28 maio 2021

O CASO DE RUNA: DESRESPEITO PELA PAISAGEM E PELO SÍTIO?

 Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS de 26 de Março de 2021



O CASO DE RUNA: DESRESPEITO PELA PAISAGEM E PELO SÍTIO?

 

Em Runa (Torres Vedras) a população reagiu vigorosamente contra o projecto de construção de uma subestação eléctrica praticamente dentro do aglomerado urbano. Havia alternativas quanto à localização, mas parece que a opção teve em conta apenas critérios económicos, pois é mais barato construir num lugar onde já existem acessos viários.

A Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras foi a Runa e falou com cidadãos que não se conformam. Fizemos algumas perguntas:

- toda a população foi auscultada e informada em tempo oportuno?

- a ocupação de terrenos de elevada aptidão agrícola é economicamente sustentável?

- a comprovada existência de vestígios arqueológicos, que atestam ocupação humana do Calcolítico e do tempo dos Romanos, foi tida em conta?

A resposta a estas questões foi: NÃO! 

Que tem uma Associação do Património a ver com o problema? Tem e muito. O conceito de Património ultrapassou há muito a limitação inicial que o ligava aos monumentos edificados e abarca hoje uma multiplicidade de perspectivas que ninguém contesta. Uma delas é a ideia de que as paisagens são Património que deve ser defendido e preservado; e as características específicas de cada território devem ser abordadas como elementos essenciais para a identidade e sentido de pertença das populações. Isso mesmo o reconheceu a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, que, na sua Conferência Geral realizada em Paris de 9 de Novembro a 12 de Dezembro de 1962 aprovou uma Recomendação Sobre a Salvaguarda da Beleza e do Carácter das Paisagens e dos Sítios. Neste documento, a Conferência Geral recomenda aos Estados membros, de que Portugal faz parte, «que apliquem as presentes disposições, adoptando (…) medidas com vista a fazer cumprir, nos territórios sob a sua jurisdição, as normas e princípios formulados na presente recomendação». Este importante documento – que faz parte dos modernos fundamentos da planificação e ordenamento do território – contém diversas especificações que é oportuno relembrar aqui. No Cap. II – Princípios Gerais, diz expressamente:

«As medidas preventivas para a protecção das paisagens e dos sítios deverão procurar protege-los contra os perigos que os ameaçam. Estas medidas deverão incluir, especialmente, a fiscalização dos trabalhos e das actividades susceptíveis de ameaçarem as paisagens e os sítios, nomeadamente:

(…)

c) Os cabos eléctricos de alta ou baixa tensão, as instalações de produção e transporte de energia, os aeródromos, (…), etc.». (sublinhado nosso)

O texto não podia ser mais claro. Vai direitinho ao que que se projecta para Runa: uma instalação eléctrica de alta potência com equipamentos destinados à transmissão e distribuição de energia eléctrica, além de instalações de proteção e controle, com postes de grande dimensão e densidade de cabos eléctricos que passarão a fazer parte da paisagem local, à beira da rua que liga Runa ao Penedo.




UM ATENTADO À PAISAGEM  E AO SÍTIO?

Resta saber, portanto, se aquela paisagem e aquele sítio onde vai ser construída a subestação, têm características que os recomendem como lugares a salvaguardar.

Não temos dúvidas em afirmar que sim. A quem as tenha, recomendamos uma visita vagarosa e atenta ao local. Adiantando tal visita, traçamos desde já o esboço do que um olhar atento descobrirá.

Primeira surpresa: a subestação vai ser construída sobre terrenos de elevadíssima aptidão agrícola, o característico terreno de aluvião adjacente à margem de um curso fluvial – aqui, é um trecho do rio Sizandro. Um homem já idoso, que nos acompanhava, dizia com desalento: “constroem nestes terrenos tão ricos e qualquer dia comemos betão…”. A Leste, a pouco mais de cem metros, desembocamos num lugar paradisíaco, ao som do canto das aves, na faina da nidificação, e das águas do rio sobre o muro do açude onde, poucos anos há, laborava uma azenha. Era ali que os gaiatos vinham nadar no Verão, saltando da velha ponte, de perfil medieval, que liga as duas margens. A Quinta da Granja, conhecida exploração agrícola, é mesmo ali ao lado. Mais adiante, as ruínas da Quinta da Casa Boa.

Caminhemos agora para Norte. Um pouco adiante chegamos ao Penedo. Do lado esquerdo, as ruínas da Quinta das Pederneiras, na base do formoso monte onde, há cerca de 4 500 anos, viveu uma comunidade da Idade do Cobre, abundantemente documentada pelas prospecções arqueológicas de Aurélio Ricardo Belo, Leonel Trindade e Konrad Spindler que desenterraram  centenas de peças, hoje guardadas no Museu Municipal de Torres Vedras. Outras pesquisas locais de Ricardo Belo trouxeram à luz do dia um espólio arqueológico do início da nossa era que nos permite inferir que a povoação do Penedo assenta sobre uma villa rustica ou mesmo um pequeno povoado Romano, tanto mais que por aqui passavam importantes vias romanas. Uma hipótese plausível é a existência de vestígios dessas vias no próprio local onde se projecta a subestação eléctrica.

