12 março 2022

ISA PATRIMÓNIO 2022

 FORMAÇÃO E ACOMPANHAMENTO
A partir do próximo dia 14 de Março a Associação do Património vai colaborar, novamente, com o projecto ISA PATRIMÓNIO, uma excelente iniciativa da Câmara Municipal de Torres Vedras que teve início em 2005. É uma tarefa que tem vindo a ser desempenhada, desde 2012, por Joaquim Moedas Duarte, membro da Direcção da Associação do Património de Torres Vedras (ADDPCTV).
Todos os anos se renova a equipa de participantes, pessoas seniores, e nós procuramos ajudá-las a desempenharem melhor o seu trabalho. Para isso, faremos uma sessão inicial, no dia 14, com o grupo de 20 pessoas, em sala e, posteriormente, sessões nos próprios locais, com cada uma das dez equipas, constituídas por dois elementos, que irão assegurar a abertura diária desses espaços.
O projecto que, em 2005, teve início em quatro igrejas - Graça, Misericórdia, S. Pedro e Castelo - tem vindo a alargar-se e este ano abarca 10 igrejas, a saber:
Na cidade: Graça, Misericórdia, S. Pedro, Santiago, Amial e Castelo.
No concelho: Varatojo (convento), Turcifal, Santa Cruz e Sirol (Dois Portos).
Nestas singelas acções de formação temos como objectivo principal incutir nas pessoas o gosto pelo conhecimento mais profundo dos espaços em que vão estar ao longo deste ano. Não serão guias turísticos, agentes religiosos ou guardas vigilantes. Vão desempenhar o utilíssimo papel de mediadores activos do nosso Património, ajudando os visitantes a compreenderem melhor o lugar onde estão.
A grande novidade deste ano é a inclusão da Ermida de Nª Srª da Purificação, do Sirol., um espaço pouco conhecido dos torrienses. A partir de 1 de Abril, estará aberto todos os dias, excepto Segunda feira, das 10h. às 13h. e das 14h. às 17h.
Aqui ficam algumas imagens daquele monumento, classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1967, bem como a página PATRIMÓNIOS no Badaladas de 26 de Junho de 2020.
(Fotos de Joaquim Moedas Duarte)















Inscrição na pedra de fecho do arco que dá entrada para a galil





tras pessoas

03 março 2022

HISTÓRIA DE UMA IMAGEM - Nª SRª DOS ANJOS, CARVALHAL - Página PATRIMÓNIOS - 25 FEVEREIRO 2022


Nª Srª DOS ANJOS, DO CARVALHAL

HISTÓRIA DE UMA IMAGEM

Joaquim Moedas Duarte (texto e fotos)

 

Em Abril do ano passado, nesta página PATRIMÓNIOS, falámos de um “hospital de bens culturais” chamado “Salvaguardar”, a propósito da imagem de Nossa Senhora dos Anjos que para ali fora levada, a fim de ser restaurada. Soubemos, há umas semanas, que a imagem regressara à capela do Carvalhal, freguesia do Turcifal. Lá a fomos ver, na companhia do Padre Paulo, a quem felicitámos pela iniciativa, felicitação extensiva à comunidade local e à Câmara Municipal de Torres Vedras que contribuíram com donativos.

A repetida referência a esta imagem, na página sobre o nosso Património, parece-nos relevante na perspectiva histórica, artística e patrimonial. Uma imagem, uma igreja, um túmulo e tantos outros bens materiais são testemunhos do Tempo que passou, habitado por gerações sucessivas. São memórias que dão espessura ao nosso próprio Tempo, que lhe conferem identidade cultural e nos ajudam a compreender a nossa forma de habitar o mundo como comunidade humana.

Esta imagem desafia-nos a entender o percurso histórico que a trouxe até aqui. É o que vamos tentar. 

DÁDIVA DA INFANTA DONA MARIA (1521 – 1577)[1]

Torres Vedras foi pertença de rainhas e princesas portuguesas nos tempos da primeira e segunda dinastias. No terceiro quartel do século XVI era donatária a infanta D. Maria,  filha do rei D. Manuel I e da sua terceira consorte, D. Leonor de Áustria, irmã do imperador Carlos V. Em rigor, era “senhoria donatária dos direitos reais”, de que usufruía por mercê régia. Filha do mais rico monarca da época e da rainha originária dos poderosos Habsburgos, a infanta D. Maria era senhora de uma enorme fortuna. Além de Torres Vedras, possuía também Viseu, que acumulava com privilégios e rendas de proveniência diversa. Em tempos de ausência de Estado como entidade propiciadora de financiamentos às comunidades locais, eram os donatários que acorriam aos pedidos das populações para suprir carências e necessidades. Foi assim que a Infanta D. Maria financiou a obra urgente de restauro do Chafariz dos Canos, como o atesta a lápide que encima o arco central, com a data de 1561.

