28 janeiro 2022

LOJAS COM HISTÓRIA - Página PATRIMÓNIOS - 28 JANEIRO 2022

 

Lojas com História

Pedro Fiéis⁕

Professor de História

 

Os monumentos são naturalmente o espelho maior da história de uma cidade, no entanto, atualmente o Património embrenha-se por outras vertentes que o tornam mais abrangente. Não é meramente manter vivo o passado, ou sequer agarrarmo-nos à ideia do antigamente, é sim projetar uma identidade para o futuro, recolher memórias daquilo que fomos, para que gerações futuras conheçam de onde vêm. A necessidade de uma identidade própria advêm de um mundo global em que vivemos e de uma economia demasiado alicerçada no turismo, tendo a sua massificação alterado de vez a face dos Centros Históricos. O espaço urbano transforma-se fruto das necessidades contemporâneas e novas centralidades são criadas, mas, simultaneamente, não se pode pretender ter o velho casario apenas como cenário teatral, é necessário devolver-lhe vida, ou assistir impávidos à sua ruína.

Assim, o projeto “Lojas com História” surgiu em Lisboa, em fevereiro de 2015, dada a premente necessidade de salvaguardar esse símbolo urbano irrepetível e de o dinamizar face à concorrência e fatores de atração das grandes superfícies. Tratava-se de proteger todo esse importante tecido económico da especulação imobiliária e, ao mesmo tempo, divulgar o extenso património, com uma história igualmente única, de atividades artesanais que dificilmente ressurgem num panorama de marcas internacionais e de produtos descartáveis.

Uma estagnação em décadas recentes levou ao lento declínio de muitos, uns fruto de uma obsolescência da qual não souberam sair, outros porque a concorrência das tais marcas internacionais era demasiado forte para lhe poderem resistir, perdendo-se desta forma toda uma importantíssima herança e, principalmente, uma memória afetiva que intrinsecamente nos ligava a tais locais. A muitos surgirá de imediato a lembrança de um local, seja pelo que lá se vendia, seja pelos cheiros ou até pelo peculiar mobiliário.

Vivemos, repito, num planeta em profunda transformação, daí o programa anunciar no preâmbulo a necessidade de “preservar e salvaguardar os estabelecimentos e o seu património material, histórico e cultural” e por outro lado, “dinamizar e reativar a atividade comercial, essencial para a sua existência”, ou seja, não é somente manter artificialmente uma loja, é dar-lhe uma perspetiva de futuro assente no seu passado.

Um passo fundamental foi a Lei n.º 42/2017, de 14 de junho. Pegando naquilo que já era o trabalho de base feito em Lisboa, ficou consagrada, por exemplo, a proteção no arrendamento por um período transitório de dez anos, a isenção de IMI para os proprietários ou a dedução em sede de IRS de despesas com obras de conservação, acrescidas de 10% do valor gasto.

Por ser uma das entidades reconhecidas por esta lei como podendo iniciar o processo de classificação, desde há algum tempo que a Associação Defesa do Património vem a realizar um levantamento deste comércio de rua, ícone daquilo que outrora foi uma das grandes atividades económicas da urbe, marca da ruralidade do território, miscelânea de repositórios, onde tudo se vendia, onde para tudo havia um conselho amigo, sabedoria que se transmitia a cada cliente.

Muito já se perdeu, outro tanto corre o perigo de desaparecer, esse pouco que resta é crucial defender. Numa parceria com a OesteCim e a Câmara Municipal, foram selecionados três espaços que cumprem largamente os pressupostos contidos na lei, como linha de frente para futuras adesões, nomeadamente terem mais de 25 anos de existência, o significado para a história comercial da cidade, ou a salvaguarda e divulgação de acervo e espólio próprio.

Esta é uma corrida contra o tempo, assim estamos cientes, ao mesmo tempo esperançosos, pois se for cumprido o prometido apoio de modernização administrativa, ao nível de obras e uma boa divulgação, com roteiros somente ligados a este tipo de comércio, acreditamos que poderão ter futuro, quer relacionado com as novas gerações, quer com o dito turista, continuando com a venda de produtos únicos, de uso atual, marcas que cumprem as regras da produção local e da sustentabilidade, todo um novo paradigma que nos tem de nortear.

Será este, assim se espera, um primeiro passo que motive outros proprietários a aderirem. Brevemente também as Juntas de Freguesia, bem como outras Associações locais com um importante papel nas aldeias, serão igualmente chamadas a motivarem novas candidaturas, com a ressalva de – o que não funciona, dificilmente encontrar neste programa uma boia de salvação.

Pode-se consultar online a página: https://www.comerciocomhistoria.gov.pt/, com informações variadas, incluindo a legislação, faltando ainda a criação de um dos grandes pressupostos do programa, o Inventário Nacional Comércio com História, mais uma importante ferramenta na sua divulgação. Não abandonemos este Património relevante.

 

⁕ Presidente da Direcção

da Associação para a Defesa e Divulgação

do Património Cultural de Torres Vedras

 

 





 

 













 

AINDA O CASTELO - Página PATRIMÓNIOS | 17 Dezembro 2021

 


Em 3 de Dezembro de 2021, o Badaladas publicou uma página com um artigo de opinião, da autoria de João Pedro Canário, que contestava o teor dos artigos sobre o Castelo que a Associação do Património publicara nos dias 6 e 26 de Novembro de 2021:


...................

A nossa resposta foi publicada em 17 de Dezembro de 2021:


            AINDA O CASTELO

RESPOSTA A UM FAZEDOR DE OPINIÃO

 

Na edição do Badaladas de 3 de Dezembro p.p. entendeu o sr. João Pedro Canário Lucas (JPCL) – que a si mesmo se intitula opinion maker na sua página pública do facebook – opinar sobre o Castelo de Torres Vedras, em resposta aos dois textos por nós publicados sobre o mesmo tema, na página “Patrimónios”, em 5 e 26 de Novembro.

