26 maio 2022

IMPORTÂNCIA E DEGRADAÇÃO DOS CENTROS HISTÓRICOS – o caso de Torres Vedras

 

Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS - 25 MARÇO 2022

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Importância e degradação dos Centros Históricos 

O caso de Torres Vedras

Joana Santos Coelho

Museóloga

 

A 28 de Março celebra-se o Dia Nacional dos Centros Históricos. Esta data é assinalada desde 1993 e tem como objetivo principal chamar a atenção para a preservação e valorização dos mesmos. Foi esta a data escolhida por ser o dia do nascimento de Alexandre Herculano (1810-1877), que foi um grande defensor do património cultural português.

Independentemente do seu estado de conservação, o centro histórico é, por excelência, o lugar da história e da memória coletiva das cidades. A sua carga simbólica está na génese da identidade das cidades, representando valores históricos, imagéticos e também afetivos. Um centro histórico não é apenas uma zona antiga da cidade. Para ser classificado como tal, tem de apresentar as seguintes características: antiguidade secular de edifícios singulares; homogeneidade urbanística e arquitetónica; simbolismo cultural. O património material, e também o imaterial, são a representação máxima da memória do lugar. Portanto, os centros históricos consistem numa herança insubstituível que importa preservar através, por exemplo, da sua salvaguarda e integração na vida coletiva dos cidadãos.

O Centro Histórico de Torres Vedras abrange cerca de 18,9 hectares, o que corresponde aproximadamente ao território que outrora fora rodeado (talvez na totalidade) por uma muralha. Foi ocupado sucessivamente desde a Idade do Ferro até aos dias de hoje, com oscilação na sua densidade populacional. Ao contrário de muitas cidades, Torres Vedras não cresceu de forma radial (um círculo a partir do ponto mais antigo). Foi aquando da ocupação romana da cidade que foram traçadas 2 importantes vias reguladoras (cardus [N-S] e decumanos [E-O]), a partir das quais a urbe torriense se desenvolveu. Atualmente o decumano corresponde à ligação entre a Rua Cândido dos Reis até à Rua de Santo António, e o cardo à Rua da Espora Dourada. A malha urbana da cidade consolidou-se durante a Idade Média, verificando-se uma construção orgânica e desorganizada apenas na encosta do castelo. Em destaque no tecido urbano da cidade, encontram-se vários exemplares notáveis de Património edificado, alguns classificados como Monumentos Nacionais(MN) ou Monumentos de Interesse Público (MIP): Chafariz dos Canos (MN), Igreja de S. Pedro (MN), Portais românicos da Igreja de Santa Maria do Castelo (MN), Igreja de Santiago (MIP), Igreja da Misericórdia (em processo de classificação) e os quatro Passos Processionais (de interesse concelhio mas ainda não classificados). Para além do seu valor estético, todo o conjunto importa também e sobretudo pelo testemunho das vivências da cidade ao longo dos tempos. Porém, a essência do centro histórico não são só os monumentos históricos. Também dela fazem parte a habitação, o comércio e os espaços públicos como os jardins e as praças. Todo o conjunto representa a identidade do lugar e por esse motivo importa preservar. No entanto, a degradação dos centros históricos é um cenário infelizmente comum. Muitos dos núcleos antigos encontram-se decadentes e despovoados devido à sua estagnação.

A partir da segunda metade do século XX, no seguimento das transformações do pós-guerra, surgiram novas centralidades nas cidades, movendo os cidadãos para as suas periferias. Tratou-se de uma mudança na organização económica e social, logo também nos modos de produção e apropriação do território. O aumento de população e a massificação do automóvel, assim como o progresso da tecnologia dos transportes e comunicações, proporcionaram a reestruturação das cidades. Este afastamento orgânico da população do centro da cidade para originou consequentemente o enfraquecimento do comercio local. O processo de decadência do centro histórico começa portanto com a destruição dos seus principais usos: a habitação e o comércio. A rua, os largos, a loja, a mercearia, ou o cinema, são substituídos pelas grandes superfícies comerciais, e a sociedade de proximidade é substituída pela sociedade de consumo. Para além dos motivos já apontados, também a falta de planeamento urbano contribuiu para a degradação dos centros históricos.