Vivendo em pleno lançamento da Contra-Reforma, – de que foi, juntamente com seu irmão D. João III, pertinaz defensora – esta Infanta aplicou grande parte da sua fortuna no estabelecimento e financiamento de instituições religiosas católicas – conventos, paróquias, igrejas – e apoios a órfãos, viúvas e carenciados, num tempo em que só a caridade cristã e o mutualismo corporativo supriam a inexistência de apoios sociais. Nesta linha, ela fundou, em1570, o convento de Nossa Senhora dos Anjos, no lugar do Barro, destinado a frades franciscanos arrábidos. A história deste convento é longa e dela pouco diremos. Interessa-nos, para já, a imagem da sua padroeira, de que falámos no início deste texto. Um opúsculo, publicado em 1910, que se baseia em informações do cronista dos Arrábidos,  Frei António da Piedade (1728), relata assim: “(a Igreja) foi dedicada a Nª Srª dos Anjos, título de que era sobremaneira devota a dita infanta D. Maria, que a essa conta ordenou que o mais perito escultor que então houvesse em Lisboa fizesse com todo o primor da arte uma imagem de Nª Srª, a que servisse de trono uma nuvem de anjos e serafins, que a inculcasse como rainha e soberana de todos”.[2]

Segundo o investigador Ruy Ventura, o autor mais provável desta obra terá sido o flamengo Estácio Matias, a quem a infanta encomendou também outras imagens.

A imagem que hoje conhecemos parece diferente da original. Eis o que diz o cronista jesuíta que a viu em 1860 e a descreve em 1910: “A imagem é de talha, de madeira, e de tamanho natural, em proporções de uma mulher de estatura regular (…), de excelente escultura, estofada e com as mãos postas levantadas à altura do pescoço, mas mais para o lado esquerdo, e acompanhada de dois anjos, que de uma e outra parte mostram voarem com ela ao céu”. Logo de seguida, acrescenta: “Infelizmente, porém, houve quem se lembrasse de mandar, seguramente com boa intenção, aguarentar a roupagem da senhora, tirar-lhe o manto esculturado que tinha e era de boa talha, assim como a peanha, em que lhe servia de trono uma nuvem de anjos e serafins(…). De modo que ficou a imagem em corpo, não se podendo já expor em público, se não vestida de manto postiço, que se lhe põe quando se coloca no camarim (tribuna do altar-mor)”. Desconsoladamente, o padre jesuíta comenta: “A imagem não é da Senhora dos Anjos que aqui conhecemos em 1860 e que a infanta D. Maria mandara com tanto empenho fazer em Lisboa com o possível primor. Se ao menos uma reprodução fotográfica nos tivesse ficado dela! Mas nem disso houve lembrança.”

Quer dizer: aquela é uma imagem truncada, desapossada dos acessórios que lhe conferiam imponência e majestade. De facto, foi essa a impressão que tivemos, quando a vimos há dias, e que o cronista tão bem expressou com aquela frase: “imagem em corpo, não se podendo já expor em público, se não vestida de manto postiço”. Não podemos concluir que a imagem actual não seja a que foi mandada fazer pela infanta dona Maria, mas a verdade é que a eliminação do manto de madeira e dos anjos a tornaram diferente aos olhos de quem a admirara completa. Também é esse o entendimento das comissões de festas do Carvalhal, como verificámos, em 2014, nos preparativos da procissão da festa anual, em 15 de Agosto. A foto mostra a imagem num andor com pequenos anjos aos seus pés, e um manto em tecido que quase a tapa por completo.



VICISSITUDES DO CONVENTO DO BARRO

 história desta imagem cruza-se, naturalmente, com a própria história do convento do Barro. História secular, marcada por guerras, convulsões políticas, desgastes naturais das tempestades e dos terramotos. O pequeno edifício inicial de 1572, não resistiu às intempéries e foi necessário reconstrui-lo em 1619.[3] O terramoto de 1755 provocou estragos assinaláveis. Em 1834, com a extinção das Ordens Religiosas, o Convento do Barro foi nacionalizado e vendido em hasta pública. Alguém providenciou para que a imagem de Nª Srª dos Anjos fosse trazida para a Igreja de S. Pedro, em Torres Vedras. O novo proprietário deixou o edifício ao abandono até que, em 1857, o vendeu ao Marquês de Valada, cuja família tinha profundas ligações afectivas ao convento. Três anos depois, este cedeu-o, a pedido, aos Jesuítas que, depois de algumas obras urgentes, ali instalaram um colégio de órfãos e o noviciado da Companhia. Em 1860 o convento do Barro foi reaberto e a imagem da Virgem dos Anjos regressou à sua igreja. Em 1910, com a implantação da República, os Jesuítas foram expulsos do convento e a imagem, por devota precaução, foi levada para a capela do Carvalhal, onde se conserva até hoje. Em 1914, o convento do Barro passou a ser o Asilo Elias Garcia, até 1952, e, um ano depois transformou-se no Instituto do Bom Pastor para crianças, idosos e doentes mentais, dirigido por Irmãs Religiosas do Bom Pastor. Em Julho de 1953, esta instituição abandonou as instalações, devido ao precário estado de conservação, as quais passaram para o Ministério do Interior que, depois de grandes obras de adaptação, as entregou, em 1956, ao Instituto de Assistência Nacional aos Tuberculosos que aqui instalou um sanatório.