É seu direito cívico. Se o sabe usar bem, é o que veremos.

O jovem articulista parece não ter entendido a nossa intenção, expressa logo no início – em que dizíamos não pretender “contestar, antes contribuir para uma reflexão mais sustentada e informada acerca do mais visível monumento torriense” – e assumiu uma atitude de confrontação, acusando-nos de amordaçar o debate sobre o Castelo e termos como objectivo “silenciar opiniões diferentes e trancar a sete chaves este assunto para sempre”.  Reforça a acusação dizendo que “nos julgamos donos da verdade” e ocultamos “propositadamente” algo que ele anuncia, triunfalmente, como a solução irrefutável para a reconstrução do Castelo. Empolgado, culmina a acusação atribuindo-nos uma mentira – que ele vem desmascarar em nome da sua verdade.

Repudiamos a insolência com veemência enérgica – mas pedagógica paciência. Bem sabemos que os verdes anos sempre foram causa de intervenções impetuosas, marcadas pela luz ofuscante da ilusão. Faz parte do crescimento e, não raro, trazem para o todo social a generosidade de ideais que os mais velhos, por vezes, tendem a menosprezar. Tudo isso sabemos e bem gostaríamos de saudar o jovem João Pedro como alguém que percebeu que os dois artigos escritos por nós sobre o Castelo não eram um dogma, antes o pontapé de saída para o necessário debate que ele se abalançava a retomar. Mas não foi isso que fez. O teor do seu texto mostra que optou por mascarar a incompreensão do que leu com ataques despropositados. Releia o sr. JPCL o que escreveu e reconheça, com humildade que se excedeu, foi longe de mais. Tantas certezas opinativas só o descredibilizam e tornam inútil o que podia ser um contributo culturalmente válido.

Vejamos mais de perto.

O articulista, após dissertar sobre a notoriedade do monumento e a sua carga identitária para os torrienses – um ex- Libris que não brilha – e de lamentar o estado de ruína e abandono, por falta de visão, lança-se com denodado entusiamo à exortação da ideia da reconstrução do castelo, através de uma requalificação ambiciosa, que assim se constituiria como referência a nível nacional, polo de atracção capaz de abrir Torres Vedras ao mundo (sic). E, para que não se fique no abstrato, adianta que aquele sítio representa um palco único, para eventos, concertos e actividades culturais (feiras medievais, recriações históricas) devolvendo-o à cidade. Cita exemplos de outros castelos requalificados –  Leiria e Ourém – revelando completo desconhecimento dos respectivos historiais de conservação e reconstrução – e acenando com o recurso aos fundos europeus para este investimento estratégico. Na sua prosa torrencial proclama que é urgente dar voz aos torrienses, através de inquérito, concurso de ideias, onde o debate não pode continuar amordaçado!

A GRANDE CONFUSÃO

O ponto essencial da discórdia que parece motivar o empolgado texto de J.P. Canário Lucas, reside na nossa afirmação de que não existem dados suficientes para se proceder a uma reconstituição credível do nosso castelo. E baseia a sua crença na visualização de um vídeo produzido para a Câmara Municipal como parte da exposição didáctica que integra o Centro Interpretativo do Torreão do Castelo, inaugurado em 2013.

Esse vídeo – tecnicamente bem produzido por uma empresa torriense (Slingshot) – tem conteúdos cujos autores são pessoas bem nossas conhecidas: Carlos Cunha (infelizmente falecido recentemente) e Isabel de Luna – um e outro, associados da ADDPCTV –, com a participação do arq. Jorge Martins, autor dos desenhos. Esta equipa trabalhou vários anos na investigação da História do Castelo. Acompanhámos esse percurso, fomos dos primeiros a ver o documentário e a felicitar os autores sobre o seu estudo e a proposta do que terá sido a configuração do Paço dos Alcaides, construído no início do século XVI, pelo alcaide da vila. Estudo esse que se baseou no cruzamento de dados arqueológicos – as ruínas ainda visíveis no terreno – com alguma, escassa, informação escrita e com as características de outros edifícios coevos, obras de Francisco Arruda,  a saber: o castelo de Évora-Monte e o paço do castelo de Vila Viçosa (não confundir com o grande Paço Ducal dos Duques de Bragança). Trabalho complexo, que envolveu muita pesquisa documental, conhecimento das tendências da arquitectura militar da época e das pedras restantes do castelo. Isto porque o referido paço foi construído numa fase de transição estilística, na passagem do século XV para o XVI, conjugando as funções de residência nobre com as novidades da arquitectura militar oriundas da Itália renascentista.                                                   

Mas, não obstante a qualidade desta interpretação, bem sustentada do ponto de vista histórico, ela não deixa de ser uma proposta, dadas as dificuldades de leitura do conjunto arruinado, destinada a dar noção aproximada aos visitantes de como seria o Paço na sua origem,. 

