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20 janeiro 2012

PATRIMÓNIOS 21 ( BADALADAS, 20 janeiro 2012)

RESSUSCITAR O CENTRO HISTÓRICO (II Parte)

André Tavares, Arquitecto


Neste artigo gostaria de transmitir algumas ideias que tenho vindo a desenvolver sobre a recuperação dos Centros Históricos e urbanos.

O ponto de partida será sempre identificar o problema. Não conseguimos definir estratégias sem sabermos do que estamos a falar. Assim sendo, deveríamos começar por inventariar todos os edifícios devolutos existentes no centro das nossas cidades. Tem de haver rigor neste inventário e é a partir daqui que é possível informação suficiente para se proceder à sua classificação, de maneira a podermos definir quais devemos manter, alterar ou demolir.

Até aqui nada de novo, pois já foram com certeza elaborados inúmeros inventários deste género no nosso País; no entanto é absolutamente necessário, através desta ferramenta, descobrir quem são os proprietários deste património desperdiçado. Temos de ser, então, mais pró-activos nesta pesquisa. E se, esgotando todos os meios legais para os encontrar, ou ao ser encontrado o proprietário este não apresentar condições para recuperar e manter o imóvel, temos de o tomar sob a nossa alçada e criar as condições necessárias para que seja reabilitado. Temos de ser mais céleres e mais concretos a conduzir estes processos, temos de agir. Tem de haver prazos definidos para apresentação dos proprietários e na eventualidade da atribuição de uma compensação esta deve ser de um valor justo, tabelado e não baseado em percepções distorcidas de valor e negociações intermináveis. Não nos podemos esquecer do foco central: a protecção do nosso Centro Histórico e urbano. Quando deixamos um edifício degradar-se estamos não só a danificar a paisagem e a denegrir a imagem das nossas cidades, mas também a pôr em risco a integridade das construções vizinhas e a vida de todos os que habitam na sua proximidade e passam diariamente por ele.

Uma vez identificados os pontos de acção, há que definir estratégias urbanas à volta dos Centros, identificando as suas necessidades e pontos fortes, definindo quais destes imóveis recuperar ou reconstruir e com que funções – habitação, comércio, serviços – e quais teriam de ser demolidos para criação de espaços públicos abertos no tecido urbano ou para bolsas de estacionamento.

Seguidamente há que elaborar cuidadosamente os programas individuais de cada unidade, com um foco mais preciso no público-alvo que se pretende, para os habitar e dinamizar.
Aproveitando uma altura em que muitos gabinetes e profissionais liberais nos campos da Arquitectura, Engenharia e Design se encontram com pouco trabalho, seria extremamente interessante promover-se concursos de ideias para jovens profissionais. Teríamos assim um maior dinamismo junto do mercado de trabalho e beneficiaríamos de uma série de perspectivas ambiciosas e inovadoras para um problema específico, procurando a solução dentro da faixa etária que seria ao mesmo tempo o grupo alvo desta iniciativa.
O objectivo seria a apropriação ou aquisição de imóveis devolutos a um custo muito baixo e a promoção criativa da sua recuperação junto de investidores externos. A estas apresentações seguir-se-iam uma série de estratégias bem definidas e estruturadas pelos concursos de ideias elaborados anteriormente, de maneira a que o produto apresentado fosse sólido e atractivo. Os intervenientes neste processo, –os municípios, os técnicos e criativos cujas ideias tenham ganho os concursos, assim como eventuais proprietários sem condições de recuperar o seu património, –seriam ressarcidos apenas no momento em que o investidor aceitasse o negócio.
*****
O leitor terá reparado que este texto foi escrito na primeira pessoa do plural. Porque o Estado e os Municípios somos todos nós. E se todos tentarmos contribuir com o nosso trabalho e o nosso conhecimento, se nos tentarmos envolver nos problemas e não desistirmos à primeira dificuldade, então viveremos com certeza numa cidade melhor desenhada e pensada por nós e para nós.


08 janeiro 2012

PATRIMÓNIOS 20


Publicado no BADALADAS em 30 dezembro 2011



RESSUSCITAR O CENTRO HISTÓRICO

André Tavares, Arquitecto



Face aos tempos difíceis em que vivemos torna-se cada vez mais urgente pensar sobre a recuperação dos Centros Históricos e o papel da arquitectura nesse contexto.
Mesmo antes de nos confrontarmos com a crise que assola o país e a Europa em geral, já o mercado habitacional sofria de graves problemas, nomeadamente o excesso de imóveis construídos comparativamente à dimensão da população nacional, o que contribuiu grandemente para o progressivo crescimento das periferias pouco estruturadas do ponto de vista urbano e arquitectónico.
Parece-me assim óbvio, já há bastante tempo, que é necessária uma nova abordagem à recuperação dos Centros Históricos das cidades portuguesas. Porquê criar uma série de pequenas «cidades bolsa», subúrbios que servem apenas de dormitórios, ficando dependentes do comércio e serviços prestados nos centros urbanos? Porquê, como acontece mais particularmente em Torres Vedras, insistir nas urbanizações e loteamentos isolados sem qualquer noção de planeamento urbano ou infraestruturas, para além de um pequeno e triste espaço verde e muito alcatrão? Porquê, quando uma grande parte dos edifícios antigos dos centros das cidades se encontram em péssimo estado de conservação, abandonados ou devolutos?
Este é um tema já amplamente discutido, mas aparentemente com muito poucas conclusões retiradas. É no entanto necessário revisitá-lo de maneira a que de uma vez por todas suscite dinâmicas suficientemente fortes para mobilizar todos os agentes envolvidos.
É absolutamente necessário injectar nova vida nos Centros Históricos. É necessário recuperar, classificar e preservar o que merece ser preservado, é necessário adaptar, modernizar e melhorar de acordo com os padrões actuais de qualidade e conforto, é necessário construir um diálogo coerente entre o passado e a arquitectura contemporânea e é principalmente necessário ter coragem e bom senso suficientes para demolir e substituir o que já não tem utilidade ou interesse.
Nos três textos que me convidaram a escrever para esta coluna, sendo este uma espécie de nota introdutória, tentarei aprofundar cada um destes temas, deixando o leitor desde já com uma ideia. São muito poucos os produtos que se vendem a si próprios, sendo por vezes necessário encarar estas estratégias como isso mesmo, uma venda.
Não podemos pensar que é apenas a falar sobre o assunto repetidamente, ou implementando medidas obscuras, mal estruturadas e pouco publicitadas que vamos atrair nova população ao Centro Histórico. Não é só apostando no charme romântico atribuído a estes espaços, nem na ínfima parte da população que aprecia este tipo de vivência. Como em qualquer actividade, é preciso conhecer o cliente, aprender com ele, saber o que pensa e o que deseja, interpretar o que realmente necessita e finalmente motivá-lo a alcançar o seu objectivo.
Parece-me que antes de mais será necessário criar uma boa política de incentivos. Mais do que exigir ao Estado e aos Municípios que paguem ou subsidiem as condições necessárias, temos sim de exigir a estes organismos uma política de incentivos bem estruturada, que ofereça benefícios e condições que permitam aos investidores privados apostarem na recuperação, que amplie perspectivas e saiba demonstrar e reforçar as vantagens de investir e habitar no centro histórico, e sucessivamente saber estender e publicitar esses conceitos às famílias jovens.
Com as devidas condições estas iniciativas poderiam não só dar um novo fôlego aos centros históricos, como também ao comércio tradicional e às actividades lúdicas e culturais no espaço urbano, abrindo as portas a uma nova geração que, se a oportunidade lhe fosse devidamente apresentada, viveria o centro