Por que motivo a imagem foi para a capela de Nª Srª da Quietação do Carvalhal, em 1910? O opúsculo do P. A. Cordeiro, que atrás citámos, invoca uma referência do Santuário Mariano, de Frei Agostinho de Santa Maria, na qual se recorda a devoção dos habitantes do Carvalhal a uma imagem de Nª Srª que estava no Barro e à qual deram o título de Senhora da Saúde. Hipótese a estudar. Seja como for, é a comunidade cristã do Carvalhal que guarda, preserva e venera a secular imagem que atravessou os séculos e chegou até nós com a invocação de Nª Srª dos Anjos, dádiva de uma infanta real no século XVI.



[1] Seguimos de perto as abundantes e rigorosas informações de: D. Maria (1521-1577): uma infanta no Portugal de quinhentos, Paulo Drumond Braga, Edições Colibri e Câmara Municipal de Torres Vedras, Lisboa 2012; A Infanta Dona Maria de Portugal(1521-1577). O Mecenato de uma Princesa Renascentista, Carla Alferes Pinto, Lisboa, Fundação Oriente, 1998.

[2] Cf.: P. António da Costa Cordeiro S.J., Jubileu do Collegio do Barro (1860-1910) – Notícia histórica da sua fundação e ministérios até o anno presente, Braga, 1910.

[3] Cf.: Anotadores do livro de Manuel Agostinho Madeira Torres, Descrição histórica e económica  da vila e termo de Torres Vedras, 2º Ed., Coimbra, 1862, p. 141 e seguintes.



Capela do Carvalhal (Freg. Turcifal, concelho de Torres Vedras)




28 janeiro 2022

LOJAS COM HISTÓRIA - Página PATRIMÓNIOS - 28 JANEIRO 2022

 

Lojas com História

Pedro Fiéis⁕

 

Os monumentos são naturalmente o espelho maior da história de uma cidade, no entanto, atualmente o Património embrenha-se por outras vertentes que o tornam mais abrangente. Não é meramente manter vivo o passado, ou sequer agarrarmo-nos à ideia do antigamente, é sim projetar uma identidade para o futuro, recolher memórias daquilo que fomos, para que gerações futuras conheçam de onde vêm. A necessidade de uma identidade própria advêm de um mundo global em que vivemos e de uma economia demasiado alicerçada no turismo, tendo a sua massificação alterado de vez a face dos Centros Históricos. O espaço urbano transforma-se fruto das necessidades contemporâneas e novas centralidades são criadas, mas, simultaneamente, não se pode pretender ter o velho casario apenas como cenário teatral, é necessário devolver-lhe vida, ou assistir impávidos à sua ruína.

Assim, o projeto “Lojas com História” surgiu em Lisboa, em fevereiro de 2015, dada a premente necessidade de salvaguardar esse símbolo urbano irrepetível e de o dinamizar face à concorrência e fatores de atração das grandes superfícies. Tratava-se de proteger todo esse importante tecido económico da especulação imobiliária e, ao mesmo tempo, divulgar o extenso património, com uma história igualmente única, de atividades artesanais que dificilmente ressurgem num panorama de marcas internacionais e de produtos descartáveis.

Uma estagnação em décadas recentes levou ao lento declínio de muitos, uns fruto de uma obsolescência da qual não souberam sair, outros porque a concorrência das tais marcas internacionais era demasiado forte para lhe poderem resistir, perdendo-se desta forma toda uma importantíssima herança e, principalmente, uma memória afetiva que intrinsecamente nos ligava a tais locais. A muitos surgirá de imediato a lembrança de um local, seja pelo que lá se vendia, seja pelos cheiros ou até pelo peculiar mobiliário.

Vivemos, repito, num planeta em profunda transformação, daí o programa anunciar no preâmbulo a necessidade de “preservar e salvaguardar os estabelecimentos e o seu património material, histórico e cultural” e por outro lado, “dinamizar e reativar a atividade comercial, essencial para a sua existência”, ou seja, não é somente manter artificialmente uma loja, é dar-lhe uma perspetiva de futuro assente no seu passado.

Um passo fundamental foi a Lei n.º 42/2017, de 14 de junho. Pegando naquilo que já era o trabalho de base feito em Lisboa, ficou consagrada, por exemplo, a proteção no arrendamento por um período transitório de dez anos, a isenção de IMI para os proprietários ou a dedução em sede de IRS de despesas com obras de conservação, acrescidas de 10% do valor gasto.

Por ser uma das entidades reconhecidas por esta lei como podendo iniciar o processo de classificação, desde há algum tempo que a Associação Defesa do Património vem a realizar um levantamento deste comércio de rua, ícone daquilo que outrora foi uma das grandes atividades económicas da urbe, marca da ruralidade do território, miscelânea de repositórios, onde tudo se vendia, onde para tudo havia um conselho amigo, sabedoria que se transmitia a cada cliente.