Parando no sopé do monte do Penedo, olhando para poente, descortinamos outra várzea riquíssima que vai até ao antigo Lar de Veteranos Militares, mandado construir pela princesa Dona Francisca Benedita, filha do rei D. José. Lá está o grande edifício dos séculos XVIII/XIX, bem visível ao longe, na antiga Quinta de Alcobaça. Sobranceira a ele, ergue-se a colina onde alvejam as velas do moinho do Duque e, a meia encosta, os muros do pequeno cemitério em que repousam antigos combatentes da primeira Guerra Mundial.

Se alongarmos a vista pela linha do horizonte, vamos descortinando as elevações do Barrigudo e da Portucheira, por entre as quais passam a estrada, o rio e o caminho de ferro, a caminho da cidade de Torres Vedras. Ali perto existem dois antigos fornos de cal, exemplares magníficos de património industrial. Mais para Sudoeste, o alto do Figueiredo e, na sequência, as colinas que bordejam a estrada para a Caixaria, Ribaldeira e Dois Portos, mais a Sul.

Milénios de História humana contemplam o visitante!

Pode contestar-se que esta visão panorâmica excede em muito o local onde se projecta a construção da subestação. É verdade, mas o que pretendemos mostrar é que um sítio nunca se limita ao espaço físico mas implica envolvência, extensão contextualizadora. Amplidão de olhar que pode ser irremediavelmente comprometida com um detalhe dissonante.

A este propósito, um habitante local, conhecedor desta História, dizia-nos: “Para as povoações de Runa e Penedo, a História e a envolvente paisagística são o melhor activo para o futuro. Foi feito o Parque de lazer, pensamos num Parque de autocaravanas, projectamos um roteiro pedestre que ligue os diversos pontos de interesse… Há pessoas de fora que procuram casas para recuperar e aqui viverem, fartos da fealdade suburbana de Lisboa. Não vão querer viver à beira de uma subestação eléctrica. Temos de defender o potencial histórico e paisagístico que é uma esperança para os nossos filhos.”

Paulo Carvalho, investigador dos fenómenos de transformação e sustentabilidade do mundo rural confirma:

«A definição e promoção de uma imagem territorial de individualidade e especificidade, alicerçada em características únicas e exclusivas, e de qualidade, em muito centrada nas identidades e recursos simbólicos de cada lugar, (…) é um caminho de revalorização dos territórios onde se redescobrem novas centralidades com base na qualidade, e afinal a afirmação das teses territorialistas de desenvolvimento, as que melhor respondem às maiores exigências sociais e de cidadania participativa».(in: “O Ecomuseu da Serra da Lousã: desafio ou utopia?”. 1º Congresso de Estudos Rurais, Vila Real, 2001)

 

A MELHOR DECISÃO?

A decisão de ali construir a subestação eléctrica foi da empresa Infraestruturas de Portugal. Houve um período de consulta pública mas, como é costume, para além do edital costumeiro, não se fez publicidade sobre o mesmo. Fez-se uma sessão restrita nos Paços do Concelho, mas não se organizaram sessões de esclarecimento e de auscultação pública com participação alargada. O período de consulta pública caducou e a população foi posta perante uma decisão que a afronta e lhe desagrada profundamente.

No processo de decisão foi ouvida a Agência Portuguesa do Ambiente que levantou sérias questões sobre a pertinência daquela localização, mas foi ignorada, o seu parecer não era vinculativo – como nada é, quando as decisões são tomadas nos gabinetes e as consultas públicas não passam de pró-formas para iludir a democracia...

Acabámos o passeio por estes lugares, exemplares magníficos do que a UNESCO considera necessário salvaguardar. É aqui, meus senhores, às portas das antiquíssimas povoações de Runa e do Penedo, que se situam as paisagens e os sítios que uma prosaica subestação eléctrica pode macular de modo irreversível.

A Direcção

da Associação para a Defesa e Divulgação

do Património Cultural de Torres Vedras.

 

 

 

 

 

 

 


25 fevereiro 2021

CARNAVAL DE TORRES VEDRAS A PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DA HUMANIDADE?

 

Página «PATRIMÓNIOS» no jornal "BADALADAS" | 26 FEVEREIRO 2021


CARNAVAL DE TORRES VEDRAS A PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DA HUMANIDADE?



   O Diário da República, 2ª Série, de 13 de Janeiro p. passado publicou um Anúncio de Consulta Pública, pelo prazo de 30 dias, “para efeitos de inscrição do «Carnaval de Torres Vedras» no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial”. Mal andaria esta Associação do Património se não interviesse nesta consulta e, por isso, enviámos à Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) – entidade que organiza o processo – o nosso parecer devidamente fundamentado. Sendo um texto longo, não caberá aqui transcrevê-lo, mas consideramos nosso dever dar conta do essencial da nossa posição discordante acerca daquela pretensão.

   Observação preliminar: como torrienses, partilhamos com os nossos concidadãos o gosto pelos divertimentos carnavalescos, uma prática festiva que há muito faz parte da nossa convivência social. Muitos recordarão que, durante 21 anos, publicámos na semana de Carnaval a Revista O BARRETE, que se distinguiu pela sátira mordaz e certeira, em cartoons e textos de reconhecida graça e projecção local.  Gostamos de brincar ao Carnaval!

A nossa perspectiva de abordagem pauta-se pela legislação nacional sobre Património Cultural e os documentos internacionais sobre esta matéria, nomeadamente a “Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial”, aprovada pela UNESCO na sua reunião de Paris em 17 de Outubro de 2003.

