25 junho 2021

MOINHOS - A DINÂMICA DAS RUÍNAS

 Publicado no jornal BADALADAS (Torres Vedras), em 25 de Junho de 2021


A Dinâmica das Ruínas 

Ezequiel Duarte (Texto e fotos)





Algures um círculo de pedras num disfarce de ruínas. A memória popular apanha a forma e transforma-a em imaginários que viajam sem qualquer mácula ao passado. Abrir esta fronteira é uma maneira de dizer que o tempo enviará resposta e, paciente, soletrará na ruína a sua figuração como intérprete da mudança.

As histórias avolumam-se, cruzam-se enredos e a ruína é agora límpida, pronta a ser respeitada por quem escuta as palavras dos moinhos.

Estágio após estágio conhece-se o processo da ruína, o paradoxo do dinamismo da ruína. Na nossa viagem, num instante, a alvura de um moinho num contraste de verde ou de terra lavrada. Surpreendidos, percebemos que ainda há moinhos em movimento. 

Seguem-se outros usos, servem de pombais, de habitações, locais de merendas, vazadouros de lixos, têm vértices geodésicos acoplados, outros têm como vizinhos antenas de comunicações ou aerogeradores. Há aqueles que servem de suporte a torres de vigia, ou aqueles que ficam apenas com o seu processo de ruína e de resistência sem evocar qualquer uso. Alguns ainda conservam o mastro, por vezes também a entrosga, como se esta fosse um metrónomo a preparar a queda das mós.

No meio de um campo de cultivo surgem os seus vestígios, nalguns dos casos, amontoados, já sem nexo construtivo. Marcam, contudo, um espaço diferenciado. Por respeito, os arados contornam os moinhos e continuam a lavra e deixam naturalmente uma serventia. Depois da seara crescida, transformam-se em monumentos, faltando-lhes, em remota paragem, a “iluminação” suficiente para ascenderem à condição de um acontecimento na paisagem.

É discurso recorrente apelar à desgraça dos moinhos de vento, o quanto estão ao abandono, sem ninguém que olhe por eles. Contudo é também o respeito por estas ruínas e pela sua evolução que dá à questão do moinho de vento do Oeste o efeito de monumentalidade, sustentado, não no seu valor individual, mas nos inúmeros moinhos dispersos por este território representantes de vários estados de conservação:

“Aquele ainda tem o frechal de pedra em bom estado. Neste as mós estão sustentadas pelos sobrados onde permanecem o corvo e o tegão. Na colina em frente, encontra-se outro moinho, ainda com o capelo, o mastro, a entrosga e com a engrenagem a acompanhar a ruína da estrutura.”

Para as populações o moinho é uma das principais referências do local. Por isso, um simples círculo de pedras onde apenas são perceptíveis a forma e a soleira da porta do moinho têm, mesmo assim, um vínculo patrimonial.

Basta ver o quanto é importante o valor das ruínas, mesmo que escondidas na vegetação, mantém-se vivas as recordações quando a transmissão oral e a imaginação assim o determinam.

Antes de mais são memoriais únicos ao trabalho, a uma função económica. São profundos símbolos do labor humano, da actividade de moagem e da labuta pelo pão.

Um círculo de pedras, quase imperceptível, traz histórias que transcendem o moinho e chegam às épocas remotas desse “tempo dos mouros” através de ditos herdados.

Quase todas as aldeias da região têm a referência de pelo menos um moinho que servia as populações, referência que se cruza com as histórias das gentes e dos lugares.

Os moinhos têm o seu ciclo de vida, também tomam novas funções, integram-se noutros contextos e pronunciam outros usos. Apesar das ruínas, mantêm-se incólumes ao alimentarem imaginários que saltam de aldeia em aldeia.

O moinho de vento no alto das colinas da Região Oeste é função e símbolo em simultâneo. O moinho ali está evocando o dinamismo da paisagem, desde a alvura das velas até ao mais elementar estado de ruína.

É neste contexto que os moinhos representam também o sentido de projecto que oscila entre o sucesso e a ruína. Os moinhos podem gerar uma grande intensidade de ideias, para que resultem algumas iniciativas com sucesso, sabendo que a ruína é intrínseca ao empreendimento.

Para inovar é necessário correr riscos e para isso há que conhecer e divulgar também o insucesso, aprender a contemplá-lo como se fizesse parte da nossa invenção diária e fosse a razão para celebrar as nossas melhores conquistas.

Saber lidar com o insucesso, com a convicção que para inovar é preciso agarrar novas ideias e transformá-las em projectos, alguns, necessariamente, poderão não resultar, mas têm um alto valor enquanto instrumentos de aprendizagem.


 


VALORIZAÇÃO DOS MOINHOS DE VENTO

 

A leitura do moinho em ruínas não pode ser vista como um caso permanente de insucesso, de projecto falhado, pelo contrário, o moinho de vento teve outros tempos onde desempenhou um papel fulcral na história da humanidade e na atualidade há que redobrar o esforço na sua valorização e conservação e de perspetivar o seu futuro enquanto referencial para a consolidação do Oeste como região.

Note-se que sempre houve moinhos de vento em ruínas no território do Oeste. Conhece-se casos de moinhos que se ficaram pela construção da torre em alvenaria e que por alguma razão nunca avançaram para a construção dos elementos em madeira, outros há, em que após a construção, constatou-se que os ventos no local não tinham a intensidade e a regularidade para viabilizar a moagem, noutros sucedeu a quebra na transmissão geracional da arte…

Na atualidade, os saberes associados à construção dos moinhos e à sua laboração não desapareceram apesar do reduzido número de entusiastas que ainda se prestam, enquanto profissionais ou como voluntários, a recuperar moinhos e mesmo a colocá-los a funcionar para a sua função original, a farinação.