Sublinhamos: aquele vídeo de dez minutos constitui uma leitura plausível das ruínas e dos escassos documentos existentes, baseando-se na metodologia historiográfica da articulação de "sinais indiciários". Não é um documento histórico. É uma hipótese de trabalho, uma proposta visual a partir desses sinais. Faz conjecturas, suposições. As quais, transpostas para o desenho, parecem atestar uma “verdade” – que ninguém sabe, insofismavelmente, qual seja. Não somos nós que o dizemos, é a realidade das coisas que o impõe. Muitos aspectos arquitectónicos permanecem por esclarecer. Tudo o que se refere à parte superior do edifício – a platibanda ameada, a localização de alguns vãos, a pendente dos telhados, as chaminés, etc.– é completamente desconhecido. E isto para não falar da própria estrutura do edifício quanto às suas funções de habitação, com instalação da respectiva criadagem, guarnição militar, etc. E há que ter em conta que aquilo que restou e se encontra visível corresponderá, grosso modo, a apenas cerca de uma quarta parte do edificado. O que quer dizer que teríamos que inventar, e inventar muito, caso houvesse a intenção de reconstruir. E será que valeria a pena? É uma questão para debates futuros. Cá estaremos para participar, como sempre.

CONCLUINDO

Sr. João Pedro Canário Lucas: mantemos que não existem elementos documentais anteriores ao terramoto que possam sustentar, nem de longe, uma reconstituição historicamente credível do Paço dos Alcaides.

 

 


A gravura que ilustra este texto, de meados do séc. XIX, – provavelmente uma das mais antigas que se conhecem –mostra como muitas outras, o castelo arruinado, quase como o vemos hoje. Não são conhecidas plantas nem alçados, nem gravuras, anteriores ao terramoto de 1755 e às Linhas de Torres.

Lamentamos a deserção para Espanha do último alcaide Alarcão, em 1640, deixando o castelo ao abandono. Como temos pena do incêndio no edifício da Câmara, no séc. XVIII, que destruiu parte significativa dos documentos históricos. Deploramos o grande terramoto, assim como as invasões napoleónicas. Lastimamos as lutas civis em meados do século XIX. Reprovamos, mas compreendemos, que alguns dos nossos antepassados tenham roubado pedras do castelo para construir as suas casas. Tudo isso contribuiu, cumulativamente, para a realidade actual do nosso Castelo. Mas, sabe? Faz parte da nossa História.

DEBATES PÚBLICOS?

Debates, “discussão (verdadeiramente) pública”, preconiza JPCL. Andamos há anos a pugnar por isso. Desde 1979 realizamos sessões públicas e exposições sobre o nosso Património, sempre públicas, anunciadas no Badaladas e nas redes sociais. Convidamos todos os anos os torrienses para o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios (Abril) e para as Jornadas Europeias do Património (Setembro), incitando-os a participarem em iniciativas organizadas por nós. Fizemos nosso o lema de que “a melhor forma de defender e preservar o Património é conhecê-lo melhor” – como é que alguém se atreve a insinuar que escondemos, amordaçamos, criamos tabus, queremos silenciar opiniões?

Bem gostaríamos de contar com João Pedro Canário Lucas para renovar esta porfia e rejuvenescer as linhas deste combate. Porém, pela amostra, temos dúvidas. Cabe-lhe provar que estamos errados.

 

José Pedro Sobreiro | Joaquim Moedas Duarte

(Membros da Direcção

da Associação para a Defesa e Duvulgação

do Património Cultural de Torres Vedras)

 



 

 


26 janeiro 2022

CASTELO DE TORRES | (2ª PARTE) | Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS, 26 Novembro 2021

 

CASTELO DE TORRES – RECONSTRUIR OU CONSERVAR?

(2ª parte)

José Pedro Sobreiro | Joaquim Moedas Duarte

 

Na primeira parte, publicada em 5 de Novembro corrente, fez-se uma brevíssima resenha da História do Castelo de Torres Vedras e a referência a um projecto de construção de uma Pousada. Nesta segunda parte, recordamos as mais recentes intervenções naquele espaço.

O Castelo sempre esteve no centro das preocupações da Associação do Património. A primeira acção de alerta, no ano da fundação, 1979, consistiu em solicitar a intervenção urgente da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais na reparação do troço do lado nascente da muralha, que tinha desabado no inverno desse ano, e foi prontamente reconstruída.

Por esta altura, e por iniciativa do Pe J Manuel da Silva, primeiro presidente da Associação, a Igreja de Santa Maria foi reaberta ao culto, numa tentativa de reanimação social do bairro do castelo.

Campanha arqueológica

A partir de 1984, implementámos uma campanha arqueológica no recinto da muralha sul, inicialmente por conta própria, mas com a supervisão e aconselhamento do Sr Leonel Trindade que indicou a área a investigar e que ia acompanhando os trabalhos, apesar da sua avançada idade. No ano seguinte os trabalhos prosseguiram, dirigidos pelo arqueólogo Clementino Amaro, sob tutela do Instituto Português do Património Cultural e continuaram até 1990, tendo a Associação do Património de Torres Vedras o encargo de toda a logística com a colaboração activa do sector de Cultura e Turismo da Câmara Municipal. Destaque para o papel crucial do Carlos Cunha – grande patrimonialista, um dos fundadores da nossa Associação, falecido em 2018.

Nesses trabalhos encontraram-se algumas estruturas de casas, e muitas sepulturas com os respectivos esqueletos, os quais foram enviados para o Instituto de Antropologia de Coimbra, para estudo.  Também foram encontradas mais algumas estelas discoides, medievais, que vieram a engrossar o já apreciável número de exemplares da colecção de cabeceiras de sepultura de Torres Vedras.

Castelo de Música

No seguimento dos trabalhos do Plano de Salvaguarda do Centro Histórico, a cargo do então criado Gabinete Técnico Local (GTL), a Câmara Municipal lançou em 1988 o Castelo de Música, evento que procurava dinamizar o espaço monumental como polo de atracção cultural através de espectáculos musicais de carácter popular. Foi construído um palco, em tijolo, no interior do recinto do paço – que considerámos uma intrusão desaconselhável, mas justificada pela intenção de dar vida àquele espaço.  Durante três ou quatro anos, no mês de Junho, realizaram-se festivais de música, de teatro e de dança, mas dificuldades de logística dos serviços e contrariedades climatéricas levaram à sua interrupção. A ingrata topografia do lugar – desníveis severos de terreno, estreiteza de acessos, falta de infraestruturas de apoio – dificultava em extremo os trabalhos de produção e afastava os espectadores, pouco dispostos a escalarem a colina do Castelo.