A iniciativa municipal em apreciação resulta de uma ideia apresentada pelo então Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, Carlos Miguel, ao jornal local Badaladas, em 11 de Julho de 2014, que informava ter sido formalizada, no início daquele ano, a candidatura do Carnaval de Torres à classificação de Património Cultural Imaterial da Humanidade, conforme os cânones definidos pela UNESCO.

Verificamos que a ideia avançou e se transformou no processo que esteve em consulta pública, dado que o procedimento de inventariação nacional, no âmbito da legislação em vigor, é necessário para a posterior candidatura à “Lista Representativa do Património Imaterial da Humanidade”.

Acolhido e defendido no seio da UNESCO, o conceito de Património Cultural Imaterial visa muito justamente relevar a importância de certas manifestações sociais e culturais da Humanidade em que se afirmam valores culturais e humanos, que pela sua originalidade e representatividade histórica, social, artística e cultural se impõe à admiração dos povos, reconhecendo-se a importância de os valorizar com uma distinção qualificativa.

Será que os festejos carnavalescos de Torres Vedras se enquadram neste nível de práticas?

CRITÉRIOS DE APRECIAÇÃO

Em nosso entender, os critérios apontados no Artigo 10º do Decreto-Lei nº 149/2015, devem forçosamente articular-se com o que dispõe o Artigo 2º da Lei nº 107/2001, (que “estabelece as bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural). Aí se aponta que “integram o património cultural todos os bens que, sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura portadores de interesse cultural relevante, devam ser objecto de especial protecção e valorização.”

Mais adiante afirma que “o interesse cultural relevante (…) dos bens que integram o património cultural reflectirá valores de memória, antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade. (sublinhado nosso).

Não pondo em causa a significativa adesão da população torriense aos festejos carnavalescos e a consideração de que estes se tornaram prática anual a partir dos anos 20 do século XX, em vão procuramos neles a expressão de muitos daqueles valores como sejam a autenticidade, a originalidade, a raridade, a singularidade ou a exemplaridade. De norte a sul do país encontramos festejos de Carnaval, com mais ou menos variantes, mas sem diferenças significativas.

Na proposta apresentada à DGPC, salienta-se como ponto decisivo a participação da comunidade torriense em todas as realizações carnavalescas. Seria este, até, o critério decisivo para a sua inclusão no inventário nacional do Património Cultural Imaterial. No entanto, bem sabemos que se trata de uma actividade planeada e programada por profissionais que garantem a produção de carros alegóricos, a organização dos corsos, a contratação de grupos de bombos do Norte do país, a animação musical nocturna, a recepção e cobrança de taxas dos inúmeros bares de ocasião, espalhados por toda a cidade, e a garantia de segurança através de Seguradoras externas com seu corpo de guardas. Todo este arsenal organizativo é garantido pela empresa municipal Promotorres. E aquilo que chegou a ter, há uns bons anos atrás, intuitos de beneficência, transformou-se num negócio de muitos milhões de Euros. Leia-se, a este propósito, o oportuno artigo de António Carneiro, publicado neste jornal na passada semana, intitulado «Carnaval de Torres – Morte e ressurreição – Da “municipalização” do evento».

O “Carnaval mais português de Portugal” – frase propagandística que pegou e é glosada exaustivamente desde há alguns anos – tem uma grande participação popular, mais ou menos espontânea, de muitos foliões e forasteiros que se mascaram, desfilam, dançam e, sobretudo, bebem muito. No fundo, divertem-se… Mas configurará isto uma candidatura a Património Imaterial?

Recuperando os requisitos da UNESCO, no documento acima referido, não se lhe conhece nenhuma expressão artística específica de representação, dança, expressão musical ou artefacto com características identitárias.

Mesmo como prática social, o fenómeno das “matrafonas” – homens mascarados de mulheres – apresentado como a grande originalidade do Carnaval de Torres Vedras, não cabe na categoria de manifestação cultural singular e original pois encontramo-lo, com muitas variações, em festejos carnavalescos de outros lugares do país. A matrafona não foi inventada em Torres Vedras, é uma prática entrudesca, exemplo do “mundo virado ao contrário”, característico de antiquíssimos festejos, anteriores à nacionalidade e com representações comprovadas, pelo menos, desde a Idade Média, em diversas manifestações.

A criatividade está condicionada superiormente pela empresa organizadora e pela autarquia que deliberam sobre o TEMA de cada carnaval, aprovam os conteúdos dos carros alegóricos, subsidiam grupos de mascarados sobre esse tema, premiando-os em concursos, desincentivando assim outras iniciativas e até a espontaneidade individual. Registe-se, igualmente, que todo o património material associado ao festejo não tem carácter tradicional. Tanto os carros alegóricos como o “monumento ao Carnaval”, erigido no ponto mais central da cidade, são de fibra de vidro, produzidos industrialmente em empresas especializadas em cenários e produções publicitárias.

 

EM CONCLUSÃO 

Em nosso entender, o Carnaval de Torres Vedras não integra, manifestamente, o conceito de Património Cultural Imaterial pois não corresponde aos critérios enumerados na legislação nacional, pelo que não vemos tais festejos com características que suportem a sua inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

 Estes festejos, ainda que possam ter algumas características diferenciadoras em relação a outros congéneres, também não se enquadram no conjunto de parâmetros definidos na Convenção da UNESCO para uma classificação a Património Cultural Imaterial da Humanidade, dado que as práticas e os valores que põe em jogo se referem muito mais à contemporaneidade do que a tradições identitárias que reflictam um modo cultural próprio de vivências específicas de uma comunidade. No nosso concelho há outras manifestações culturais que, essas sim, poderiam ajustar-se aos critérios exigidos.  