Importa referir que a maior parte das recuperações dos moinhos da Região Oeste têm sido feitas para a função habitacional, mas não deixam de ocorrer iniciativas municipais e de particulares de recuperação de moinhos de vento para a sua função original ainda que longe do desejável.

Valendo-me de documento elaborado por Fátima Nunes (dinamizadora de projeto de valorização dos moinhos de vento na Moita dos Ferreiros assente na atividade moageira e na sensibilização das populações para os saberes ligados ao moinho), poder-se-á estruturar uma política de valorização dos moinhos de vento nos seguintes eixos: Um, nos aspetos institucionais e normativos facilitadores da atividade tradicional de moagem e da proteção dos moinhos e dos seus engenhos, assegurando o direito ao vento; dois, na educação e formação em molinologia nas mais diversas vertentes, com relevo na habilitação para a construção e laboração dos moinhos; três, na integração dos moinhos em rotas de caminhos pedestres e em projetos de turismo cultural e da natureza; quatro, na viabilidade da atividade de moagem tradicional com base em cereais nacionais e com a diferenciação do produto em pequenas escalas de produção.

Que se comece pelas raízes e que se compreendam os projetos de reforço da identidade regional, no caso, através da valorização dos moinhos, mas também da continuidade do pontilhado das ruínas a marcar a paisagem e que deles extravase toda a carga simbólica capaz de impulsionar o desenvolvimento local como um projeto aglutinador das suas gentes.

 

FOTO DA PÁGINA NO BADALADAS



29 maio 2021

RESTAURO DAS PINTURAS PERTENCENTES À IGREJA DE SÃO TIAGO

 Página PATRIMÓNIOS, jornal BADALADAS, 28 de maio 2021


DA ESCURIDÃO À LUZ ! A CONSERVAÇÃO E RESTAURO DAS PINTURAS PERTENCENTES À IGREJA DE SÃO TIAGO

 

Milene Santos

Daniela Morgadinho

 

Nota inicial: Na página PATRIMÓNIOS, do passado mês de Abril, demos a conhecer a empresa Salvaguardar que se dedica à conservação e restauro de bens culturais. Lá se fazia referência ao notável restauro das quatro telas da Igreja de São Tiago, em Torres Vedras. Na página de hoje são as próprias autoras que relatam, de forma sucinta, os passos daquele trabalho.

No âmbito de um protocolo realizado, no ano de 2018, entre a Paróquia de Torres Vedras e o Projeto Salvaguardar (projeto dedicado à preservação, conservação e restauro de bens culturais), foi realizada a intervenção de um conjunto de quatro pinturas de cavalete, esquecidas no tempo, pertencentes à Igreja de São Tiago em Torres Vedras, com a representação dos quatro Doutores da Igreja Latina – “São Jerónimo”, “Santo Agostinho”, “Santo Ambrósio” e “São Gregório Magno”.

O precursor desta iniciativa foi o responsável pelo património religioso de Torres Vedras, na pessoa do Padre Daniel Henriques, atual Bispo Auxiliar de Lisboa, que no ano de 2018 nos convidou para esta parceria, que proporcionou uma intervenção de urgência para a salvaguarda destas pinturas, pois esta Igreja já não se encontra ao culto há alguns anos, tendo adquirido outras funções que acabaram por desvirtuar o espaço.

A Igreja de São Tiago resulta da reconstrução de um edifício primitivo do séc. XVI que sofreu várias obras também no séc. XVIII. É uma Igreja com um espólio muito importante: azulejos do séc. XVIII; retábulos barrocos; frisos com mármores embutidos; pia batismal do séc. XVI e um cadeiral no coro alto, datado de 1640, maravilhoso exemplar em talha maneirista. As pinturas em estudo encontram-se nos retábulos laterais pertencentes ao altar-mor, totalmente repintados, que ocultam belíssimos marmoreados.

Esta intervenção teve início com um exaustivo levantamento do estado de conservação através do registo fotográfico, mapeamentos de danos e patologias e recolha de amostras para análise (identificação das fibras do suporte têxtil; identificação da camada de preparação, pigmentos e aglutinantes presentes na composição das tintas). Após este levantamento, estipulou-se a metodologia de intervenção e os materiais mais adequados, para este conjunto pictórico, respeitando os princípios éticos da profissão do Conservador-restaurador. Estes princípios são pautados pela atuação em conservação, flexíveis e variáveis no que respeita às metodologias e aos materiais a utilizar, com o intuito de salvaguardar a integridade do valor cultural do objeto, restabelecendo a sua unidade potencial, sem falsificações históricas e artísticas, ou seja, sem anular as preciosas marcas do tempo. Deste modo, qualquer intervenção, implica um grande sentido de responsabilidade, renunciando qualquer atuação criadora, porque o Conservador-restaurador não é um artista!

            A intervenção começou com a desmontagem das molduras e das pinturas do retábulo onde estas se encontram inseridas. De seguida, foram acondicionadas e transportadas para atelier, onde se realizaram os tratamentos de conservação e restauro.

            Após registo fotográfico e recolha de amostras, começou-se por realizar uma pré-fixação e uma proteção pontual das camadas pictóricas, para dar início aos tratamentos mais “agressivos” do suporte, evitando danos na superfície. De seguida, procedeu-se a uma limpeza mecânica e superficial do verso da pintura, para libertar o suporte de sujidades soltas e dar continuidade aos restantes tratamentos: planificação do suporte (estas pinturas encontravam-se bastante desidratadas e com deformações); limpeza mecânica do verso (limpeza mais aprofundada, com o intuito de remover as intervenções anteriores e as sujidades mais impregnadas nas fibras têxteis); tratamentos de lacunas, rasgões e aplicação de bandas. Este conjunto de procedimentos realizados no verso, conferiram a estabilidade, outrora perdida, necessária a estes suportes têxteis.