Muito já se perdeu, outro tanto corre o perigo de desaparecer, esse pouco que resta é crucial defender. Numa parceria com a OesteCim e a Câmara Municipal, foram selecionados três espaços que cumprem largamente os pressupostos contidos na lei, como linha de frente para futuras adesões, nomeadamente terem mais de 25 anos de existência, o significado para a história comercial da cidade, ou a salvaguarda e divulgação de acervo e espólio próprio.

Esta é uma corrida contra o tempo, assim estamos cientes, ao mesmo tempo esperançosos, pois se for cumprido o prometido apoio de modernização administrativa, ao nível de obras e uma boa divulgação, com roteiros somente ligados a este tipo de comércio, acreditamos que poderão ter futuro, quer relacionado com as novas gerações, quer com o dito turista, continuando com a venda de produtos únicos, de uso atual, marcas que cumprem as regras da produção local e da sustentabilidade, todo um novo paradigma que nos tem de nortear.

Será este, assim se espera, um primeiro passo que motive outros proprietários a aderirem. Brevemente também as Juntas de Freguesia, bem como outras Associações locais com um importante papel nas aldeias, serão igualmente chamadas a motivarem novas candidaturas, com a ressalva de – o que não funciona, dificilmente encontrar neste programa uma boia de salvação.

Pode-se consultar online a página: https://www.comerciocomhistoria.gov.pt/, com informações variadas, incluindo a legislação, faltando ainda a criação de um dos grandes pressupostos do programa, o Inventário Nacional Comércio com História, mais uma importante ferramenta na sua divulgação. Não abandonemos este Património relevante.

 

⁕ Presidente da Direcção

da Associação para a Defesa e Divulgação

do Património Cultural de Torres Vedras

 

 





 

 













 

AINDA O CASTELO - Página PATRIMÓNIOS | 17 Dezembro 2021

 


Em 3 de Dezembro de 2021, o Badaladas publicou uma página com um artigo de opinião, da autoria de João Pedro Canário, que contestava o teor dos artigos sobre o Castelo que a Associação do Património publicara nos dias 6 e 26 de Novembro de 2021:


...................

A nossa resposta foi publicada em 17 de Dezembro de 2021:


            AINDA O CASTELO

RESPOSTA A UM FAZEDOR DE OPINIÃO

 

Na edição do Badaladas de 3 de Dezembro p.p. entendeu o sr. João Pedro Canário Lucas (JPCL) – que a si mesmo se intitula opinion maker na sua página pública do facebook – opinar sobre o Castelo de Torres Vedras, em resposta aos dois textos por nós publicados sobre o mesmo tema, na página “Patrimónios”, em 5 e 26 de Novembro.

É seu direito cívico. Se o sabe usar bem, é o que veremos.

O jovem articulista parece não ter entendido a nossa intenção, expressa logo no início – em que dizíamos não pretender “contestar, antes contribuir para uma reflexão mais sustentada e informada acerca do mais visível monumento torriense” – e assumiu uma atitude de confrontação, acusando-nos de amordaçar o debate sobre o Castelo e termos como objectivo “silenciar opiniões diferentes e trancar a sete chaves este assunto para sempre”.  Reforça a acusação dizendo que “nos julgamos donos da verdade” e ocultamos “propositadamente” algo que ele anuncia, triunfalmente, como a solução irrefutável para a reconstrução do Castelo. Empolgado, culmina a acusação atribuindo-nos uma mentira – que ele vem desmascarar em nome da sua verdade.

Repudiamos a insolência com veemência enérgica – mas pedagógica paciência. Bem sabemos que os verdes anos sempre foram causa de intervenções impetuosas, marcadas pela luz ofuscante da ilusão. Faz parte do crescimento e, não raro, trazem para o todo social a generosidade de ideais que os mais velhos, por vezes, tendem a menosprezar. Tudo isso sabemos e bem gostaríamos de saudar o jovem João Pedro como alguém que percebeu que os dois artigos escritos por nós sobre o Castelo não eram um dogma, antes o pontapé de saída para o necessário debate que ele se abalançava a retomar. Mas não foi isso que fez. O teor do seu texto mostra que optou por mascarar a incompreensão do que leu com ataques despropositados. Releia o sr. JPCL o que escreveu e reconheça, com humildade que se excedeu, foi longe de mais. Tantas certezas opinativas só o descredibilizam e tornam inútil o que podia ser um contributo culturalmente válido.

Vejamos mais de perto.