Esta candidatura será uma ousada operação de marketing, como temos ouvido, mais que uma vez, aos nossos autarcas. Que a Câmara Municipal a protagonize, é natural e resulta de uma bem compreensível intenção de rentabilizar um Carnaval cada vez mais oneroso e exigente. Mas daí a transformá-lo em Património Cultural Imaterial da Humanidade parece-nos inteiramente desajustado e irrealista.

 

A DIRECÇÃO DA

ASSOCIAÇÃO PARA A DEFESA E DIVULGAÇÃO

DO PATRIMÓNIO CULTURAL DE TORRES VEDRAS

26 Fevereiro 2021

 



 

 

 

                                       

 

                               


Ainda os frontais de altar em guadameci da igreja da Misericórdia de Torres Vedras

 PÁGINA «PATRIMÓNIOS» NO JORNAL "BADALADAS" | 29 JANEIRO 2021


Ainda os frontais de altar em guadameci

da igreja da Misericórdia de Torres Vedras




 

Franklin Pereira, reconhecido investigador desta área particular da História da Arte, apontou alguns erros e imprecisões do nosso artigo, publicado em Novembro passado. Por solicitação nossa, escreveu o texto que ora se publica. É uma colaboração que honra o Badaladas e que agradecemos. | Joaquim Moedas Duarte

 

Publicado na edição de 27 de Novembro do ano anterior, o artigo sobre estes frontais apresenta alguns erros.

Não está documentada qualquer referência ao guadameci em países árabes; apesar da fixação da folha de ouro ou prata sobre couro ser um método milenar – já existia na Egipto faraónico –, não é isso que torna uma peça trabalhada pela técnica do guadameci, pois há outros procedimentos acrescidos, apenas desenvolvidos na Ibéria islâmica. Também a descrição técnica apresentada nesse artigo é relativa ao método ibérico (que não é o dos frontais em causa), cuja existência nos faz recuar ao século XII.

Ora a fama da manufactura – não só de Córdova, mas de outras cidades, como Lisboa e Évora – espalhava-se pela Europa nobre e eclesiástica. A produção lusitana atingia ainda a Itália, o Brasil, Moçambique, Goa, Diu e mesmo o Japão, no século XVI.

A técnica ibérica, elaborada recorrendo a rectângulos de couro de carneiro, criava painéis lisos cobertos com folha de prata, pintura a óleo e texturação e, em particular, a cor dourada dada por um verniz resultado da cozedura de ingredientes vegetais. A texturação por punções de pouco recorte (para não danificar a superfície prateada) chama-se “granido” em Portugal (de acordo com o regimento dos guadamecileiros, no famoso Livro dos Regimentos, de Lisboa, de 1572) ou “picado” em Espanha da mesma época. O termo “lavrado” diz respeito a outra arte do couro, aquela que apresenta desenhos de algum modo vincados na superfície. Na época românica e gótica, o couro era lavrado por incisão; desde o Renascimento, foi a cadeira portuguesa encourada a peça mais saliente (e famosa na Europa nobre), e o couro bovino era lavrado por cinzéis não-cortantes.

Em poucas palavras, os motivos dos guadamecis derivavam inicialmente da arte mudéjar tardia (vulgo “arabescos”), mas sobretudo de desenhos florais (ditos “ao brocado”); o Renascimento impôs motivos “ao grotesco” e, por vezes, a encomenda personalizada incluía pintura devocional (a “imaginária”), heráldica e paisagens. Entre os chamados “ofícios mecânicos”, os guadamecileiros eram uma elite, não só devido ao processo complexo e luxuoso de elaboração, mas por terem como compradores a classe poderosa; a par de ourives e tapeceiros, permaneciam na esfera do poder régio, havendo dados que atestam o cargo de “guadamecileiro do rei” no tempo de D. Manuel e D. João III. As obrigações dos ofícios – os regimentos – eram rígidas, e um mestre estava vinculado ao seu trabalho, com diploma oficializado pela câmara municipal. Podia um mestre ter “tenda”/oficina aberta e receber ajudantes (oficiais), mas ter apenas um aprendiz, geralmente um adolescente.

 Terá sido devido ao comércio via Feitoria da Flandres e à permanência de artífices portugueses em Amesterdão em inícios do século XVII que mestres locais criaram oficinas nos Países Baixos; estas seguiam inicialmente os métodos que deram fama à península.

O ano de 1628 marca uma viragem acentuada: a invenção, em Haia e Amesterdão, de uma prensa e moldes em madeira talhada permitiu dar relevo ao couro (já não carneiro, mas bezerro) e adaptá-lo a novos desenhos do Barroco. A repetição acelerava a produção, e as novas fábricas empregavam dezenas de artífices e consumiam centenas de peles. A famosa “L’Encyclopédie: recueil de planches sur les sciences, les arts libéraux et les arts méchaniques, avec leur explication: Arts du Cuir”, de  Diderot e Alembert, de  1771, tem duas gravuras relativas a este trabalho industrial.  A novidade e atracção destes motivos expandiu-se e, importados pela Península, contribuíram para o drástico declinar da produção.