No caso de Torres Vedras aconteceu de forma gradual a partir dos anos 80 do século passado. Em 1979 passa de vila a cidade, em 1985 Portugal adere à CEE, e neste período o poder de compra dos portugueses aumentou de forma geral. Consequentemente aumentou também a construção de habitações, nas periferias, e depois o comércio. Em 2007 é dado ainda um duro golpe na vitalidade do centro histórico de Torres: a abertura do Arena Shopping. Não ignorando estes acontecimentos, importa referir que a câmara municipal, à semelhança de outras no país, também tomou medidas para combater o abandono do centro histórico. Uma delas foi, por exemplo, o programa “Torres ao Centro” implementado a partir de 2009, baseado em políticas de reabilitação integradas, seguindo princípios culturais e socioeconómicos. A par da reabilitação de alguns edifícios (púbico e privados), surgiram também novas iniciativas que procuraram promover a qualidade do centro histórico enquanto espaço público: zona pedonais, esplanadas, concertos ao ar livre, ciclovias, parques de estacionamento, a instalação de equipamentos municipais (como por exemplo a biblioteca, a Porta 5, o LabCenter ou a Galeria Municipal), a Feira Rural, a Rota dos Petiscos, a Moda em Movimento, etc. Apesar dos esforços, será que tem sido feito o suficiente?

É certo que os centro histórico não devem ser conservados como se de museus ao ar livre se tratasse, no entanto, devem perpetuar o sentido de agregação da população. Importa serem integrados na cidade como elementos geradores de vida coletiva, apropriados pela sociedade. Os centros históricos são um autêntico património social e cultural deixado pelos nossos antepassados e, portanto, é da responsabilidade das gerações contemporâneas assegurar a sua transição e proteger a sua identidade.

Convite ao embelezamento da cidade

Um dos sinais evidentes do abandono dos centros históricos são os graffiti espontâneos e tags. Estes, apesar de não danificarem a estrutura dos edifícios, interferem na sua estética e no lugar em que se inserem. São o reflexo do ambiente social envolvente, em degradação, e infelizmente muito comuns nos centros históricos, tal como no centro torriense. A resolução desta problemática urbana passa pela remoção dos graffiti mas também pela sensibilização da população. É neste sentido que a Associação do Património Cultural de Torres Vedras, em conjunto com a Câmara Municipal e a Associação dos Amigos de Torres, está a planear uma atividade: durante uma manhã (em data brevemente a definir) os torrienses serão convidados a devolver o brilho a algumas ruas do seu centro histórico. A atividade consiste numa ação de voluntariado em que se procura preservar o património, aprender mais sobre o mesmo, e também envolver a comunidade desenvolvendo nela o sentimento de pertença e de respeito pelo espaço comum. Nos canais próprios das instituições envolvidas será divulgada em breve a data da atividade, que visa assinalar o Dia Nacional dos Centros Históricos, assim como outras informações úteis.

Bibliografia:

SILVA, C. G. (2008). Torres Vedras, Antiga e Medieval. Lisboa: Edições Colibri / Câmara Municipal de Torres Vedras.

BAPTISTA, André (2013). O lugar como simbiose – Centro Histórico de Torres Vedras (Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitetura). Lisboa: Universidade Lusófona.

ROCHA, Manuel (Eds.) (2011). Actas do Seminário Centros Históricos: passado e presente. Porto: Departamento de Ciências e Técnicas do Património, FLUP

FERRÃO, J., SALGUEIRO, Teresa Barata (2005) Geografia de Portugal Vol. 2 – Sociedade, Paisagens e Cidades. Lisboa: Círculo de Leitores.



                                                      Rua 9 de Abril, Torres Vedras, em 1920.

                                                  (Imagem do arquivo de Adão de Carvalho)

 



 Rua 9 de Abril, Torres Vedras - atualmente.

                                                          (Imagem de www.torresvedrasweb.pt)

 


                                              Rua da Cruz, Torres Vedras - atualmente



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