ironia fina e algum sarcasmo, a par de um grande sentido de pertença».

Cada leitor encontrará aqui as imagens que vivem na sua própria memória. A descrição dos anos na Faculdade de Letras de Lisboa, por exemplo, faz reviver em quem por lá estudou, os professores, o edifício, as disciplinas, a ambiência estudantil, todo o contexto que explica as crises académicas dos anos 60.

 

HISTÓRIA LOCAL

Poderão alguns perguntar: mas as “memórias” são História?

Respondo: são uma fonte importante para a História. Sobretudo, são um recurso para a chamada Micro-História, uma disciplina que ganhou importância e maioridade desde há umas boas décadas. São olhares e registos que, passados à escrita, esclarecem aspectos particulares do passado humano, e que servem igualmente à Sociologia ou à Antropologia.

Bem sabemos que a fronteira entre a realidade objectiva e a apreciação subjectiva é estreita e porosa. Cabe ao escritor escolher o caminho do meio e ao leitor apreciar o resultado. Nesta tentativa, Maria Luísa saiu-se com brilhantismo.

Assinalo, também, outro aspecto relevante nesta obra. Maria Luísa decidiu integrar, em anexo, o estudo da autoria de seu irmão José Alberto Santos da Costa Bastos, recentemente falecido, intitulado Com Raízes em Torres Vedras - História e genealogias de algumas famílias torrienses. Este é um excelente contributo para a História Local, publicado em 2016. de circulação restrita e posto, agora, à disposição de todo o público interessado.


...................................................................................................

A PÁGINA NO BADALADAS


 

08 janeiro 2023

O ESPLENDOR DO BARROCO EM TORRES VEDRAS - Jornal BADALADAS de 23 de Dezembro de 2022


O Esplendor do Barroco em Torres Vedras

Joana Santos Coelho

Joaquim Moedas Duarte

 

Em 16 de Outubro passado acompanhámos cerca de 25 pessoas num passeio cultural na cidade de Torres Vedras, integrado no ciclo “Passos em Volta”, iniciativa do sector de Cultura da Câmara Municipal. O tema foi “O esplendor do Barroco”. O texto desta página é o complemento dessa visita.

 

ESTILO ARTÍSTICO

O Barroco foi um estilo artístico que primou pelo esplendor, luxo, dinamismo, drama e exuberância, e foi transversal a diversas áreas como a arquitectura, a pintura, a escultura, a literatura, a música ou o teatro. Surgiu em Itália no final do século XVI e esteve em vigor aproximadamente até meados do século XVIII. Três circunstâncias impeliram o florescimento deste novo estilo: o surgimento de novas potências europeias (devido às novas rotas comerciais com o Novo Mundo), os regimes absolutistas (cujo poder estava concentrado na figura do rei) e sobretudo a Contrarreforma da Igreja Católica, que ganhou forma através do Concílio de Trento (1545-1563). Esta reforma foi uma reacção ao Protestantismo, que veio criar uma cisão na Igreja Cristã, e que foi um manifesto contra o luxo e a corrupção da mesma. Em contrapartida, a Igreja Católica apela à renovação da vivência religiosa, a partir da sistematização doutrinária realizada naquele Concílio. É neste contexto que nasce o Barroco, expressão artística da veemência religiosa e da opulência material.

O termo significa “pérola irregular” e, segundo Wolffin, este estilo “é a primazia da cor e da mancha sobre a linha, da profundidade sobre o plano, das formas abertas sobre as fechadas, da imprecisão sobre a clareza, e da unidade sobre a multiplicidade”. Está esteticamente associado ao ornamento complexo e imperfeições naturais, diagonais e assimetrias, curvas e espirais, liberdade e emoção, drama e movimento. As construções barrocas integram várias linguagens artísticas, têm tendência para a planta centralizada e são caracterizadas pela grandiosidade, opulência e exuberância.