    Tratamento do suporte têxtil - remoção de intervenções anteriores


Realizou-se de seguida, o tratamento mais desafiante e revelador - a limpeza química da superfície. Após vários testes de limpeza, concluímos que estávamos perante um repinte integral, que ocultava a originalidade de uma fantástica pintura neoclássica de extrema qualidade, comparada com o repinte presente. Esta limpeza foi realizada em três fases, uma primeira, onde foi removida uma camada de sujidades impregnadas (fuligem de velas e substâncias oleosas) permitindo a observação clara dos repintes. 

Numa segunda fase, foi removido o repinte de fraca qualidade, pondo a descoberta a pintura original e por último, removeu-se o verniz original amarelecido, que desvirtuava a paleta cromática do artista. Este tratamento foi muito revelador, porque no caso particular de “São Jerónimo” era possível observar este Santo num ambiente “caseiro” e vestido com hábito cardinalício, antes do tratamento da limpeza e após o levantamento do repinte a representação passou a ser numa gruta e semi-nu (representação esta também muito comum). Nos restantes Doutores da Igreja, foram revelados alguns dos atributos que os identificam e caracterizam. 

  

                            Limpeza química e mecânica da pintura "São Jerónimo"

  

Por último foram realizados os preenchimentos ao nível das camadas de preparação nas lacunas para posterior reintegração cromática (retoques de cor apenas nas áreas de lacuna, através de um método diferenciado) e aplicação de uma camada de proteção de origem natural (verniz). Foi necessário a realização de grades extensíveis (inexistentes, as telas encontravam-se pregadas diretamente a painéis de madeira, o que conferiu danos acentuados nas pinturas). 

O engradamento permitiu uma correta extensão do suporte, prevenindo futuras deformações. Após a intervenção as pinturas foram novamente recolocadas no retábulo, assim como as suas molduras em talha dourada, que também passaram por um processo de conservação e restauro.



                  Antes e após intervenção da pintura "São Jerónimo"

No decorrer deste estudo, em contacto com o Doutor Vítor Serrão (Historiador de arte), veio confirmar-se a qualidade destas pinturas, datando-as dos finais do séc. XVIII - estilo neoclássico, possivelmente da mão de Manuel António de Góis, contudo é um trabalho ainda em investigação, sendo necessário uma interdisciplinaridade entre diversos especialistas de várias áreas, que permitam concluir mais sobre este conjunto.

Foi no dia 25 de julho de 2018, no “Recital de Música Barroca e Renascentista” – evento realizado na Igreja de São Tiago, que foram apresentadas duas das pinturas já intervencionadas, com uma breve explicação dos tratamentos realizados, ao público presente.

Por último gostaríamos de salientar o programa “ISA - Património”, promovido pela Câmara de Torres Vedras, que permite que este local de interesse público esteja aberto, convidando todos a visitarem estas fantásticas pinturas ao vivo.

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A página no BADALADAS:



           

28 maio 2021

“SALVAGUARDAR”: UM HOSPITAL DE BENS CULTURAIS

 Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS de 30 de Abril de 2021


“SALVAGUARDAR”: UM HOSPITAL DE BENS CULTURAIS

Texto: Joaquim Moedas Duarte

 

Em 23 de Junho do ano passado, lia-se no Diário de Notícias:

«Mais um restauro desastroso de uma obra de arte em Espanha – O quadro de Bartolomé Esteban Murillo mostrava a Virgem Maria mas ficou irreconhecível depois do restauro feito por um amador. Especialistas pedem legislação mais apertada para conservação do património». E recordava o que se havia passado em 2012: «o restauro por parte de uma paroquiana idosa de um fresco na Igreja do Santuário da Misericórdia em Borja (Aragão) teve resultados desastrosos».

Tal como em Espanha, o nosso país está repleto de obras de arte que necessitam de restauro: esculturas, móveis, pinturas, talha de madeira, azulejos, etc… E também por cá existem pessoas com boa vontade mas sem preparação técnica. A procura de soluções baratas leva a resultados calamitosos e, quase sempre, irreparáveis.

No concelho de Torres Vedras a situação tem vindo a melhorar. Escrevemos nesta página, em Junho de 2019, a propósito de uma exposição de Arte Sacra no Turcifal, organizada pela Paróquia, que «há cada vez mais a consciência de que o Estado não tem meios suficientes para garantir a preservação deste vasto património. Como consequência, as populações, organizadas em torno de Comissões ou da Paróquia, com o apoio das Juntas de Freguesia e da Câmara Municipal, têm sido os principais interventores na procura de soluções para a inevitável degradação do Património cultural». Foi nessa exposição que apreciámos pela primeira vez os trabalhos da “Salvaguardar”, de que falaremos adiante.

 

UM BOM EXEMPLO

Há dias, fomos contactados por um investigador de História da Arte, no âmbito da Universidade de Coimbra, interessado em obter informações sobre um escultor do séc. XVI que trabalhou para a Infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel I. Essa Infanta foi a fundadora e financiadora do Convento dos frades arrábidos, no Barro, arredores de T Vedras, para o qual terá encomendado ao dito escultor uma imagem de Nª Srª das Dores, a qual, aquando da implantação da República, foi levada, por precaução, para a aldeia do Carvalhal, de onde já não saiu. O investigador pedia-nos fotografias da imagem. Sim, tínhamos fotos antigas mas quisemos actualizá-las e, para isso, procurámos o pároco, P. Paulo Antunes, que já conhecíamos como homem dedicado à conservação do património de arte sacra das suas paróquias. Foi ele que nos disse que a referida imagem baixara ao hospital para restauro.

A metáfora do hospital é nossa. Tal como nós, os objectos de arte deterioram-se com o tempo. Os de madeira, dado que esta é um material orgânico, são influenciados pelas condições ambientais – humidade, temperatura e outras – e por agentes bióticos como as bactérias, os fungos ou os insectos xilófagos. O mesmo acontece às telas de pintura antiga, e a tudo o mais.