No ano inicial, foi realizada pelo GTL no interior do torreão, então restaurado, uma exposição com a colaboração da Associação em que se divulgava o Plano de Salvaguarda e, a nosso cargo, se apresentavam materiais das escavações e alguns tópicos sobre a história do castelo. Apesar de ser entendido como uma iniciativa louvável, no sentido de integrar o velho monumento na vida sociocultural da cidade, a realização do Castelo de Música alertou-nos também para a desadequação destas práticas para a preservação do monumento, com as inevitáveis agressões provocadas quer pela instalação de equipamentos e materiais não compatíveis, quer pela pressão de grande número de público sobre as estruturas frágeis do Paço.

Uma iniciativa positiva foi a instalação de iluminação monumental do Castelo, levada a cabo pela EDP, que veio sublinhar o valor referencial deste monumento nas noites de Torres Vedras. A Associação do Património interveio nesta acção, com a sugestão dos pontos fortes a iluminar.

Nos anos 90, todo o recinto foi objecto de diversos projectos de melhoramento. Alguns ignoravam as reais condições de acesso que as tornaram impraticáveis, outros concretizaram-se, contribuindo para melhor fruição daquele lugar de memória: placas informativas, protecções junto às escadinhas do torreão e em redor das cisternas romanas, espaços mais cuidados e limpos.

 



Cisternas com protecção e painel informativo
 

Simultaneamente, o programa ISA – Património, criado pela Câmara Municipal há 16 anos, passou a permitir que a Igreja de Santa Maria do Castelo esteja aberta ao público todos os dias, de manhã e de tarde, excepto à Segunda-feira. Note-se, ainda, que desde há uns anos, celebram-se, nesta igreja, cerimónias do rito católico ortodoxo, muito frequentadas por imigrantes do Leste europeu, abertas a quem desejar participar.

Muita gente desconhece que o Castelo de Torres Vedras é o monumento mais visitado na cidade. A criação, em 2013, do Centro Interpretativo no torreão, disponibilizou um oportuno espaço de acolhimento e informação, com espólio arqueológico e um pequeno filme que elucidam os visitantes sobre o lugar onde estão. Pode dizer-se que o Castelo de Torres Vedras tem hoje condições de visita como nunca conheceu antes.

Alertas

 Apesar do que foi dito, o Castelo precisa de atenção constante. Trata-se de uma ruína, frágil por natureza, pois as pedras e as argamassas vão-se desgastando com o tempo. Uma ruína que nos é cara pois que sintetiza como nenhum outro monumento a própria história da cidade. Por isso há que conservá-lo como elemento essencial da nossa identidade.

A Associação do Património tem manifestado com frequência a sua preocupação relativamente a alguns sinais de degradação do monumento, de que o memorando apresentado à Câmara Municipal em Junho de 2018 é um exemplo. Talvez tenhamos contribuído, de algum modo, para a constituição de uma equipa municipal de monitorização que tem visitado aquele monumento com o intuito de proceder às intervenções necessárias. Nesta linha, aplaudimos a constituição do grupo de trabalho Horizonte 26, criado no âmbito da Rede Cultura que abrange 26 municípios parceiros da candidatura de Leiria a Capital Europeia de Cultura. A sua actuação será orientada pelos conceitos de identidade, cuidar e horizonte e o objectivo principal é olhar pelo património edificado ligado à defesa dos territórios e à sinalização da costa marítima. O nosso Castelo deve constar da lista, necessariamente. Ele precisa de cuidados urgentes, como podemos observar na porta do Paço dos Alcaides e na do torreão. A falta de blocos de pedra ou a deterioração das existentes põe em risco toda a estrutura. Extensas faltas de argamassas levam à fragilização dos muros devido às infiltrações da água das chuvas e à queda frequente de blocos.

O Castelo de Torres Vedras é a imagem histórica que tantas gerações se habituaram a olhar – a velha igreja de duas torres encostada às ruínas do palácio e ao torreão manuelino – poderoso ícone simbólico da identidade torriense. Há que preservá-lo como ele está, sem acrescentos nem atavios despropositados, cuidando da sua saúde para que, tal como nós, as gerações futuras o continuem a admirar e a venerar.

 

Porta do Paço dos Alcaides: falta de blocos ameaça toda a estrutura

 





Porta do terraço do torreão: bem visível a erosão da pedra

(Fotos J. Moedas Duarte)


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31 dezembro 2021

CASTELO DE TORRES – (1ª parte) Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS, 5 Novembro 2021

 

CASTELO DE TORRES – RECONSTRUIR OU CONSERVAR? (1ª parte)

José Pedro Sobreiro | Joaquim Moedas Duarte



Na campanha para as recentes eleições autárquicas, o tema do “Castelo de Torres Vedras” foi abordado por algumas forças políticas. A ideia essencial era de que aquelas ruínas estavam abandonadas e esquecidas, havia que recuperá-las e procurar ideias criativas para o seu uso.

Não há nada de reprovável nisto, antes pelo contrário, revela preocupação com o nosso Património construído e o desejo de o ver valorizado – ideias que compartilhamos.