O articulista, após dissertar sobre a notoriedade do monumento e a sua carga identitária para os torrienses – um ex- Libris que não brilha – e de lamentar o estado de ruína e abandono, por falta de visão, lança-se com denodado entusiamo à exortação da ideia da reconstrução do castelo, através de uma requalificação ambiciosa, que assim se constituiria como referência a nível nacional, polo de atracção capaz de abrir Torres Vedras ao mundo (sic). E, para que não se fique no abstrato, adianta que aquele sítio representa um palco único, para eventos, concertos e actividades culturais (feiras medievais, recriações históricas) devolvendo-o à cidade. Cita exemplos de outros castelos requalificados –  Leiria e Ourém – revelando completo desconhecimento dos respectivos historiais de conservação e reconstrução – e acenando com o recurso aos fundos europeus para este investimento estratégico. Na sua prosa torrencial proclama que é urgente dar voz aos torrienses, através de inquérito, concurso de ideias, onde o debate não pode continuar amordaçado!

A GRANDE CONFUSÃO

O ponto essencial da discórdia que parece motivar o empolgado texto de J.P. Canário Lucas, reside na nossa afirmação de que não existem dados suficientes para se proceder a uma reconstituição credível do nosso castelo. E baseia a sua crença na visualização de um vídeo produzido para a Câmara Municipal como parte da exposição didáctica que integra o Centro Interpretativo do Torreão do Castelo, inaugurado em 2013.

Esse vídeo – tecnicamente bem produzido por uma empresa torriense (Slingshot) – tem conteúdos cujos autores são pessoas bem nossas conhecidas: Carlos Cunha (infelizmente falecido recentemente) e Isabel de Luna – um e outro, associados da ADDPCTV –, com a participação do arq. Jorge Martins, autor dos desenhos. Esta equipa trabalhou vários anos na investigação da História do Castelo. Acompanhámos esse percurso, fomos dos primeiros a ver o documentário e a felicitar os autores sobre o seu estudo e a proposta do que terá sido a configuração do Paço dos Alcaides, construído no início do século XVI, pelo alcaide da vila. Estudo esse que se baseou no cruzamento de dados arqueológicos – as ruínas ainda visíveis no terreno – com alguma, escassa, informação escrita e com as características de outros edifícios coevos, obras de Francisco Arruda,  a saber: o castelo de Évora-Monte e o paço do castelo de Vila Viçosa (não confundir com o grande Paço Ducal dos Duques de Bragança). Trabalho complexo, que envolveu muita pesquisa documental, conhecimento das tendências da arquitectura militar da época e das pedras restantes do castelo. Isto porque o referido paço foi construído numa fase de transição estilística, na passagem do século XV para o XVI, conjugando as funções de residência nobre com as novidades da arquitectura militar oriundas da Itália renascentista.                                                   

Mas, não obstante a qualidade desta interpretação, bem sustentada do ponto de vista histórico, ela não deixa de ser uma proposta, dadas as dificuldades de leitura do conjunto arruinado, destinada a dar noção aproximada aos visitantes de como seria o Paço na sua origem,. 

Sublinhamos: aquele vídeo de dez minutos constitui uma leitura plausível das ruínas e dos escassos documentos existentes, baseando-se na metodologia historiográfica da articulação de "sinais indiciários". Não é um documento histórico. É uma hipótese de trabalho, uma proposta visual a partir desses sinais. Faz conjecturas, suposições. As quais, transpostas para o desenho, parecem atestar uma “verdade” – que ninguém sabe, insofismavelmente, qual seja. Não somos nós que o dizemos, é a realidade das coisas que o impõe. Muitos aspectos arquitectónicos permanecem por esclarecer. Tudo o que se refere à parte superior do edifício – a platibanda ameada, a localização de alguns vãos, a pendente dos telhados, as chaminés, etc.– é completamente desconhecido. E isto para não falar da própria estrutura do edifício quanto às suas funções de habitação, com instalação da respectiva criadagem, guarnição militar, etc. E há que ter em conta que aquilo que restou e se encontra visível corresponderá, grosso modo, a apenas cerca de uma quarta parte do edificado. O que quer dizer que teríamos que inventar, e inventar muito, caso houvesse a intenção de reconstruir. E será que valeria a pena? É uma questão para debates futuros. Cá estaremos para participar, como sempre.

CONCLUINDO

Sr. João Pedro Canário Lucas: mantemos que não existem elementos documentais anteriores ao terramoto que possam sustentar, nem de longe, uma reconstituição historicamente credível do Paço dos Alcaides.

 

 


A gravura que ilustra este texto, de meados do séc. XIX, – provavelmente uma das mais antigas que se conhecem –mostra como muitas outras, o castelo arruinado, quase como o vemos hoje. Não são conhecidas plantas nem alçados, nem gravuras, anteriores ao terramoto de 1755 e às Linhas de Torres.

Lamentamos a deserção para Espanha do último alcaide Alarcão, em 1640, deixando o castelo ao abandono. Como temos pena do incêndio no edifício da Câmara, no séc. XVIII, que destruiu parte significativa dos documentos históricos. Deploramos o grande terramoto, assim como as invasões napoleónicas. Lastimamos as lutas civis em meados do século XIX. Reprovamos, mas compreendemos, que alguns dos nossos antepassados tenham roubado pedras do castelo para construir as suas casas. Tudo isso contribuiu, cumulativamente, para a realidade actual do nosso Castelo. Mas, sabe? Faz parte da nossa História.