Perante a nossa curiosidade, P. Paulo levou-nos à aldeia de Caixaria (Dois Portos) onde encontrámos o tal hospital: numa antiga Escola Primária, agora devoluta e cedida para o efeito, está sediada a “Salvaguardar”, uma pequena empresa de “Conservação e Restauro de Bens Culturais”, onde exercem a sua profissão de Conservadoras – Restauradoras a Milene Santos e a Daniela Morgadinho. Lá fomos encontrar as duas jovens, luvas nas mãos, a tratarem, com eficiência e desvelo, a imagem de Nª Srª dos Anjos.


Na antiga sala de aula, transformada em oficina, viam-se muitas outras peças de arte sacra, em diversas fases do processo restaurador: imagens de terracota, molduras de talha dourada, imagens de roca ou estofadas, móveis de madeira, crucifixos com imagens de marfim. Isto implica conhecimento teórico e elevada competência técnica. Já sabíamos que assim era quando observámos o notável trabalho de restauro, realizado em 2018/19 por estas duas profissionais nas quatro telas do séc. XVIII, dos “Doutores da Igreja” que podemos admirar na capela mór da Igreja de Santiago, em Torres Vedras. O relatório final que nos facultaram é um registo impressionante daquele notabilíssimo trabalho.


Agora, na oficina, víamos ao vivo como se tratam as doenças de tantos bens culturais. A imagem que procurávamos ali estava, com as mazelas bem à vista mas preservando a beleza secular que tantas gerações veneraram.






AS MÃOS QUE CURAM

 

Daniela Morgadinho e Milene Santos têm Licenciatura e Mestrado em Conservação e Restauro, formação que foram completando com passagens por experiências especializadas em Madrid, entre outras.

A opção profissional não foi casual. No caso da Daniela, resultou do gosto precoce pela preservação na área das madeiras, que a levou à especialização no mobiliário (Mestrado), talha e escultura. Milene, não vendo futuro na arqueologia e egiptologia, áreas da sua paixão, dedicou-se à conservação e restauro com especialização na área de pintura de cavalete. Uma e outra sentem-se bem entre obras de arte, antigas ou mais recentes, que necessitem dos cuidados especializados de quem as sabe e gosta de tratar.

Começaram por trabalhar em diversas empresas, mas a experiência adquirida bem como os contactos estreitos que mantêm com professores e formadores, deram-lhes alento para, em 2016, se lançarem no projecto próprio que designaram por “Salvaguardar – Conservação e Restauro de Bens Culturais”. Em 2019 fundaram a  TENTO – Associação de Conservação e Restauro de Torres Vedras, o que proporcionou uma parceria com a Câmara Municipal de Torres Vedras. Desta colaboração resultou a cedência da antiga Escola Primária da Caixaria onde exercem o seu trabalho.

Da qualidade e extensão do seu labor falam os registos das muitas intervenções na nossa região. Sem sermos exaustivos, para além das citadas telas do Doutores da Igreja, referimos: Senhor Jesus Morto, escultura policromada do séc. XVIII, do Turcifal; património móvel (escultura e mobiliário) e imóvel (pintura mural e azulejaria) no Convento de Charnais, na Merceana; dois quadros magníficos de pintura sobre tábua, do séc. XVI – Baptismo de Cristo e Pentecostes – do Turcifal.

Milene e Daniela não se limitam à realização material. Assim o disseram: «No futuro pretendemos criar parcerias com outras Associações e entidades relacionadas com o património; fortalecer a ligação com a comunidade e as escolas através do serviço educativo com acções de formação para a preservação e valorização do património; e realização de investigações, estudos e intercâmbios, relacionados com a cultura e o património».






Voltando à metáfora do hospital, a "Salvaguardar" não faz apenas medicina curativa, preocupa-se também com a preventiva. A bem do nosso Património Cultural Material.









O CASO DE RUNA: DESRESPEITO PELA PAISAGEM E PELO SÍTIO?

 Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS de 26 de Março de 2021



O CASO DE RUNA: DESRESPEITO PELA PAISAGEM E PELO SÍTIO?

 

Em Runa (Torres Vedras) a população reagiu vigorosamente contra o projecto de construção de uma subestação eléctrica praticamente dentro do aglomerado urbano. Havia alternativas quanto à localização, mas parece que a opção teve em conta apenas critérios económicos, pois é mais barato construir num lugar onde já existem acessos viários.

A Associação para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras foi a Runa e falou com cidadãos que não se conformam. Fizemos algumas perguntas:

- toda a população foi auscultada e informada em tempo oportuno?

- a ocupação de terrenos de elevada aptidão agrícola é economicamente sustentável?

- a comprovada existência de vestígios arqueológicos, que atestam ocupação humana do Calcolítico e do tempo dos Romanos, foi tida em conta?

A resposta a estas questões foi: NÃO! 

Que tem uma Associação do Património a ver com o problema? Tem e muito. O conceito de Património ultrapassou há muito a limitação inicial que o ligava aos monumentos edificados e abarca hoje uma multiplicidade de perspectivas que ninguém contesta. Uma delas é a ideia de que as paisagens são Património que deve ser defendido e preservado; e as características específicas de cada território devem ser abordadas como elementos essenciais para a identidade e sentido de pertença das populações. Isso mesmo o reconheceu a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, que, na sua Conferência Geral realizada em Paris de 9 de Novembro a 12 de Dezembro de 1962 aprovou uma Recomendação Sobre a Salvaguarda da Beleza e do Carácter das Paisagens e dos Sítios. Neste documento, a Conferência Geral recomenda aos Estados membros, de que Portugal faz parte, «que apliquem as presentes disposições, adoptando (…) medidas com vista a fazer cumprir, nos territórios sob a sua jurisdição, as normas e princípios formulados na presente recomendação». Este importante documento – que faz parte dos modernos fundamentos da planificação e ordenamento do território – contém diversas especificações que é oportuno relembrar aqui. No Cap. II – Princípios Gerais, diz expressamente:

«As medidas preventivas para a protecção das paisagens e dos sítios deverão procurar protege-los contra os perigos que os ameaçam. Estas medidas deverão incluir, especialmente, a fiscalização dos trabalhos e das actividades susceptíveis de ameaçarem as paisagens e os sítios, nomeadamente:

(…)

c) Os cabos eléctricos de alta ou baixa tensão, as instalações de produção e transporte de energia, os aeródromos, (…), etc.». (sublinhado nosso)

O texto não podia ser mais claro. Vai direitinho ao que que se projecta para Runa: uma instalação eléctrica de alta potência com equipamentos destinados à transmissão e distribuição de energia eléctrica, além de instalações de proteção e controle, com postes de grande dimensão e densidade de cabos eléctricos que passarão a fazer parte da paisagem local, à beira da rua que liga Runa ao Penedo.




UM ATENTADO À PAISAGEM  E AO SÍTIO?

Resta saber, portanto, se aquela paisagem e aquele sítio onde vai ser construída a subestação, têm características que os recomendem como lugares a salvaguardar.

Não temos dúvidas em afirmar que sim. A quem as tenha, recomendamos uma visita vagarosa e atenta ao local. Adiantando tal visita, traçamos desde já o esboço do que um olhar atento descobrirá.

Primeira surpresa: a subestação vai ser construída sobre terrenos de elevadíssima aptidão agrícola, o característico terreno de aluvião adjacente à margem de um curso fluvial – aqui, é um trecho do rio Sizandro. Um homem já idoso, que nos acompanhava, dizia com desalento: “constroem nestes terrenos tão ricos e qualquer dia comemos betão…”. A Leste, a pouco mais de cem metros, desembocamos num lugar paradisíaco, ao som do canto das aves, na faina da nidificação, e das águas do rio sobre o muro do açude onde, poucos anos há, laborava uma azenha. Era ali que os gaiatos vinham nadar no Verão, saltando da velha ponte, de perfil medieval, que liga as duas margens. A Quinta da Granja, conhecida exploração agrícola, é mesmo ali ao lado. Mais adiante, as ruínas da Quinta da Casa Boa.

Caminhemos agora para Norte. Um pouco adiante chegamos ao Penedo. Do lado esquerdo, as ruínas da Quinta das Pederneiras, na base do formoso monte onde, há cerca de 4 500 anos, viveu uma comunidade da Idade do Cobre, abundantemente documentada pelas prospecções arqueológicas de Aurélio Ricardo Belo, Leonel Trindade e Konrad Spindler que desenterraram  centenas de peças, hoje guardadas no Museu Municipal de Torres Vedras. Outras pesquisas locais de Ricardo Belo trouxeram à luz do dia um espólio arqueológico do início da nossa era que nos permite inferir que a povoação do Penedo assenta sobre uma villa rustica ou mesmo um pequeno povoado Romano, tanto mais que por aqui passavam importantes vias romanas. Uma hipótese plausível é a existência de vestígios dessas vias no próprio local onde se projecta a subestação eléctrica.

Parando no sopé do monte do Penedo, olhando para poente, descortinamos outra várzea riquíssima que vai até ao antigo Lar de Veteranos Militares, mandado construir pela princesa Dona Francisca Benedita, filha do rei D. José. Lá está o grande edifício dos séculos XVIII/XIX, bem visível ao longe, na antiga Quinta de Alcobaça. Sobranceira a ele, ergue-se a colina onde alvejam as velas do moinho do Duque e, a meia encosta, os muros do pequeno cemitério em que repousam antigos combatentes da primeira Guerra Mundial.

Se alongarmos a vista pela linha do horizonte, vamos descortinando as elevações do Barrigudo e da Portucheira, por entre as quais passam a estrada, o rio e o caminho de ferro, a caminho da cidade de Torres Vedras. Ali perto existem dois antigos fornos de cal, exemplares magníficos de património industrial. Mais para Sudoeste, o alto do Figueiredo e, na sequência, as colinas que bordejam a estrada para a Caixaria, Ribaldeira e Dois Portos, mais a Sul.

Milénios de História humana contemplam o visitante!

Pode contestar-se que esta visão panorâmica excede em muito o local onde se projecta a construção da subestação. É verdade, mas o que pretendemos mostrar é que um sítio nunca se limita ao espaço físico mas implica envolvência, extensão contextualizadora. Amplidão de olhar que pode ser irremediavelmente comprometida com um detalhe dissonante.

A este propósito, um habitante local, conhecedor desta História, dizia-nos: “Para as povoações de Runa e Penedo, a História e a envolvente paisagística são o melhor activo para o futuro. Foi feito o Parque de lazer, pensamos num Parque de autocaravanas, projectamos um roteiro pedestre que ligue os diversos pontos de interesse… Há pessoas de fora que procuram casas para recuperar e aqui viverem, fartos da fealdade suburbana de Lisboa. Não vão querer viver à beira de uma subestação eléctrica. Temos de defender o potencial histórico e paisagístico que é uma esperança para os nossos filhos.”

Paulo Carvalho, investigador dos fenómenos de transformação e sustentabilidade do mundo rural confirma:

«A definição e promoção de uma imagem territorial de individualidade e especificidade, alicerçada em características únicas e exclusivas, e de qualidade, em muito centrada nas identidades e recursos simbólicos de cada lugar, (…) é um caminho de revalorização dos territórios onde se redescobrem novas centralidades com base na qualidade, e afinal a afirmação das teses territorialistas de desenvolvimento, as que melhor respondem às maiores exigências sociais e de cidadania participativa».(in: “O Ecomuseu da Serra da Lousã: desafio ou utopia?”. 1º Congresso de Estudos Rurais, Vila Real, 2001)

 

A MELHOR DECISÃO?