A abordagem que aqui fazemos não pretende contestar, antes contribuir para uma reflexão mais sustentada e informada acerca do mais visível monumento torriense, aquela silhueta única que todos os dias atrai o nosso olhar, quando caminhamos nas ruas da velha urbe. Santa Maria do Castelo, o torreão e as paredes do palácio dos alcaides – que impropriamente chamamos de “castelo” – são a marca de muitos séculos e das gerações que nos precederam.

 

 



LONGA HISTÓRIA

Na região de Torres Vedras, durante a Pré-História, fixaram-se numerosos núcleos de população agro-pastoril, que viviam em castros, pequenos povoados no cimo dos montes. A  colina onde hoje assenta o nosso Castelo terá sido ocupada por um desses castros. A orografia do lugar permite defesa eficaz e garante abastecimento de água, que lhe corre no sopé. Posteriormente, todos os povos que o correr da História trouxe à Península Ibérica ocuparam aquele monte, tanto mais que a sua encosta sul, de pendente mais suave e voltada ao sol, convidava à fixação humana. Com a ocupação romana no século II a.C., os povos primitivos foram subjugados. Seis séculos depois, seria a ocupação romana a extinguir-se, com a chegada dos Suevos e Visigodos, também estes substituídos pela ocupação árabe a partir do início do séc. VIII. A colina fortificada viria a cair na posse dos reconquistadores cristãos no tempo de D. Afonso Henriques, já em pleno século XII e, com este, a integrar o novo reino de Portugal. Os primeiros reis sediavam-se na alcáçova, quando por aqui passavam, substituindo-a, nos finais do séc. XIII, por um Paço mais abaixo, já fora da cerca castelar.

No tempo de D. Manuel I, reconstruiu-se a muralha da cerca defensiva do morro e erigiu-se a nova fortaleza que se tornou a residência dos Soares Alarcão, família que deteve a alcaidaria da vila por várias gerações, abandonando o Paço do Patim, onde anteriormente residia. Para além da defesa militar, a fortaleza passou a ter função residencial, daí chamar-se Paço dos Alcaides à parte superior do castelo. Tratava-se então de uma residência senhorial, construída sobre as paredes de uma anterior construção – um castelejo medieval, com a sua torre de menagem, do qual nada se sabe. O novo edifício foi adaptado às funções residenciais da nobreza, que na época procurava já um certo tipo de conforto e uma afirmação de poder pela ostentação. Daí os grandes janelões com conversadeiras que, vistos cá de baixo, parecem ameias. Sabemos, por um documento do séc. XVII, que o Paço tinha imponência, mas, infelizmente, não chegou até nós nenhuma imagem. O que dele resta – as quatro paredes e, sobretudo, o grande torreão com uma silhueta única que não se parece com mais nenhuma do país – marca a transição do castelo do tipo medieval para uma fortaleza renascentista, caracterizada por novas formas de lidar com a prática da pirobalística. Em Portugal conhecem-se apenas os casos do castelo de Évora Monte e Vila Viçosa, atribuídos a Francisco de Arruda que projectou, antes destes, o Paço do castelo de Torres Vedras, no início do séc. XVI.

Foi esta construção que o terramoto de 1755 arruinou e que nunca mais foi reconstruída. Em 1810, o castelo foi utilizado como base de canhoneiras, durante as invasões francesas, o que exigiu grandes alterações na estrutura das muralhas – na parte norte foram retiradas as ameias – para o adaptar ao tipo de artilharia pesada praticada no séc XIX. Em 1846, num episódio de guerra civil, foi lugar de acampamento militar com duas bocas de artilharia. Posteriormente, aquele morro perdeu relevância militar e centralidade cívica. A decadência e o abandono acentuaram-se. Muitas das suas pedras foram retiradas pela população para construção das casas próximas – o que levou a Câmara Municipal, por várias vezes, a publicar editais a proibir tal prática.

Durante a primeira metade do séc. XX o castelo sofreu algumas intervenções, como a abertura de um fosso ligado a uma das cisternas, para abastecimento de água à vila, de que a abertura rasgada a meio da vertente leste do morro que sustenta o paço é testemunho. Mais tarde, também se procedeu ao preenchimento de grandes vazios em partes da parede do paço, a norte e a leste. Esta última apresentava uma abertura larga que permitia ver os jogos do Torriense ao domingo. De resto, o castelo servia de palco às brincadeiras dos catraios e aos acampamentos da Mocidade Portuguesa, no 28 de Maio.

Por alturas de meados do mesmo século e sob o ímpeto comemorativo dos centenários, o então presidente da Câmara, Rogério de Figueiroa Rego, decidiu, sem qualquer base histórica, mandar reconstruir as ameias do torreão, e lá colocar um enorme brasão de Torres, com lâmpadas eléctricas, que ali permaneceu durante muitos anos. É ainda desta época a plantação de arvoredo na encosta norte do morro, com a finalidade de segurar as terras e embelezar o monumento – acabando esta última intenção por ter efeito contrário, pois ocultou-o da nossa vista.

 

UMA POUSADA NO CASTELO?

Nos primeiros tempos da Associação do Património, – início dos anos 80 – era frequente alguém perguntar porque é que ela não elegia a reconstrução do Paço do castelo como uma das suas prioridades. A resposta tinha de ser, invariavelmente, que não se sabia como ele era na sua origem. Todos gostaríamos de ter um Castelo inteiro e bem conservado na nossa terra, mas a dedicação à causa do património tem, como premissa básica, o respeito pela verdade histórica e a rejeição de fantasias.