DEBATES PÚBLICOS?

Debates, “discussão (verdadeiramente) pública”, preconiza JPCL. Andamos há anos a pugnar por isso. Desde 1979 realizamos sessões públicas e exposições sobre o nosso Património, sempre públicas, anunciadas no Badaladas e nas redes sociais. Convidamos todos os anos os torrienses para o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios (Abril) e para as Jornadas Europeias do Património (Setembro), incitando-os a participarem em iniciativas organizadas por nós. Fizemos nosso o lema de que “a melhor forma de defender e preservar o Património é conhecê-lo melhor” – como é que alguém se atreve a insinuar que escondemos, amordaçamos, criamos tabus, queremos silenciar opiniões?

Bem gostaríamos de contar com João Pedro Canário Lucas para renovar esta porfia e rejuvenescer as linhas deste combate. Porém, pela amostra, temos dúvidas. Cabe-lhe provar que estamos errados.

 

José Pedro Sobreiro | Joaquim Moedas Duarte

(Membros da Direcção

da Associação para a Defesa e Duvulgação

do Património Cultural de Torres Vedras)

 



 

 


26 janeiro 2022

CASTELO DE TORRES | (2ª PARTE) | Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS, 26 Novembro 2021

 

CASTELO DE TORRES – RECONSTRUIR OU CONSERVAR?

(2ª parte)

José Pedro Sobreiro | Joaquim Moedas Duarte

 

Na primeira parte, publicada em 5 de Novembro corrente, fez-se uma brevíssima resenha da História do Castelo de Torres Vedras e a referência a um projecto de construção de uma Pousada. Nesta segunda parte, recordamos as mais recentes intervenções naquele espaço.

O Castelo sempre esteve no centro das preocupações da Associação do Património. A primeira acção de alerta, no ano da fundação, 1979, consistiu em solicitar a intervenção urgente da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais na reparação do troço do lado nascente da muralha, que tinha desabado no inverno desse ano, e foi prontamente reconstruída.

Por esta altura, e por iniciativa do Pe J Manuel da Silva, primeiro presidente da Associação, a Igreja de Santa Maria foi reaberta ao culto, numa tentativa de reanimação social do bairro do castelo.

Campanha arqueológica

A partir de 1984, implementámos uma campanha arqueológica no recinto da muralha sul, inicialmente por conta própria, mas com a supervisão e aconselhamento do Sr Leonel Trindade que indicou a área a investigar e que ia acompanhando os trabalhos, apesar da sua avançada idade. No ano seguinte os trabalhos prosseguiram, dirigidos pelo arqueólogo Clementino Amaro, sob tutela do Instituto Português do Património Cultural e continuaram até 1990, tendo a Associação do Património de Torres Vedras o encargo de toda a logística com a colaboração activa do sector de Cultura e Turismo da Câmara Municipal. Destaque para o papel crucial do Carlos Cunha – grande patrimonialista, um dos fundadores da nossa Associação, falecido em 2018.

Nesses trabalhos encontraram-se algumas estruturas de casas, e muitas sepulturas com os respectivos esqueletos, os quais foram enviados para o Instituto de Antropologia de Coimbra, para estudo.  Também foram encontradas mais algumas estelas discoides, medievais, que vieram a engrossar o já apreciável número de exemplares da colecção de cabeceiras de sepultura de Torres Vedras.

Castelo de Música

No seguimento dos trabalhos do Plano de Salvaguarda do Centro Histórico, a cargo do então criado Gabinete Técnico Local (GTL), a Câmara Municipal lançou em 1988 o Castelo de Música, evento que procurava dinamizar o espaço monumental como polo de atracção cultural através de espectáculos musicais de carácter popular. Foi construído um palco, em tijolo, no interior do recinto do paço – que considerámos uma intrusão desaconselhável, mas justificada pela intenção de dar vida àquele espaço.  Durante três ou quatro anos, no mês de Junho, realizaram-se festivais de música, de teatro e de dança, mas dificuldades de logística dos serviços e contrariedades climatéricas levaram à sua interrupção. A ingrata topografia do lugar – desníveis severos de terreno, estreiteza de acessos, falta de infraestruturas de apoio – dificultava em extremo os trabalhos de produção e afastava os espectadores, pouco dispostos a escalarem a colina do Castelo.

No ano inicial, foi realizada pelo GTL no interior do torreão, então restaurado, uma exposição com a colaboração da Associação em que se divulgava o Plano de Salvaguarda e, a nosso cargo, se apresentavam materiais das escavações e alguns tópicos sobre a história do castelo. Apesar de ser entendido como uma iniciativa louvável, no sentido de integrar o velho monumento na vida sociocultural da cidade, a realização do Castelo de Música alertou-nos também para a desadequação destas práticas para a preservação do monumento, com as inevitáveis agressões provocadas quer pela instalação de equipamentos e materiais não compatíveis, quer pela pressão de grande número de público sobre as estruturas frágeis do Paço.