A decisão de ali construir a subestação eléctrica foi da empresa Infraestruturas de Portugal. Houve um período de consulta pública mas, como é costume, para além do edital costumeiro, não se fez publicidade sobre o mesmo. Fez-se uma sessão restrita nos Paços do Concelho, mas não se organizaram sessões de esclarecimento e de auscultação pública com participação alargada. O período de consulta pública caducou e a população foi posta perante uma decisão que a afronta e lhe desagrada profundamente.

No processo de decisão foi ouvida a Agência Portuguesa do Ambiente que levantou sérias questões sobre a pertinência daquela localização, mas foi ignorada, o seu parecer não era vinculativo – como nada é, quando as decisões são tomadas nos gabinetes e as consultas públicas não passam de pró-formas para iludir a democracia...

Acabámos o passeio por estes lugares, exemplares magníficos do que a UNESCO considera necessário salvaguardar. É aqui, meus senhores, às portas das antiquíssimas povoações de Runa e do Penedo, que se situam as paisagens e os sítios que uma prosaica subestação eléctrica pode macular de modo irreversível.

A Direcção

da Associação para a Defesa e Divulgação

do Património Cultural de Torres Vedras.

 

 

 

 

 

 

 


25 fevereiro 2021

CARNAVAL DE TORRES VEDRAS A PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DA HUMANIDADE?

 

Página «PATRIMÓNIOS» no jornal "BADALADAS" | 26 FEVEREIRO 2021


CARNAVAL DE TORRES VEDRAS A PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL DA HUMANIDADE?



   O Diário da República, 2ª Série, de 13 de Janeiro p. passado publicou um Anúncio de Consulta Pública, pelo prazo de 30 dias, “para efeitos de inscrição do «Carnaval de Torres Vedras» no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial”. Mal andaria esta Associação do Património se não interviesse nesta consulta e, por isso, enviámos à Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) – entidade que organiza o processo – o nosso parecer devidamente fundamentado. Sendo um texto longo, não caberá aqui transcrevê-lo, mas consideramos nosso dever dar conta do essencial da nossa posição discordante acerca daquela pretensão.

   Observação preliminar: como torrienses, partilhamos com os nossos concidadãos o gosto pelos divertimentos carnavalescos, uma prática festiva que há muito faz parte da nossa convivência social. Muitos recordarão que, durante 21 anos, publicámos na semana de Carnaval a Revista O BARRETE, que se distinguiu pela sátira mordaz e certeira, em cartoons e textos de reconhecida graça e projecção local.  Gostamos de brincar ao Carnaval!

A nossa perspectiva de abordagem pauta-se pela legislação nacional sobre Património Cultural e os documentos internacionais sobre esta matéria, nomeadamente a “Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial”, aprovada pela UNESCO na sua reunião de Paris em 17 de Outubro de 2003.

A iniciativa municipal em apreciação resulta de uma ideia apresentada pelo então Presidente da Câmara Municipal de Torres Vedras, Carlos Miguel, ao jornal local Badaladas, em 11 de Julho de 2014, que informava ter sido formalizada, no início daquele ano, a candidatura do Carnaval de Torres à classificação de Património Cultural Imaterial da Humanidade, conforme os cânones definidos pela UNESCO.

Verificamos que a ideia avançou e se transformou no processo que esteve em consulta pública, dado que o procedimento de inventariação nacional, no âmbito da legislação em vigor, é necessário para a posterior candidatura à “Lista Representativa do Património Imaterial da Humanidade”.

Acolhido e defendido no seio da UNESCO, o conceito de Património Cultural Imaterial visa muito justamente relevar a importância de certas manifestações sociais e culturais da Humanidade em que se afirmam valores culturais e humanos, que pela sua originalidade e representatividade histórica, social, artística e cultural se impõe à admiração dos povos, reconhecendo-se a importância de os valorizar com uma distinção qualificativa.

Será que os festejos carnavalescos de Torres Vedras se enquadram neste nível de práticas?

CRITÉRIOS DE APRECIAÇÃO

Em nosso entender, os critérios apontados no Artigo 10º do Decreto-Lei nº 149/2015, devem forçosamente articular-se com o que dispõe o Artigo 2º da Lei nº 107/2001, (que “estabelece as bases da política e do regime de protecção e valorização do património cultural). Aí se aponta que “integram o património cultural todos os bens que, sendo testemunhos com valor de civilização ou de cultura portadores de interesse cultural relevante, devam ser objecto de especial protecção e valorização.”

Mais adiante afirma que “o interesse cultural relevante (…) dos bens que integram o património cultural reflectirá valores de memória, antiguidade, autenticidade, originalidade, raridade, singularidade ou exemplaridade. (sublinhado nosso).

Não pondo em causa a significativa adesão da população torriense aos festejos carnavalescos e a consideração de que estes se tornaram prática anual a partir dos anos 20 do século XX, em vão procuramos neles a expressão de muitos daqueles valores como sejam a autenticidade, a originalidade, a raridade, a singularidade ou a exemplaridade. De norte a sul do país encontramos festejos de Carnaval, com mais ou menos variantes, mas sem diferenças significativas.

Na proposta apresentada à DGPC, salienta-se como ponto decisivo a participação da comunidade torriense em todas as realizações carnavalescas. Seria este, até, o critério decisivo para a sua inclusão no inventário nacional do Património Cultural Imaterial. No entanto, bem sabemos que se trata de uma actividade planeada e programada por profissionais que garantem a produção de carros alegóricos, a organização dos corsos, a contratação de grupos de bombos do Norte do país, a animação musical nocturna, a recepção e cobrança de taxas dos inúmeros bares de ocasião, espalhados por toda a cidade, e a garantia de segurança através de Seguradoras externas com seu corpo de guardas. Todo este arsenal organizativo é garantido pela empresa municipal Promotorres. E aquilo que chegou a ter, há uns bons anos atrás, intuitos de beneficência, transformou-se num negócio de muitos milhões de Euros. Leia-se, a este propósito, o oportuno artigo de António Carneiro, publicado neste jornal na passada semana, intitulado «Carnaval de Torres – Morte e ressurreição – Da “municipalização” do evento».