Cabe aqui lembrar o episódio da “pousada “nos anos 80 do século passado. O vereador da cultura e turismo de então, António Carneiro, um dos fundadores desta Associação, propôs-se eleger como um dos objectivos da sua acção a construção de uma pousada no Castelo de Torres Vedras, ideia que logo granjeou entusiasmo junto de alguns torrienses. A Direcção da Associação  decidiu alertar o vereador para as dificuldades que se apresentavam: não se sabia como era o Paço e sendo assim, não seria razoável tal desiderato, a menos que se desrespeitasse a preocupação com o rigor, atitude necessária a estes empreendimentos.

Sabendo ouvir quem considerava ser conhecedor da História e das práticas responsáveis nesta matéria, António Carneiro solicitou à Direcção que agendasse um encontro com um responsável da Direção Geral de Turismo (DGT), que apoiava a ideia da pousada, a fim de lhe explicar as  objecções. Essa reunião ocorreu em Lisboa e nela participaram José Pedro Sobreiro e Carlos Cunha, a quem foram mostrados alguns estudos do respectivo anteprojeto (pois já estava nessa fase). Os desenhos apresentavam elementos medievalistas típicos – arcos ogivais, abóbadas de nervuras, etc. – sem qualquer ligação com os elementos construtivos visíveis no terreno. Não tinha sido feita a mínima pesquisa histórica e o que viram era um autêntico delírio de fantasia. Foi essa opinião que defenderam, com conhecimento de causa e argumentos ponderáveis. Decorrido algum tempo, veio a saber-se que a DGT tinha desistido do projecto da pousada. Para além da falta de sustentabilidade documental e histórica, terão contribuído para tal decisão factores físicos evidentes: a inexistência de uma segunda porta, vias estreitas e íngremes, e reduzido espaço exterior para estacionamento de veículos de acesso e de abastecimento. Uma unidade hoteleira, ou qualquer edifício de serviços, exigiria amplos espaços envolventes, além dos custos incomportáveis de infra-estruturas, de águas, saneamento e equipamentos imprescindíveis ao seu funcionamento. Os anos passaram. A consciência de que as condições turísticas actuais, em que a Pousada não é um equipamento de turismo de massas, antes pelo contrário, levou ao abandono da ideia que parecia ter viabilidade há trinta anos atrás.

Hoje, é plausível duvidar-se que a comunidade torriense aceite de bom grado a destruição da imagem histórica que tantas gerações se habituaram a olhar – a velha igreja de duas torres encostada às ruínas do palácio e ao torreão manuelino – venerável ícone simbólico da identidade torriense.

(2ª Parte a publicar em 26 de Novembro de 2021)




25 setembro 2021

MURALHA DE TORRES VEDRAS

 

MURALHA DE TORRES VEDRAS

Como salvaguardar os seus vestígios?

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Joaquim Moedas Duarte

 


O BADALADAS  de 10 de Setembro deste ano, publicou a seguinte nota: «Uma atenta e sensível leitora ligou-nos para que pedíssemos à Câmara, ao Museu ou à Associação do Património para olharem com outros olhos e cuidarem do que resta de uma das antigas muralhas da vetusta Turres Veteras, a qual está hoje numa montra de vidro sujo e com ervas daninhas quase da sua altura. O pedido está formulado!»

Respondemos a este pedido com todo o gosto. É que nós, Associação do Património, há muito que estamos preocupados com esta questão. Sucintamente, recordemos alguns factos.

No início de 1997, aquando da iminente demolição do stand de automóveis do Sr. Adelino Sousa, situado frente ao Chafariz dos Canos, a Associação do Património solicitou “à Câmara Municipal, com a maior urgência, a realização de uma curta intervenção de pesquisa arqueológica, em articulação com o Museu Municipal Leonel Trindade, no sentido de averiguar eventuais vestígios da antiga muralha da vila que, segundo documentação antiga, por ali passaria e da qual não se conheciam, à data, quaisquer testemunhos”. Esta iniciativa foi reforçada por um artigo no Badaladas, em 18 de Abril daquele ano, da autoria de Manuel Clemente - actual Patriarca de Lisboa e sócio, desde sempre, da Associação – no qual se faziam sugestões e recomendações pertinentes sobre a “necessidade de conservar e valorizar este importante e excepcional património”.

Dada a proximidade de um monumento nacional – o Chafariz dos Canos – os trâmites legais de autorização e definição de condicionantes para a realização da obra demorou algum tempo, mas acabou por iniciar-se, com a intervenção simultânea de uma equipa de arqueólogos e técnicos do Museu Municipal, que procederam às sondagens, investigação local e recolha de informações. Os trabalhos arqueológicos foram concluídos em Junho de 2001 e, das várias conclusões e informações a que chegaram, destacamos a confirmação da “existência da muralha tardo-medieval – sobre cuja efectiva construção existiam ainda muitas dúvidas – e da sua porta situada na antiga Rua da Corredoura, atestada pela confluência da estrutura com a rua. A porta situar-se-ia a meio da rua e dela já dificilmente restarão quaisquer vestígios”. O relatório dos trabalhos arqueológicos sublinhava que “a partir do momento em que se verificou a imponência e monumentalidade da estrutura descoberta e se percebeu o seu valor histórico, a direcção científica dos trabalhos chamou ao processo a Divisão de Gestão Urbanística da Câmara Municipal de Torres Vedras e o então IPPAR, a fim de se estudar a possibilidade de integrar a estrutura na nova construção, quer salvaguardando-a integralmente, quer mantendo a sua memória no futuro imóvel, de forma adequada”.

Em reuniões posteriores, entre os promotores da obra, a Câmara Municipal e representantes do IPPAR (Instituto Português do Património Arquitectónico), ficou decidido salvaguardar o troço da muralha medieval que fora descoberto.