Uma iniciativa positiva foi a instalação de iluminação monumental do Castelo, levada a cabo pela EDP, que veio sublinhar o valor referencial deste monumento nas noites de Torres Vedras. A Associação do Património interveio nesta acção, com a sugestão dos pontos fortes a iluminar.

Nos anos 90, todo o recinto foi objecto de diversos projectos de melhoramento. Alguns ignoravam as reais condições de acesso que as tornaram impraticáveis, outros concretizaram-se, contribuindo para melhor fruição daquele lugar de memória: placas informativas, protecções junto às escadinhas do torreão e em redor das cisternas romanas, espaços mais cuidados e limpos.

 



Cisternas com protecção e painel informativo
 

Simultaneamente, o programa ISA – Património, criado pela Câmara Municipal há 16 anos, passou a permitir que a Igreja de Santa Maria do Castelo esteja aberta ao público todos os dias, de manhã e de tarde, excepto à Segunda-feira. Note-se, ainda, que desde há uns anos, celebram-se, nesta igreja, cerimónias do rito católico ortodoxo, muito frequentadas por imigrantes do Leste europeu, abertas a quem desejar participar.

Muita gente desconhece que o Castelo de Torres Vedras é o monumento mais visitado na cidade. A criação, em 2013, do Centro Interpretativo no torreão, disponibilizou um oportuno espaço de acolhimento e informação, com espólio arqueológico e um pequeno filme que elucidam os visitantes sobre o lugar onde estão. Pode dizer-se que o Castelo de Torres Vedras tem hoje condições de visita como nunca conheceu antes.

Alertas

 Apesar do que foi dito, o Castelo precisa de atenção constante. Trata-se de uma ruína, frágil por natureza, pois as pedras e as argamassas vão-se desgastando com o tempo. Uma ruína que nos é cara pois que sintetiza como nenhum outro monumento a própria história da cidade. Por isso há que conservá-lo como elemento essencial da nossa identidade.

A Associação do Património tem manifestado com frequência a sua preocupação relativamente a alguns sinais de degradação do monumento, de que o memorando apresentado à Câmara Municipal em Junho de 2018 é um exemplo. Talvez tenhamos contribuído, de algum modo, para a constituição de uma equipa municipal de monitorização que tem visitado aquele monumento com o intuito de proceder às intervenções necessárias. Nesta linha, aplaudimos a constituição do grupo de trabalho Horizonte 26, criado no âmbito da Rede Cultura que abrange 26 municípios parceiros da candidatura de Leiria a Capital Europeia de Cultura. A sua actuação será orientada pelos conceitos de identidade, cuidar e horizonte e o objectivo principal é olhar pelo património edificado ligado à defesa dos territórios e à sinalização da costa marítima. O nosso Castelo deve constar da lista, necessariamente. Ele precisa de cuidados urgentes, como podemos observar na porta do Paço dos Alcaides e na do torreão. A falta de blocos de pedra ou a deterioração das existentes põe em risco toda a estrutura. Extensas faltas de argamassas levam à fragilização dos muros devido às infiltrações da água das chuvas e à queda frequente de blocos.

O Castelo de Torres Vedras é a imagem histórica que tantas gerações se habituaram a olhar – a velha igreja de duas torres encostada às ruínas do palácio e ao torreão manuelino – poderoso ícone simbólico da identidade torriense. Há que preservá-lo como ele está, sem acrescentos nem atavios despropositados, cuidando da sua saúde para que, tal como nós, as gerações futuras o continuem a admirar e a venerar.

 

Porta do Paço dos Alcaides: falta de blocos ameaça toda a estrutura

 





Porta do terraço do torreão: bem visível a erosão da pedra

(Fotos J. Moedas Duarte)


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31 dezembro 2021

CASTELO DE TORRES – (1ª parte) Página PATRIMÓNIOS no BADALADAS, 5 Novembro 2021

 

CASTELO DE TORRES – RECONSTRUIR OU CONSERVAR? (1ª parte)

José Pedro Sobreiro | Joaquim Moedas Duarte



Na campanha para as recentes eleições autárquicas, o tema do “Castelo de Torres Vedras” foi abordado por algumas forças políticas. A ideia essencial era de que aquelas ruínas estavam abandonadas e esquecidas, havia que recuperá-las e procurar ideias criativas para o seu uso.

Não há nada de reprovável nisto, antes pelo contrário, revela preocupação com o nosso Património construído e o desejo de o ver valorizado – ideias que compartilhamos.

A abordagem que aqui fazemos não pretende contestar, antes contribuir para uma reflexão mais sustentada e informada acerca do mais visível monumento torriense, aquela silhueta única que todos os dias atrai o nosso olhar, quando caminhamos nas ruas da velha urbe. Santa Maria do Castelo, o torreão e as paredes do palácio dos alcaides – que impropriamente chamamos de “castelo” – são a marca de muitos séculos e das gerações que nos precederam.