 

 OS EXEMPLARES DA MISERICÓRDIA DE TORRES VEDRAS

 

É neste contexto centro-europeu que são criados estes guadamecis vistos em Torres Vedras: o desenho é atribuído ao francês Daniel Marot (1661-1752), arquitecto e desenhador de ornamento, ido para os Países Baixos em 1685 para escapar à intolerância religiosa, pois era huguenote. Os seus desenhos foram editados em 1702 e 1712, influenciando as artes decorativas de então, entre as quais a do guadameci industrial. 

Contrariamente a outros guadamecis dos Países Baixos, estes exemplos foram estampados por placa de metal; daí a texturação, que não foi realizada manualmente por punções.

Esta é a época mais repetitiva da prensagem dos guadamecis, com pouca variedade de desenhos. 

Este frontal com catorze rectângulos – um número elevado e único pela quantidade usada – em Torres Vedras data de 1703-1740, e carece, tal como outros, de um estudo dos inventários eclesiásticos: quem comprava, de onde vinham, qual o preço.

Os motivos expostos têm dois padrões. Um deles mostra duas aves afrontadas, com raminho no bico, sob uma estilização vegetalista em leque.

O outro motivo mostra um vaso de flores encimado por uma cúpula com franjas, entre estilizações florais e partes padronizadas. É este motivo que forma os grandes rectângulos, encimados por sanefas ou quadrados, com o mesmo padrão ou o descrito anteriormente, cortados e por vezes colados invertidos.

Padrões semelhantes encontram-se em uso na Igreja de Miragaia (perto da Alfândega do Porto), e na  Igreja do Santuário de Balsamão (Trás-os-Montes). Um frontal semelhante (motivo das aves) encontra-se na capela de Nossa Senhora do Carmo, em Murfacém (Almada). Outros dois frontais (de ambos os motivos) estão no Museu de Alberto Sampaio e vieram de Felgueiras, do Convento de Santa Maria Maior de Pombeiro.

Ainda a nível museológico, um frontal, existente nas reservas do Museu Nacional de Arte Antiga, repete o motivo das aves e poderá ser um dos três que, entre os cinco nas reservas, veio da capela do Forte da Ínsua, em Moledo do Minho – tal facto mostra a expansão do guadameci por todo o país, expansão esta mais saliente na época tardo-medieval e renascentista (período áureo da produção), em particular a sul de Coimbra, zona de maior influência do período islâmico/andalusí.

Outros guadamecis com estes desenhos estão no Museu de Etnografia e História da Póvoa de Varzim, e Museu Nogueira da Silva (Braga). Alguns estofos e biombos mostram semelhantes obras prensadas.

Um aspecto peculiar diz respeito à pintura manual, pois o artífice usou um pincel plano, com alguns pelos cortados: de uma só passagem, pintava várias linhas. O facto é particularmente visível nas pétalas das flores.

Tal como aconteceu com outros rectângulos de guadameci relevado por prensa, a montagem deveria ser feita após a sua importação por Espanha e Portugal, e formavam, finalmente, frontais de altar, estofos e biombos. 

Contudo, a arte estava já à beira da extinção, devido às novas modas e padrões de conforto nos interiores. Nas igrejas, a profusão da talha dourada relegou para segundo plano o guadameci. Tudo isso explica a drástica falta de exemplares que atestem a qualidade e diversidade desta arte, extinta em meados do século XVIII.

Alguns anos atrás, o Museu de Alberto Sampaio realizou um vídeo, onde explico o método ibérico e apresento uma série de obras em guadameci, incluso os dois desenhos semelhantes aos de Torres Vedras; o vídeo é de acesso livre e pode ser visionado em:

https://www.youtube.com/watch?v=413sMIxE5pQ

 

Franklin Pereira – guadamecileiro e investigador do ARTIS-Instituto de História da Arte / Faculdade de Letras / Universidade de Lisboa

 








03 janeiro 2021

O BAIRRO NOVO - TORRES VEDRAS

 

PÁGINA "PATRIMÓNIOS" NO JORNAL "BADALADAS" | 25 DEZEMBRO 2020  


O BAIRRO NOVO

 José Pedro Sobreiro  

Pedro Fiéis




A EXPANSÃO URBANA

O crescimento populacional em Portugal teve um forte incremento na segunda metade do século XIX, sentindo-se os seus efeitos logo nos primórdios da centúria seguinte, assistindo-se igualmente a uma mudança de regime (1910) que levou a uma nova classe social ao poder mas sobretudo a um repensar das velhas cidades, numa tentativa de modernização e expansão das suas estruturas por forma a acomodarem mais pessoas sem os problemas de outrora, nomeadamente, falta de saneamento básico, construções precárias e edificação desenfreada sem critério e sem planeamento.                                                                                              

A vila de Torres Vedras manteve-se até finais do século XIX praticamente dentro do perímetro das antigas muralhas, excepção feita a alguns segmentos de expansão nas margens da estrada nacional – a norte, na zona dos Pelomes, e a Sul, a via que levava à Fonte Nova.        Mas foi a chegada do comboio que constituiu o factor fundamental nesse incremento da população, criando-se então a necessidade urgente de dar habitação condigna aos novos habitantes. Esta expansão do perímetro urbano está patente nas novas avenidas - 5 de Outubro e Ten. Valadim - rasgadas para servirem a Estação do Caminho de Ferro, inaugurada em 1886.