O processo parecia bem encaminhado, mas o facto de a loja com os vestígios da muralha ser propriedade privada e o proprietário exigir, naturalmente, ser ressarcido, mas apresentando valores incomportáveis, levou a um impasse sobre a necessária intervenção valorizadora daquele património histórico. E os anos foram passando. Inconformada com a situação, a Associação do Património de Torres Vedras contactou a Junta de Freguesia de S. Pedro e Santiago, bem como os serviços camarários e, em 20 de Julho de 2011, apresentou um Memorando no qual se disponibilizava para colaborar numa solução que dignificasse aquele espaço. Tal iniciativa ia ao encontro das preocupações da Junta de Freguesia que, correndo o risco de abuso indevido – como chegou a ser acusada pelo proprietário – procedia regularmente à limpeza daquele espaço. Esse Memorando foi também publicado no blogue desta Associação (ver:

 https://patrimoniodetorresvedras.blogspot.com/2011/07/o-que-resta-da-velha-muralha.html )

 

IDEIAS PARA UM CENTRO INTERPRETATIVO DA CORREDOURA (CIC)

 

(Primeiro esboço, desenho de José Pedro Sobreiro)


(Segundo esboço, desenho de José Pedro Sobreiro)

Resumidamente, a proposta que apresentámos e que continuamos a defender, tem como objectivo a valorização do único vestígio da muralha medieval da Vila de Torres Vedras, posto a descoberto em 2001, que se encontra situado na cave de um edifício em frente do Chafariz dos Canos. Este pequeno troço de muralha situa-se nas imediações do que seria a chamada Porta da Corredoura, Sendo difícil conciliar a sua presença e visibilidade com outras funções, designadamente comerciais, a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras (ADDPCTV) propõe a criação naquele espaço de um pequeno centro interpretativo da Muralha Medieval assim como do Chafariz dos Canos, existente naquele largo, recentemente restaurado. Criar-se- á, assim, um motivo de interesse pedagógico para a história da cidade que valorizará também o monumento mais singular de Torres Vedras.

A proposta, ainda em esboço, assenta na ideia da construção de uma plataforma parcial ao nível do piso térreo, em L, que permita o acesso público (condicionado) a um espaço expositivo onde através de painéis infográficos, fotografias e maquete tridimensional, se dê a conhecer a história e as características do monumento e da muralha/vila medieval. Sobre a abertura ao público, a ideia é, pelo menos da nossa parte, que esta seja condicionada a visitas previamente solicitadas (escolas, grupos, visitantes especiais,etc), assumindo esta associação o compromisso de assegurar o seu acompanhamento.

Considera-se que a sua abertura diária não se justificará, pelos encargos decorrentes. Mesmo assim, cremos que a proposta terá um efeito positivo em termos de informação pois que todo o dispositivo ficará visível do exterior (tal com agora, de resto)

A ADDPCTV disponibiliza-se para assegurar os conteúdos históricos do Centro Interpretativo, bem como para ministrar Formação e dar apoio ao seu funcionamento.

Do documento, então apresentado, fazia parte um esboço de intervenção, ao qual se juntaria outro, algum tempo depois, ambos da autoria de José Pedro Sobreiro.

 

 

(A Porta da Corredoura, hipótese interpretativa em desenho de José Pedro Sobreiro)


(O que resta da muralha – foto de 2011)

 

UM DOCUMENTO NOTÁVEL

         No texto principal desta página PATRIMÓNIOS transcrevemos algumas frases que retirámos do relatório intitulado “Porta da Corredoura, Torres Vedras: Resultados dos Trabalhos Arqueológicos”, da autoria de Isabel Luna e Guilherme Cardoso, consultado em 21/09/2021 aqui: https://historiasdetorresvedras.wordpress.com/2012/09/27/porta-da-corredoura/

Trata-se de um documento notável. Ali estão bem patentes as fases de uma campanha arqueológica, a metodologia seguida, a contextualização histórica, a enumeração exaustiva dos elementos recolhidos com as correspondentes imagens, bem como as conclusões e recomendações para aplicação futura.

Dos mesmos autores está também disponível outro texto que completa as informações do primeiro sobre a vila medieval, que consultámos na mesma data:

“A urbe de Torres Vedras e a sua cerca medieva” in: Fortificações e Território na Península Ibérica e no Magreb (Séculos VI a XVI) - Volume I, Coord. - Isabel Cristina Ferreira Fernandes, Edições Colibri/Campo Arqueológico de Mértola. Disponível in:

https://www.academia.edu/9229797/LUNA_Isabel_e_CARDOSO_Guilherme_A_urbe_de_Torres_Vedras_e_a_sua_cerca_medieva



UM MUSEU DE COMUNIDADE - Memórias do Ti’Alex

 

UM MUSEU DE COMUNIDADE 

Memórias do Ti’Alex na Associação  Recreativa e Cultural da Praia

da Assenta

Joaquim Moedas Duarte

 (Publicado na página PATRIMÓNIOS, semanário BADALADAS, Torres Vedras, 27 Agosto 2021)

Tenho nas mãos o Diploma que atesta que Alexandre Afonso completou, em 5h. 41m. e 18s, a 1ª Maratona de Torres Vedras, no dia 12 de Outubro de 1980. Espanto-me com a marca: é mais do dobro que um atleta mediano demora a percorrer os 42,195 km da Maratona. A explicação está numa nota manuscrita, no reverso do Diploma: «O atleta mais idoso que percorreu a Maratona no nosso país. Alexandre Afonso um jovem recordista português aos 68 anos. Mais do que um Diploma, o presente certificado é um hino de louvor à eterna juventude de espírito». Assina, pela Organização, António Fortunato – torriense que é hoje, quarenta e um anos depois, o atleta veterano mais medalhado de Portugal.  


