Algumas pessoas têm-nos interrogado sobre o que pensamos àcerca da intervenção artística na fachada da casa que foi do Dr. Jaime Umbelino e é agora a "Fábrica das Histórias". E algumas até criticam o nosso silêncio - entendido como passividade ou desatenção.
Entretanto saiu no BADALADAS, em 22 de Julho, um pequeno apontamento - Bilhete Postal - sobre o caso.
Embora já tivéssemos dado um breve esclarecimento na nossa página do Facebook, pegamos hoje no assunto de uma forma mais aprofundada.
O que se tornou polémico foi a pintura em estilo grafitti da fachada daquela casa.
Tanto quanto nos apercebemos, as críticas vieram, maioritariamente, de pessoas que desconhecem o projecto "Fábrica das Histórias", que nunca visitaram a casa ou sequer a exposição das peças que dela faziam parte.
Por outro lado, verificámos que muitas das pessoas que não reprovaram aquela intervenção conheciam o contexto em que foi realizada - a exposição de trabalhos dos alunos da Escola P. Francisco Soares, inseridos no projecto "Reivent'ar-te". E sabiam, também, que a casa vai sofrer obras de restauro e que aquela pintura seria de carácter efémero.
Pela nossa parte, Direcção da ADDPCTV, temos de confessar que não houve unanimidade na apreciação. Fomos a imagem das diferenças de opinião que acima referimos.
Vejamos as duas razões:
1ª - as dos que não se opuseram: aquela casa não é apenas uma peça arquitectónica de valor patrimonial, parada no tempo, mumificada, feita para estar ali e ser olhada. Sendo uma casa desabitada, corre o risco de se tornar mais um imóvel a degradar-se. Dado que pertence à Câmara, há que lhe dar uso adequado. E é aqui que começa o problema: que uso? Como fazer face às despesas de manutenção? O projecto "Fábrica das Histórias" surgiu como resposta possível e muito interessante. Mas havia que lhe dar projecção, torná-la visível aos olhos de uma comunidade tantas vezes desatenta. A pintura da fachada, entregue a um artista - Gonçalo Mar - conhecido de outras intervenções realizadas sobretudo em Lisboa, pintura de carácter efémero, de duração limitada no tempo, surgiu como forma de chamar a atenção para aquela casa e para o que vai ser o seu uso - condição da sua preservação. Em suma, entenderam não se opor desde que a fachada fosse reposta rapidamente no seu estado original.
2ª - razões dos que se opuseram: aquela casa é uma peça importante do nosso parco património arquitectónico dos finais do século XVIII. Como tal deve ser respeitada. A intervenção na fachada é um acto reprovável porque transmite a mensagem de que, para fazer publicidade ou chamar a atenção de uma actividade cultural, tudo é permitido. Para mais, tratando-se de uma exposição de trabalhos escolares, esta intervenção é profundamente deseducativa. Que diremos amanhã a um jovem que resolve pintar uma parede da Igreja de S. Pedro, por exemplo, e que nos diz que tem uma mensagem importante a transmitir? O respeito devido àquele edifício não deixa de ser violado com a desculpa de que a pintura é efémera.
Uma coisa é certa: essa pintura que foi feita nos princípios de Maio ainda hoje lá está, prolongando abusivamente no tempo uma presença cuja justificação se ligava à exposição do "Reinvent'ar-te" - patente ao público de 7 a 27 de Maio. Já se passaram quase dois meses. Não será já tempo de repor a verdade daquela fachada, restituindo-lhe a dignidade austera que a caracteriza?
No contacto que hoje fizemos com a Câmara Municipal de Torres Vedras recebemos a informação de que tal irá acontecer no próximo mês. Ficamos a aguardar.