 

OS PLANOS DE URBANIZAÇÃO

Dentro desta filosofia, em todo o país surgiram os Planos de Urbanização, entre os quais o de Torres Vedras, no qual Miguel Jacobetty foi encarregado de expandir o núcleo urbano, plano onde abundavam as zonas de moradias.                                                                          

A política de Duarte Pacheco, à época ministro das Obras Públicas, era impedir o crescimento desordenado das cidades e vilas, bem como uma arquitetura de má qualidade visual e construtiva, contemplando igualmente áreas de fruição coletiva, sendo exemplo entre nós os casos da criação do Jardim da Graça e a construção de equipamentos públicos. como os CTT, o Hospital e a Junta Nacional do Vinho.                                                                            

Plano este que não esquecia o já edificado , onde se fariam apenas as demolições necessárias aos novos eixos viários e ao “arejamento” das ruas, e se apontavam as linhas de expansão futuras, particularmente através da fixação dos grandes eixos viários – Avenida General Humberto Delgado e Rua Teresa de Jesus Pereira que fariam a ligação entre a Várzea e a Estação de Caminho de Ferro, criando uma cintura interna, que nos anos 70 se apresentava já insuficiente para conter a expansão para sul (Bairro Borges de Castro).                             

Inspirado nas ideias de Etienne de Gröer, um francês, que defendia o repensar de velhas urbes, instituindo a ideia da Cidade-Jardim e a limitação das demolições em zonas históricas ao estritamente necessário para o embelezamento das artérias e consolidação do edificado, o Bairro Novo apresentava-se como elemento de continuação e não de rutura.

 

O “ VELHO” BAIRRO NOVO 



O chamado Bairro Novo, projectado nos anos 40, desenvolveu-se a partir do Convento da Graça, para sul, delimitado pelas ruas Rua António Batalha Reis, Santos Bernardes, Teresa de Jesus Pereira e Maria Barreto Bastos. Foi criado como zona residencial, destinada a uma classe média emergente de comerciantes, funcionários administrativos e pequenos proprietários. Ruas rectilíneas, definindo grandes quarteirões, num arranjo racional do espaço, permitindo alguma liberdade de construção.  A sua tipologia, inicialmente de moradias unifamiliares, foi variando ao longo das décadas, acompanhando a tendência para o prédio de habitação (dito de rendimento) de vários inquilinos, mas mantendo uma certa harmonia na escala dos edifícios. Harmonia sobretudo nalgumas das primeiras habitações, onde se verifica uma tipologia do tipo “arte deco”, com animação das fachadas, através da modelação das superfícies, na marcação de pilastras, molduras e frisos, etc.                

São, na sua simplicidade, fachadas com desenho! Correspondem a uma atitude já modernista, mas que não consegue ainda dispensar o elemento decorativo, como traço identitário, longe do total despojamento formal/funcional da era seguinte.                                                              

Ao mesmo tempo, criaram-se quintais, ora para usufruto como jardins, ora para aproveitamento como hortas, sabendo-se esta uma vila rural, cujo plano de urbanismo reflete isso mesmo, no seu todo.                                                              

 O legado recebido foi, portanto, um edificado onde é possível observar exemplos da arquitectura portuguesa de meados do século XX, desde o estilo “arte deco”, rumo ao modernismo - já com o uso do betão como material de construção - passando pela arquitetura do Estado Novo, conhecida de forma crítica como Estilo Português Suave, constituindo-se como o símbolo de uma época.                                                                                                     

 Esta zona puramente habitacional representa uma etapa importante da renovação urbanística entre nós e conserva ainda uma certa homogeneidade, apesar da adulteração de alguns dos seus troços. Por isso, é um capítulo do discurso histórico que uma cidade (também) deve ser. Desde logo pelo seu carácter vincadamente residencial, como zona tranquila, alternativa a outros movimentos do viver citadino. Veja-se como, ​nestes tempos de pandemia, o facto de se ter acesso a um pequeno espaço privado de ar livre pode constituir uma mais valia.

A aparente retoma das actividades de construção civil, com algumas intervenções a decorrer, vem recolocar questões que não são consensuais – conservar versus renovar. Afinal a cidade reinventa-se sobre si mesma. Será que o contemporâneo pode coexistir com o antigo? Pode, claramente, mas há que definir regras claras.                                                             

Esquecer a vocação do Bairro Novo, zona com forte identidade no discurso da cidade moderna, constitui uma perda cultural, pela desvalorização dos seus valores originais e consequente densificação. Destrói-se uma harmonia conseguida e as memórias que transportam.                        Agora que a CMTV se dedica à definição de Áreas de Regeneração Urbana fica o nosso apelo para que o Bairro Novo possa merecer a atenção dos urbanistas a fim de preservar o seu contributo para o equilíbrio urbano, na inequívoca singularidade das suas características e na sua memória.






OS GUADAMECIS DA IGREJA DA MISERICÓRDIA

 PÁGINA "PATRIMÓNIOS" NO JORNAL "BADALADAS"  | 27 NOVEMBRO 2020  | 

OS GUADAMECIS DA IGREJA DA MISERICÓRDIA

Joaquim Moedas Duarte

Continuando a assinalar os 500 anos da fundação da Misericórdia de Torres Vedras (1520), hoje destacamos três peças de grande valor artístico da Igreja da Misericórdia de Torres Vedras: os frontais dos altares da capela-mor, de couro pintado e lavrado, a que se dá o nome de guadamecis. Contudo, eles não podem ser vistos isoladamente, fazem parte de um conjunto de notável riqueza decorativa.