A Escultura, que pode ser um mediador entre o Homem e Deus, passou a ser identitária da Igreja Católica, enquanto o Protestantismo avançava com movimentos iconoclastas (abominação de imagens religiosas). No período barroco ganharam destaque as composições grupais e as imagens de roca.

Na Pintura destacou-se a Escola Tenebrista que se caracterizava sobretudo pelos fortes contrastes claro-escuro e pelo aspeto teatral. Neste período surge também o trompe l’oeil, que era uma técnica de pintar tetos com truques de perspetiva, criando ilusão de ótica de que as formas 2D possuem 3 dimensões. E para a burguesia protestante, passam a ser pintadas mais cenas do quotidiano e de natureza-morta.

No caso português, o Barroco esteve em voga entre 1580 e 1756, mas ganhou maior expressão no reinado de D. João V (1705-1750). No governo filipino Portugal esteve de certa forma isolado do que se passava no resto da Europa, nos reinados de D. João IV, D. Afonso VI e D. Pedro II houve tribulações dada a guerra da independência e a crise de sucessão, e finalmente no reinado de D. João V atravessou-se um período de paz e prosperidade. D. João V foi um rei amante das Artes. Para além do contexto político, beneficiou também das remessas de ouro vindas do Brasil. Revestiu o seu país com talha e azulejo e foi no seu tempo que foram realizados alguns excelentes exemplos do Barroco que também podemos ver nas igrejas de Torres Vedras.

 

O BARROCO EM TORRES VEDRAS

Se pensarmos nas manifestações esplendorosas do barroco espalhadas pelo nosso país, –o Convento de Mafra, por exemplo, ou os interiores de igrejas “forradas a ouro” como S. Francisco no Porto ou St. António em Lagos – temos de convir que no nosso concelho os exemplos de arte barroca são mais discretos. Ainda assim, o que temos é de valor e relevância indiscutíveis, com realce para as artes decorativas dos interiores das igrejas. Se no aspecto arquitectónico os alçados exteriores são geralmente austeros, nos interiores encontramos soluções expressivas do barroco que integram, de modo harmonioso, a talha dourada dos retábulos de altar, a azulejaria, a pintura e a escultura sacras, e os embrechados de mármore – uma gramática decorativa a que alguns historiadores de Arte chamam “arte total” ou “totalidade decorativa”. Os exemplos multiplicam-se por todo o território concelhio: as capelas-mores das igrejas da Carvoeira, de A-dos-Cunhados, de Dois Portos, de Runa, de Matacães, da Ponte do Rol, de S. Pedro da Cadeira; as capelas do Sirol, da Srª dos Milagres, da Madre de Deus, da Ribaldeira.
Na cidade, destacam-se as Igrejas da Graça – com o claustro conventual, a portaria, a antessacristia e sacristia, onde avultam  notabilíssimos conjuntos de painéis de azulejos figurativos –;  S. Pedro, Santiago, Misericórdia e a capela de Nª Srª do Amial.

 

Capela-mor do convento do Varatojo, Torres Vedras

O Convento do Varatojo merece menção especial. À entrada, encontramos a pequena capela de Nª Srª do Sobreiro, com a talha do altar dialogando com as coberturas parietais de azulejo e o estuque marmoreado, numa surpreendente unidade de estilo, sublinhada pela coerência formal da concepção arquitectónica.
A capela- mor da igreja do convento é um exemplo brilhante da “arte total” barroca do séc. XVIII. O retábulo é de talha a branco e ouro, em que as quatro colunas salomónicas enquadram um trono eucarístico, por vezes velado por uma tela de Bacarelli. Na parte inferior do retábulo, há belos exemplares de embrechados de mármore e mármores embutidos. As paredes são forradas de silhares de azulejos figurativos, com cenas da vida de Santo António, sobrepujadas por quatro telas dos finais do séc. XVI, com cenas do Natal cristão atribuídas por Vitor Serrão ao pintor Gaspar Dias. A enquadrarem o altar, dois jarrões em mármore preto.