O “Carnaval mais português de Portugal” – frase propagandística que pegou e é glosada exaustivamente desde há alguns anos – tem uma grande participação popular, mais ou menos espontânea, de muitos foliões e forasteiros que se mascaram, desfilam, dançam e, sobretudo, bebem muito. No fundo, divertem-se… Mas configurará isto uma candidatura a Património Imaterial?

Recuperando os requisitos da UNESCO, no documento acima referido, não se lhe conhece nenhuma expressão artística específica de representação, dança, expressão musical ou artefacto com características identitárias.

Mesmo como prática social, o fenómeno das “matrafonas” – homens mascarados de mulheres – apresentado como a grande originalidade do Carnaval de Torres Vedras, não cabe na categoria de manifestação cultural singular e original pois encontramo-lo, com muitas variações, em festejos carnavalescos de outros lugares do país. A matrafona não foi inventada em Torres Vedras, é uma prática entrudesca, exemplo do “mundo virado ao contrário”, característico de antiquíssimos festejos, anteriores à nacionalidade e com representações comprovadas, pelo menos, desde a Idade Média, em diversas manifestações.

A criatividade está condicionada superiormente pela empresa organizadora e pela autarquia que deliberam sobre o TEMA de cada carnaval, aprovam os conteúdos dos carros alegóricos, subsidiam grupos de mascarados sobre esse tema, premiando-os em concursos, desincentivando assim outras iniciativas e até a espontaneidade individual. Registe-se, igualmente, que todo o património material associado ao festejo não tem carácter tradicional. Tanto os carros alegóricos como o “monumento ao Carnaval”, erigido no ponto mais central da cidade, são de fibra de vidro, produzidos industrialmente em empresas especializadas em cenários e produções publicitárias.

 

EM CONCLUSÃO 

Em nosso entender, o Carnaval de Torres Vedras não integra, manifestamente, o conceito de Património Cultural Imaterial pois não corresponde aos critérios enumerados na legislação nacional, pelo que não vemos tais festejos com características que suportem a sua inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

 Estes festejos, ainda que possam ter algumas características diferenciadoras em relação a outros congéneres, também não se enquadram no conjunto de parâmetros definidos na Convenção da UNESCO para uma classificação a Património Cultural Imaterial da Humanidade, dado que as práticas e os valores que põe em jogo se referem muito mais à contemporaneidade do que a tradições identitárias que reflictam um modo cultural próprio de vivências específicas de uma comunidade. No nosso concelho há outras manifestações culturais que, essas sim, poderiam ajustar-se aos critérios exigidos.  

Esta candidatura será uma ousada operação de marketing, como temos ouvido, mais que uma vez, aos nossos autarcas. Que a Câmara Municipal a protagonize, é natural e resulta de uma bem compreensível intenção de rentabilizar um Carnaval cada vez mais oneroso e exigente. Mas daí a transformá-lo em Património Cultural Imaterial da Humanidade parece-nos inteiramente desajustado e irrealista.

 

A DIRECÇÃO DA

ASSOCIAÇÃO PARA A DEFESA E DIVULGAÇÃO

DO PATRIMÓNIO CULTURAL DE TORRES VEDRAS

26 Fevereiro 2021

 



 

 

 

                                       

 

                               


Ainda os frontais de altar em guadameci da igreja da Misericórdia de Torres Vedras

 PÁGINA «PATRIMÓNIOS» NO JORNAL "BADALADAS" | 29 JANEIRO 2021


Ainda os frontais de altar em guadameci

da igreja da Misericórdia de Torres Vedras




 

Franklin Pereira, reconhecido investigador desta área particular da História da Arte, apontou alguns erros e imprecisões do nosso artigo, publicado em Novembro passado. Por solicitação nossa, escreveu o texto que ora se publica. É uma colaboração que honra o Badaladas e que agradecemos. | Joaquim Moedas Duarte

 

Publicado na edição de 27 de Novembro do ano anterior, o artigo sobre estes frontais apresenta alguns erros.

Não está documentada qualquer referência ao guadameci em países árabes; apesar da fixação da folha de ouro ou prata sobre couro ser um método milenar – já existia na Egipto faraónico –, não é isso que torna uma peça trabalhada pela técnica do guadameci, pois há outros procedimentos acrescidos, apenas desenvolvidos na Ibéria islâmica. Também a descrição técnica apresentada nesse artigo é relativa ao método ibérico (que não é o dos frontais em causa), cuja existência nos faz recuar ao século XII.

Ora a fama da manufactura – não só de Córdova, mas de outras cidades, como Lisboa e Évora – espalhava-se pela Europa nobre e eclesiástica. A produção lusitana atingia ainda a Itália, o Brasil, Moçambique, Goa, Diu e mesmo o Japão, no século XVI.

A técnica ibérica, elaborada recorrendo a rectângulos de couro de carneiro, criava painéis lisos cobertos com folha de prata, pintura a óleo e texturação e, em particular, a cor dourada dada por um verniz resultado da cozedura de ingredientes vegetais. A texturação por punções de pouco recorte (para não danificar a superfície prateada) chama-se “granido” em Portugal (de acordo com o regimento dos guadamecileiros, no famoso Livro dos Regimentos, de Lisboa, de 1572) ou “picado” em Espanha da mesma época. O termo “lavrado” diz respeito a outra arte do couro, aquela que apresenta desenhos de algum modo vincados na superfície. Na época românica e gótica, o couro era lavrado por incisão; desde o Renascimento, foi a cadeira portuguesa encourada a peça mais saliente (e famosa na Europa nobre), e o couro bovino era lavrado por cinzéis não-cortantes.