 

O ALTAR 

Desde a mais distante antiguidade, o altar era uma plataforma elevada onde se faziam sacrifícios à divindade. Encontramo-los na Bíblia judaica e nas praticas greco-romanas do mundo antigo. O altar era o centro das práticas religiosas. A Igreja Católica, ao longo dos seus dois milénios de existência, reformulou o significado e a simbologia do altar, nele concentrando memórias do passado e vivências do presente. Do passado, evoca-se o sacrifício de Cristo no Calvário, altar supremo da Redenção e a ceia de despedida, a última, em que foi instituída a presença eucarística; do presente, celebra-se o encontro dos crentes em redor do altar, mesa de convívio espiritual e de partilha do pão consagrado.

Os templos católicos sempre foram construídos em redor do altar-mor, colocado no lugar mais destacado e proeminente, para onde convergem os movimentos e os olhares dos fiéis. Ao altar-mor associou-se, também, o culto das relíquias dos mártires: os restos mortais de S. Pedro na grande basílica de Roma, os de Santiago em Compostela, os pequenos despojos de outros mártires na pedra de ara que obrigatoriamente ainda hoje se coloca no centro do altar onde se celebra Missa.

A importância do altar explica a prática de concentrar nele as mais exuberantes manifestações das artes decorativas, sobretudo após a renovação do Concílio de Trento, no século XVI e a posterior eclosão do estilo barroco. Peça por excelência do mobiliário religioso, o altar, em forma de mesa fechada, tem a face virada ao público – chamada “frontal” –  decorada com motivos aplicados sobre materiais diversos, seja pedra nua, azulejo ou madeira.

 

 



OS GUADAMECIS DOS FRONTAIS

Na igreja da Misericórdia de Torres Vedras, o altar-mor – onde se glorifica a imagem da Senhora da Misericórdia com o Menino Jesus ao colo – é ladeado por dois altares laterais. Do lado do Evangelho, o de Santo Cristo, ligado ao suplício do Calvário, com os símbolos da Paixão e uma belíssima imagem de Cristo Morto ocultada pelo frontal do altar; do lado da Epístola, à direita, o de Santo António. A parte superior de cada um dos altares é decorada com retábulos de talha dourada, numa exuberância e riqueza decorativas de magnífica opulência visual. Todo o conjunto é do século XVIII, contrastando com a elegância austera dos mármores policromados das paredes e do chão, ao gosto do séc. XVII e de que encontramos semelhança na igreja do Turcifal.

Inicialmente, estes altares, além do já referido esquife com o Senhor Morto, tinham frontais de madeira com imitação de embutidos de mármore, pintados sobre as tábuas. Porém, provavelmente já em fase adiantada do Séc. XVIII, os frontais destes altares foram revestidos de guadamecis.

Franklin Pereira, investigador que mais tem estudado este assunto, elucida: «O termo guadameci [também guadamecil] provém do árabe e significa ornamento floral vivo de cores ou couro assim decorado. A técnica do guadameci é realizada sobre couro de carneiro, cortado num rectângulo; fixa com um mordente, a folha de prata cobre toda a superfície. O desenho, vincado, é pintado com cores de óleos; um verniz, resultante da cozedura de ingredientes vegetais, dá à prata as tonalidades do ouro, e daí a designação de “couros dourados”, apesar do emprego do ouro ser raro». Os rectângulos eram cozidos uns aos outros, dando origem a panejamentos de dimensões variadas, com aplicações diversas: nas paredes dos palácios, em móveis, em frontais de altar, etc. (in: Revista Al Madan, nº 22, Janº 2018, p. 131-146)

Depois de pintado, o couro era “lavrado” ou vincado com punções metálicas de pouco recorte, dando-lhe uma textura de baixo-relevo. Esta técnica, proveniente de países árabes do próximo Oriente, foi aprendida e aplicada com brilhantismo, em Córdova, pelos artesãos da curtimenta de peles, ao longo da Idade Média, tendo-se posteriormente expandido por toda a Europa.

Sendo uma técnica complexa e onerosa, estes couros lavrados são relativamente raros. O caso dos guadamecis da Misericórdia de Torres Vedras reveste-se, pois, de uma notável importância patrimonial, tanto mais quanto eles se conjugam com os elementos decorativos que acima descrevemos.

Hoje, quando entramos nesta igreja, ficamos maravilhados com o brilho do seu interior, bem diferente da atmosfera soturna, escurecida pelo fumo das velas, do tempo em que foi capela mortuária. Mas ela só adquiriu essa expressividade depois das importantes obras de manutenção e restauro que decorreram entre 2003 e 2010 e que orçaram perto de cem mil euros. Confiados à oficina do mestre bracarense das artes decorativas que foi Martinho Lobo Ferreira, os altares e seus frontais foram desmontados e transportados para Braga, onde foram restaurados. Um esforço assinalável que restituiu à Misericórdia de Torres Vedras o antigo esplendor.