No corpo da igreja, do lado da epístola, sobressai a capela de Nª Srª das Dores, já dos finais do séc. XVIII, em que também se conjugam o retábulo, os silhares de azulejos figurativos e as telas, todos de temática mariana – novo exemplo do conceito “arte total”.

 

Altares da Igreja da Misericórdia, Torres Vedras

No périplo urbano destes “passos em volta”, foi proporcionado aos passeantes um olhar mais atento e informado sobre o esplendor do barroco. No Convento da Graça, as capelas com seus retábulos e os núcleos azulejares atribuídos a um dos grandes criativos do ciclo joanino, o Mestre PMP – que também deixou obra nas igrejas e capelas de Santiago, Matacães, Mugideira, convento do Barro e Serra da Vila; os azulejos de Nicolau de Freitas e a talha dos três altares na Misericórdia; as telas tenebristas de Santiago e de S. Pedro…

 É bem verdade que, de tanto serem familiares, muitas vezes nos passa despercebida a riqueza artística destes espaços.

 

Referências

Serrão, Vítor (2003) O Barroco. História da Arte em Portugal. Editorial Presença: Lisboa

Janson, H. W. (2005) História da Arte. Fundação Calouste Gulbenkian: Lisboa

Toman, Rolf (dir.) (2004) O Barroco. Konemann: Koningswinter, Alemanha

Pereia, José Fernandes e Silva, Nuno Vassallo (2007) Da Estética Barroca ao Fim do Classicismo, Vol VII da História da Arte Portuguesa (dir. Paulo Pereira)

Créditos fotográficos: Vitor Oliveira (capela-mor do Varatojo); Joaquim Moedas Duarte (altares da Misericórdia de Torres Vedras)

 

 


.S. GONÇALO, PADROEIRO DE TORRES VEDRAS - Jornal BADALADAS de 25 NOVEMBRO 2022

 

S. Gonçalo, Padroeiro de Torres Vedras

Luís Filipe Rodrigues (texto)
J. P. Sobreiro (selecção de imagens)



Pintura Quinhentista de autor e proveniência desconhecidos, representando S. Gonçalo encimado por uma cartela com partitura musical. Patente na exposição do Museu Municipal (Nov. 2022 a Maio 2023) 


Tudo ou quase tudo é incerto na vida de S. Gonçalo. Incerto e inverosímil. Desconhece-se o apelido, o nome dos pais e da sua ascendência, como a data exacta do nascimento e da morte. Tudo parece ter ficado no domínio da lenda – tal ocorrendo a grandes mestres da humanidade, como Confúcio ou Sócrates ou Buda.  O que se regista, então é uma tentativa de percurso biográfico, sabendo-se que as informações recolhidas pelos seus principais biógrafos, duzentos anos depois, – Frei Aleixo de Menezes e Frei António da Purificação – tiveram como principal referência e ponto de apoio a transmissão oral.

É verdade. Tudo permanece na penumbra. Por exemplo, o próprio ano do nascimento, pois só no século XVIII foi referida a data de 1360, devido a nesse final de século começar a ser instruído o processo de beatificação, requisito para a construção de uma biografia. Ou na penumbra permanece o ano exacto da morte, havendo biógrafos que apontam a era de 1445. E também sobre os seus ascendentes, sendo certo que Gonçalo nasceu em Lagos no seio de uma família de pescadores, honesta e temente a Deus. E educado segundo os princípios cristãos.

Nascido em Lagos, muito cedo sentiu dentro de si um chamamento. Atraído por essa voz interior partiu para Lisboa na companhia de parentes. Depois de bater à porta de alguns conventos apresentou-se ao prior da Graça por quem foi recebido e aceite. O convento e a igreja da Graça foram fundados em finais do século XIII, para os frades da Ordem dos Agostinianos Eremitas, conhecida por Ordem dos Gracianos, no largo da Graça, em Lisboa.