Ti’ Alex em plena corrida, anos 80 (Espólio do Ti’Alex)


Este Diploma é um dos muitos documentos que fazem parte do espólio doado por Alexandre Afonso – que todos conheciam por Ti‘Alex – à Associação Recreativa e Cultural da Praia da Assenta, povoação da freguesia de S. Pedro da Cadeira. Acto de doação que foi uma forma de reconhecimento pela comunidade que o acolheu no crepúsculo da sua vida e onde, pela primeira vez, já com 65 anos, participou numa corrida de atletismo entre Cambelas e Assenta. Do espólio fazem parte vários dossiês que Ti’Alex foi organizando ao longo da vida para guardar os programas das provas, as fotos e os recortes de jornais que lhe faziam referência. E também dezenas de medalhas, troféus, placas distintivas, recordações. Imagens do legítimo orgulho de um homem que pintou a vida com as cores da alegria e da convivialidade, até ao dia 21 de Junho de 1989, quando a morte o levou à derradeira meta.

Durante algumas horas compulsei este espólio magnífico, levado pela curiosidade e pelo fascínio. É que eu ainda me lembrava de ter visto o Ti’Alex numa das Maratonas de Torres Vedras, meados dos anos 80, no seu passo cadenciado, ar prazenteiro, já muito atrasado – era quase sempre o último a chegar –feliz por competir e nunca desistir, de tal modo que os organizadores das provas não permitiam que se fechassem as classificações finais sem que ele chegasse. “Ninguém se vai embora, falta chegar o Ti’Alex!”. E ele chegava, num cansaço controlado que lhe permitia ainda fazer o seu número final: puxava de uma pequena “gaita de beiços” que trazia no bolso e tocava duas ou três modinhas populares, por entre risos e festejos de quem se encantava com este campeão da vida.

Os dossiês que referi acima não dizem respeito apenas ao atletismo – até porque este chegou tardiamente à vida de Alexandre Afonso – eles documentam a outra faceta notabilíssima deste homem, a de músico. E a culpa foi do pai que lhe ofereceu, como prémio do exame da 4ª classe, uma pequena harmónica bocal que o rapazito logo aprendeu a tocar com grande perícia.

 

A ORQUESTRA ALDRABÓFONA

Em meados dos anos 30, em Lisboa, cerca de vinte rapazes divertidos, um tanto extravagantes e executantes musicais de instrumentos diversos, constituiu-se como agrupamento musical com o nome de Orquestra Aldrabófona. Iam para o palco e durante hora e meia, divertiam-se e divertiam o público com peças musicais, piadas, anedotas, gagues e o mais que a inventiva criava em cada momento. Durante esses anos e até meados dos anos 40 tiveram sucessos estrondosos, actuando em Lisboa e por todo o país. Não aceitavam honorários, divertiam-se e contribuíam, não raro, para festas de beneficência.

Alexandre Afonso fez parte deste grupo, com a sua harmónica bocal. Destacava-se pelo virtuosismo da execução e pela boa disposição permanente. Mais tarde, quando a orquestra se dissolveu, associou-se com outro aldrabófono – Fernando Pires dos Santos –, também “gaitista” de mérito, e constituíram o grupo Manos Alexandres. A fraternidade não era de sangue mas de cumplicidade no gosto pela música. Durante vinte e cinco anos actuaram em centenas de espectáculos, desde os mais singelos nas colectividades lisboetas até aos Serões para Trabalhadores, da Emissora Nacional. E não ficaram por aqui: lançaram-se numa carreira internacional e chegaram a ganhar um Campeonato do Mundo de Harmónicas Bocais, na Suiça. O grupo terminou em apoteose numa Festa de Homenagem no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, corria o ano de 1960.

 Orquestra Aldrabófona (in: https://radio.hypotheses.org)


MUSEUS DE COMUNIDADE


 De tudo o que atrás se escreveu dá conta o espólio do Ti’ Alex, à guarda da Associação  Recreativa e Cultural da Praia da Assenta. Dona Maria dos Anjos Ruivo foi quem nos guiou na visita, zeladora daquelas memórias mas receosa dos novos tempos que afastam a juventude destas preocupações patrimoniais. Que será deste manancial quando ela já não puder visitá-lo? Quando os admiradores do Ti’Alex se despedirem da vida e já ninguém sentir o apelo da preservação da memória?

Também a nós, Associação do Património, chega esta preocupação, que não se restringe ao que se passa na Assenta mas em outros locais do nosso concelho, onde o amor pela salvaguarda de testemunhos do passado levou à criação de pequenos “museus de comunidade”. Eles subsistem enquanto os seus criadores estão vivos mas correm risco de se perderem quando desaparecerem aqueles.

Não é fenómeno exclusivo de Torres Vedras. Por todo o país, desde há muitos anos, têm surgido estes pequenos museus que funcionam como lugares de memória onde as populações locais se revêm e encontram laços de identificação comunitária. Não por acaso a Universidade de Aveiro publicou em 2019 um livro intitulado “Museus de Comunidade: Manual de Apoio à Gestão”, de Luís Mota Figueira e Dina Ramos, dois investigadores que têm estudado este assunto. É uma reflexão teórica e um manancial de indicações práticas que procura responder às preocupações dos guardadores de memórias.

Sendo certo que nas sedes de muitos concelhos já existem Museus Municipais – como o nosso Museu Leonel Trindade – parece-me que o seu papel não se deve limitar às existências próprias mas pode alargar-se a outras expressões museológicas do espaço concelhio, integrando os museus de comunidade num projecto de rede museológica que contribua para o enriquecimento cultural das comunidades locais e garanta a preservação dos espólios existentes.

 


Manos Alexandres num espectáculo em 1942 (Espólio do Ti’Alex)