IGREJA DA MISERICÓRDIA DE TORRES VEDRAS

 PÁGINA "PATRIMÓNIOS" NO JORNAL "BADALADAS" | 30 OUTUBRO 2020 


IGREJA DA MISERICÓRDIA DE TORRES VEDRAS


PROPOSTA DE CLASSIFICAÇÃO

No passado dia 26 de Julho comemoraram-se os 500 anos de assinatura, pelo rei D. Manuel I, do alvará que criou a Santa Casa da Misericórdia de Torres Vedras. No ano de 1520.

Sendo uma instituição de inspiração religiosa, mas administrada por laicos, esteve sempre ligada a outras instituições da Igreja Católica de Torres Vedras como sejam o Convento de Nossa Senhora dos Anjos, do Barro ou as paróquias da sede do concelho.

A sua sede inicial foi o antigo hospital e capela do Espírito Santo, pertencentes à Confraria do mesmo nome, localizado junto à porta da muralha de Sant’Ana. Apesar das alterações ocorridas ao longo dos séculos – de que a mais significativa foi a demolição da muralha e daquela porta -  a Misericórdia de Torres Vedras ali tem permanecido até aos nossos dias.

Nos finais do século XVII, perante a ameaça de ruína da primitiva capela, foi decidido construir uma nova igreja, cuja primeira pedra foi lançada em 1 de Março de 1681. Em 1710 a primeira fase da obra estava concluída e a bênção da nova igreja teve lugar em 6 de Setembro daquele ano. As obras de beneficiação e apetrechamento continuaram ao longo desse século, caso da sacristia, concluída em 1752. O terramoto de 1755 causou estragos, pelo que foram necessárias diversas obras de restauro. Ao longo dos séculos XVIII e XIX, obras de manutenção garantiram a perenidade deste espaço de culto. Já nos finais do século XX, as mais recentes e importantes obras, tanto no exterior como no interior, restituíram brilho e magnificência a todo o edifício, no qual se integra “um dos templos de maior interesse em todo o concelho”, no dizer dos autores do volume IV dos “Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa”.

Tendo em conta a antiguidade e valia deste templo, parece estranho que nunca tenha sido  classificado. Sendo a classificação uma forma de protecção de um bem cultural (Artº 16º da Lei de Bases do Património – Lei nº 107 / 2001, de 8 de Setembro), talvez que a pertença da Igreja da Misericórdia a uma instituição consolidada e estável ao longo de muitos séculos explique que a sociedade torriense não tenha sentido a necessidade de socorrer-se daquele instrumento legal para a sua preservação. Igualmente, o facto de a Igreja se situar no perímetro urbano designado como Centro Histórico parece garantia suficiente de protecção do edifício e da sua envolvente.

Os tempos que vivemos aconselham, porém, uma reconsideração das condicionantes que envolvem o edifício. As vivências cultuais de hoje são bem diversas dos tempos primitivos da Misericórdia: já não há doentes do hospital que ali assistam aos ofícios religiosos e as paróquias da cidade têm as suas próprias igrejas, embora na Misericórdia se continuem a realizar actos de culto em situações festivas. Por outro lado, o turismo cultural ganhou uma dimensão impensável há décadas atrás, pelo que a classificação dos monumentos deixou de ter apenas o valor de protecção legal, para se assumir como garantia de interesse turístico e de atractivo para a sua divulgação.

 

CONDIÇÕES NECESSÁRIAS

Terá a Igreja da Misericórdia de Torres Vedras características que permitam considerá-la dentro de algum ou alguns dos critérios genéricos de apreciação para uma possível classificação, enumerados no Artigo 17º da referida Lei? Parece-nos que sim. Desde logo, o seu carácter matricial, espaço criado como apoio religioso da Misericórdia e assim se tendo mantido ao longo destes 500 anos; e também o interesse do bem como testemunho simbólico ou religioso e como testemunho notável de vivências ou factos históricos; o seu valor estético, técnico e material, bem como a concepção arquitectónica e urbanística, perfeitamente integrada no tecido urbano do centro histórico; por último, a marca indelével na memória colectiva como espaço que sempre fez parte das vivências quotidianas da população torriense.

Foi com base nestes pressupostos que a Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras considerou oportuno que se iniciasse o processo de classificação da Igreja da Misericórdia de Torres Vedras, disso dando conhecimento à Mesa Administrativa daquela instituição.

Diz o Artigo 25º da Lei de Bases do Património que “o impulso para a abertura de um procedimento administrativo de classificação ou inventariação pode provir de qualquer pessoa ou organismo, público ou privado, nacional ou estrangeiro”. Assim sendo, e tendo em conta os objectivos e a prática da Associação do Património de Torres Vedras, esta associação tomou a iniciativa de requerer a classificação da Igreja da Misericórdia, de acordo com o enquadramento legal definido pelo Decreto-Lei nº 309/2009, de 23 de Outubro.

O processo tem uma fase inicial que consiste no preenchimento de um formulário constante do site da Direcção Geral do Património Cultural. É nesse preenchimento que se está a trabalhar, de modo a facultar aos decisores os elementos necessários para a abertura do processo de classificação. Após a entrega do formulário, os trâmites administrativos subsequentes serão demorados, nunca menos de dois anos. Para já, o processo vai ser iniciado.

Direcção da ADDPCTV





O contraste entre a fachada austera e a exuberância artística do interior – talha dourada, azulejos, pintura e escultura – é característico do chamado “estilo chão” do Barroco português. Mais importante do que a aparência externa é a beleza do que está la dentro – parece ser essa, a mensagem dos construtores, clara alegoria à dualidade corpo/alma.