Depois de frequentar a universidade ao tempo instalada no actual bairro das Escolas Gerais, em Alfama recusa o título de doutor em Teologia, preferindo ficar apenas com o grau de pregador, com o qual dá início à sua vida apostólica. Pregador eloquente e virtuoso, frade muito zeloso e atento aos problemas da Ordem mendicante, os seus superiores encontraram nele alguém talhado para missões de maior responsabilidade.

Deste modo, é enviado para a Estremadura, como prior do Convento de São Lourenço, actual freguesia de Miragaia, concelho da Lourinhã, aí permanecendo dois anos.  Por ser um dos mais pobres da Ordem foi extinto e abandonado em meados do século XVI. Embora não restando dele quaisquer vestígios, no mesmo local terá sido erguida a igreja de S. Lourenço dos Francos ou igreja do Convento dos Agostinhos, um templo rural com características da arquitectura do renascimento estremenho, objecto de sucessivos restauros até aos dias de hoje.

Depois da Estremadura regressa a Lisboa. Neste período, em que preside aos destinos do Convento, é elevado a Vigário Geral, e nessa função apresentado como Reformador da Província. Quatro anos depois ruma para longe, com a missão de dar seguimento às grandes obras do Convento da Graça, em Santarém, que fariam dele uma das joias da Ordem e onde foi sepultado o descobridor do Brasil, Pedro Álvares Cabral.

Cumprida a tarefa, e findo o priorado, é enviado para Torres Vedras onde permanece 10 anos, até à sua morte, em 1422. O Convento, contruído por volta de 1380, ocupava o lugar fronteiro à igreja de Santiago, na mais movimentada rua medieval. Era aí, à porta do mosteiro, que tantas vezes frei Gonçalo exercia o seu múnus pastoral e apostólico ao cruzar-se com as gentes que vinham da faina dos campos, deixando uma imagem de paciência, bondade, humildade e sabedoria. Ou catequizando com desvelo os mais novos. Ou de alforge às costas, por caminhos e lugares da região, onde se deslocava a pedir esmola, a dar bons conselhos, a espalhar a Palavra de Deus.  

No interior do convento  unum inter pares, um frade entre os outros, prestando as tarefas mais humildes e serventuárias, como lavar os pés aos hóspedes e peregrinos,  varrer o chão, arrumar as oficinas – Frei Gonçalo tinha a missão de governar, de tratar de assuntos de organização e provedoria. Conta-se que um dia se deslocou a Lisboa, a pé,  implorando apoio junto do arcebispo, seu velho amigo. Estamos em 1413. Foi bem sucedido em tal demanda, pois na despensa rareavam os mantimentos necessários para satisfazer as exigências do Capítulo Provincial ali reunido. Para além de no refúgio da sua cela se dedicar à meditação, a copiar livros de cantochão, a compor música sacra, a fazer iluminuras que serviam para decorar os livros.

Sua fama de milagreiro vem de longe, pois já em vida é tido como taumaturgo, dotado de um poder admirável, fruto da fé e da confiança que o povo depositava na sua palavra, tomando-o, assim, como intermediário de Deus. Mas é depois da sua morte que cresce essa aura de santidade testemunhada por inúmeros episódios miraculosos, devidamente autenticados.

(S. Gonçalo salva o sobrinho num naufrágio - Painel na sala da Portaria do Convento da Graça, Torres Vedras)

Um dos mais relevantes – documentado num dos oito painéis de azulejo expostos na antiga portaria do convento, hoje designada sala de S. Gonçalo – destaca o Santo, já glorioso, a salvar um sobrinho, naufragado no mar, e a mandá-lo visitar e orar na sua sepultura em Torres Vedras. A notícia de tal milagre espalhou-se velozmente pela região, a ponto de os pescadores de Lagos o invocarem por seu padroeiro.