Em poucas palavras, os motivos dos guadamecis derivavam inicialmente da arte mudéjar tardia (vulgo “arabescos”), mas sobretudo de desenhos florais (ditos “ao brocado”); o Renascimento impôs motivos “ao grotesco” e, por vezes, a encomenda personalizada incluía pintura devocional (a “imaginária”), heráldica e paisagens. Entre os chamados “ofícios mecânicos”, os guadamecileiros eram uma elite, não só devido ao processo complexo e luxuoso de elaboração, mas por terem como compradores a classe poderosa; a par de ourives e tapeceiros, permaneciam na esfera do poder régio, havendo dados que atestam o cargo de “guadamecileiro do rei” no tempo de D. Manuel e D. João III. As obrigações dos ofícios – os regimentos – eram rígidas, e um mestre estava vinculado ao seu trabalho, com diploma oficializado pela câmara municipal. Podia um mestre ter “tenda”/oficina aberta e receber ajudantes (oficiais), mas ter apenas um aprendiz, geralmente um adolescente.

 Terá sido devido ao comércio via Feitoria da Flandres e à permanência de artífices portugueses em Amesterdão em inícios do século XVII que mestres locais criaram oficinas nos Países Baixos; estas seguiam inicialmente os métodos que deram fama à península.

O ano de 1628 marca uma viragem acentuada: a invenção, em Haia e Amesterdão, de uma prensa e moldes em madeira talhada permitiu dar relevo ao couro (já não carneiro, mas bezerro) e adaptá-lo a novos desenhos do Barroco. A repetição acelerava a produção, e as novas fábricas empregavam dezenas de artífices e consumiam centenas de peles. A famosa “L’Encyclopédie: recueil de planches sur les sciences, les arts libéraux et les arts méchaniques, avec leur explication: Arts du Cuir”, de  Diderot e Alembert, de  1771, tem duas gravuras relativas a este trabalho industrial.  A novidade e atracção destes motivos expandiu-se e, importados pela Península, contribuíram para o drástico declinar da produção.

 

 OS EXEMPLARES DA MISERICÓRDIA DE TORRES VEDRAS

 

É neste contexto centro-europeu que são criados estes guadamecis vistos em Torres Vedras: o desenho é atribuído ao francês Daniel Marot (1661-1752), arquitecto e desenhador de ornamento, ido para os Países Baixos em 1685 para escapar à intolerância religiosa, pois era huguenote. Os seus desenhos foram editados em 1702 e 1712, influenciando as artes decorativas de então, entre as quais a do guadameci industrial. 

Contrariamente a outros guadamecis dos Países Baixos, estes exemplos foram estampados por placa de metal; daí a texturação, que não foi realizada manualmente por punções.

Esta é a época mais repetitiva da prensagem dos guadamecis, com pouca variedade de desenhos. 

Este frontal com catorze rectângulos – um número elevado e único pela quantidade usada – em Torres Vedras data de 1703-1740, e carece, tal como outros, de um estudo dos inventários eclesiásticos: quem comprava, de onde vinham, qual o preço.

Os motivos expostos têm dois padrões. Um deles mostra duas aves afrontadas, com raminho no bico, sob uma estilização vegetalista em leque.

O outro motivo mostra um vaso de flores encimado por uma cúpula com franjas, entre estilizações florais e partes padronizadas. É este motivo que forma os grandes rectângulos, encimados por sanefas ou quadrados, com o mesmo padrão ou o descrito anteriormente, cortados e por vezes colados invertidos.

Padrões semelhantes encontram-se em uso na Igreja de Miragaia (perto da Alfândega do Porto), e na  Igreja do Santuário de Balsamão (Trás-os-Montes). Um frontal semelhante (motivo das aves) encontra-se na capela de Nossa Senhora do Carmo, em Murfacém (Almada). Outros dois frontais (de ambos os motivos) estão no Museu de Alberto Sampaio e vieram de Felgueiras, do Convento de Santa Maria Maior de Pombeiro.

Ainda a nível museológico, um frontal, existente nas reservas do Museu Nacional de Arte Antiga, repete o motivo das aves e poderá ser um dos três que, entre os cinco nas reservas, veio da capela do Forte da Ínsua, em Moledo do Minho – tal facto mostra a expansão do guadameci por todo o país, expansão esta mais saliente na época tardo-medieval e renascentista (período áureo da produção), em particular a sul de Coimbra, zona de maior influência do período islâmico/andalusí.

Outros guadamecis com estes desenhos estão no Museu de Etnografia e História da Póvoa de Varzim, e Museu Nogueira da Silva (Braga). Alguns estofos e biombos mostram semelhantes obras prensadas.

Um aspecto peculiar diz respeito à pintura manual, pois o artífice usou um pincel plano, com alguns pelos cortados: de uma só passagem, pintava várias linhas. O facto é particularmente visível nas pétalas das flores.

Tal como aconteceu com outros rectângulos de guadameci relevado por prensa, a montagem deveria ser feita após a sua importação por Espanha e Portugal, e formavam, finalmente, frontais de altar, estofos e biombos. 

Contudo, a arte estava já à beira da extinção, devido às novas modas e padrões de conforto nos interiores. Nas igrejas, a profusão da talha dourada relegou para segundo plano o guadameci. Tudo isso explica a drástica falta de exemplares que atestem a qualidade e diversidade desta arte, extinta em meados do século XVIII.

Alguns anos atrás, o Museu de Alberto Sampaio realizou um vídeo, onde explico o método ibérico e apresento uma série de obras em guadameci, incluso os dois desenhos semelhantes aos de Torres Vedras; o vídeo é de acesso livre e pode ser visionado em:

https://www.youtube.com/watch?v=413sMIxE5pQ

 

Franklin Pereira – guadamecileiro e investigador do ARTIS-Instituto de História da Arte / Faculdade de Letras / Universidade de Lisboa