D. João II, seu grande devoto, conhecedor dos feitos extraordinários obtidos por intercessão do Santo, enviou do Algarve uma carta datada de 26 de Setembro de 1495, e endereçada à Câmara Municipal de Torres Vedras, «exaltando esta vila e chamando-lhe povo abençoado, pela glória de possuir os ossos do santo taumaturgo». Em consequência desta missiva a Câmara proclamou a 13 de Outubro desse ano S.  Gonçalo «Defensor e Padroeiro da Vila e seu termo», com o voto de assistir, no dia da comemoração do seu falecimento, à Missa anual. Existe cópia do documento, em que se exprime tal voto, no arquivo da câmara municipal, retirado de uma certidão da época, pois que o livro original ardeu num incêndio.

A partir daquela data, S. Gonçalo passou a ser venerado como padroeiro de Torres Vedras. O culto foi-se propagando e o principal gesto impulsionador deste culto foram as sucessivas transladações dos seus restos mortais. E houve cinco, sendo a segunda a mais expressiva com a transladação do cofre contendo os ossos do santo, percorrendo as ruas da vila no ano em que o edifício velho começou a ser demolido e transferido para o local de hoje, devido às permanentes cheias do rio Sizandro. A quinta e derradeira transladação acontece em 15 de Novembro de 1784 para o primeiro altar à esquerda de quem entra na igreja da Graça, em cumprimento de um voto de acção de graças pela cura de uma chaga que D. Pedro III, o príncipe consorte da rainha Dona Maria I, teve num joelho.

Ao celebrarmos – em articulação com a cidade de Lagos os 600 anos da morte de S. Gonçalo, cumpre evocar a memória de alguém que marcou gerações de crentes pelo seu amor entranhado à Igreja, deixando como legado um olhar iluminante e misericordioso, um braço forte e solidário velando sempre pelos mais pobres e desprotegidos.

(Por opção do autor, texto não segue as normas do novo Acordo Ortográfico)

 


 

 Arco de S. Gonçalo, em Lagos

 

 

 


 

 

 

 Nicho com a arca tumular quinhentista (hoje vazia), na capela-mor da Igreja do convento da Graça, em Torres Vedras

 

 

 

para um roteirO da vida de S. gonçalo

– Nasce em Lagos, em 1360, no local onde, segundo a tradição, agora se encontra o seu nicho e imagem.

– Em 1380 ingressa na Ordem dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho, convento de Nossa Senhora da Graça, em Lisboa. Frequenta os ‘Estudos Gerais’. Professa votos perpétuos de pobreza, de castidade e de obediência.

– Em 1394, é colocado como prior do Convento de São Lourenço dos Francos, num local ermo, próximo da Lourinhã.

– Em 1404 é prior do convento de Nossa Senhora da Graça em Lisboa. Nesse período é elevado a Vigário Geral da Ordem.

– De 1408 a 1412, prior no convento da Graça em Santarém

– A partir de 1412 prior do Convento da Graça em Torres Vedras

– 1422, data da fixação da sua morte. Morre no mosteiro velho, situado na várzea grande, com fama de santidade.

– Entre 1489 e 1510 foram autenticados catorze milagres. Tal autenticação foi realizada a partir da descrição feita pelo frade Leonel, então prior do convento novo de Torres Vedras, interessado em compulsar tais actos miraculosos para endossar ao Vaticano.

Em 1559, ano em que os restos mortais são transladados para a capela do Hospital de Santo André ou da Gafaria, situado na entrada sul da vila.

– Em 1580, após a conclusão do convento novo, deu-se uma outra transladação, da capela de Santo André para a nova igreja.

Em 1778 é beatificado. O Papa Pio VI autoriza o culto de Beato a Frei Gonçalo, com honras de Santo em Portugal.

 

 

(Um dos oito painéis sobre a vida de S. Gonçalo, Portaria do Convento da Graça de Torres Vedras)