 

 



LONGA HISTÓRIA

Na região de Torres Vedras, durante a Pré-História, fixaram-se numerosos núcleos de população agro-pastoril, que viviam em castros, pequenos povoados no cimo dos montes. A  colina onde hoje assenta o nosso Castelo terá sido ocupada por um desses castros. A orografia do lugar permite defesa eficaz e garante abastecimento de água, que lhe corre no sopé. Posteriormente, todos os povos que o correr da História trouxe à Península Ibérica ocuparam aquele monte, tanto mais que a sua encosta sul, de pendente mais suave e voltada ao sol, convidava à fixação humana. Com a ocupação romana no século II a.C., os povos primitivos foram subjugados. Seis séculos depois, seria a ocupação romana a extinguir-se, com a chegada dos Suevos e Visigodos, também estes substituídos pela ocupação árabe a partir do início do séc. VIII. A colina fortificada viria a cair na posse dos reconquistadores cristãos no tempo de D. Afonso Henriques, já em pleno século XII e, com este, a integrar o novo reino de Portugal. Os primeiros reis sediavam-se na alcáçova, quando por aqui passavam, substituindo-a, nos finais do séc. XIII, por um Paço mais abaixo, já fora da cerca castelar.

No tempo de D. Manuel I, reconstruiu-se a muralha da cerca defensiva do morro e erigiu-se a nova fortaleza que se tornou a residência dos Soares Alarcão, família que deteve a alcaidaria da vila por várias gerações, abandonando o Paço do Patim, onde anteriormente residia. Para além da defesa militar, a fortaleza passou a ter função residencial, daí chamar-se Paço dos Alcaides à parte superior do castelo. Tratava-se então de uma residência senhorial, construída sobre as paredes de uma anterior construção – um castelejo medieval, com a sua torre de menagem, do qual nada se sabe. O novo edifício foi adaptado às funções residenciais da nobreza, que na época procurava já um certo tipo de conforto e uma afirmação de poder pela ostentação. Daí os grandes janelões com conversadeiras que, vistos cá de baixo, parecem ameias. Sabemos, por um documento do séc. XVII, que o Paço tinha imponência, mas, infelizmente, não chegou até nós nenhuma imagem. O que dele resta – as quatro paredes e, sobretudo, o grande torreão com uma silhueta única que não se parece com mais nenhuma do país – marca a transição do castelo do tipo medieval para uma fortaleza renascentista, caracterizada por novas formas de lidar com a prática da pirobalística. Em Portugal conhecem-se apenas os casos do castelo de Évora Monte e Vila Viçosa, atribuídos a Francisco de Arruda que projectou, antes destes, o Paço do castelo de Torres Vedras, no início do séc. XVI.

Foi esta construção que o terramoto de 1755 arruinou e que nunca mais foi reconstruída. Em 1810, o castelo foi utilizado como base de canhoneiras, durante as invasões francesas, o que exigiu grandes alterações na estrutura das muralhas – na parte norte foram retiradas as ameias – para o adaptar ao tipo de artilharia pesada praticada no séc XIX. Em 1846, num episódio de guerra civil, foi lugar de acampamento militar com duas bocas de artilharia. Posteriormente, aquele morro perdeu relevância militar e centralidade cívica. A decadência e o abandono acentuaram-se. Muitas das suas pedras foram retiradas pela população para construção das casas próximas – o que levou a Câmara Municipal, por várias vezes, a publicar editais a proibir tal prática.

Durante a primeira metade do séc. XX o castelo sofreu algumas intervenções, como a abertura de um fosso ligado a uma das cisternas, para abastecimento de água à vila, de que a abertura rasgada a meio da vertente leste do morro que sustenta o paço é testemunho. Mais tarde, também se procedeu ao preenchimento de grandes vazios em partes da parede do paço, a norte e a leste. Esta última apresentava uma abertura larga que permitia ver os jogos do Torriense ao domingo. De resto, o castelo servia de palco às brincadeiras dos catraios e aos acampamentos da Mocidade Portuguesa, no 28 de Maio.

Por alturas de meados do mesmo século e sob o ímpeto comemorativo dos centenários, o então presidente da Câmara, Rogério de Figueiroa Rego, decidiu, sem qualquer base histórica, mandar reconstruir as ameias do torreão, e lá colocar um enorme brasão de Torres, com lâmpadas eléctricas, que ali permaneceu durante muitos anos. É ainda desta época a plantação de arvoredo na encosta norte do morro, com a finalidade de segurar as terras e embelezar o monumento – acabando esta última intenção por ter efeito contrário, pois ocultou-o da nossa vista.

 

UMA POUSADA NO CASTELO?

Nos primeiros tempos da Associação do Património, – início dos anos 80 – era frequente alguém perguntar porque é que ela não elegia a reconstrução do Paço do castelo como uma das suas prioridades. A resposta tinha de ser, invariavelmente, que não se sabia como ele era na sua origem. Todos gostaríamos de ter um Castelo inteiro e bem conservado na nossa terra, mas a dedicação à causa do património tem, como premissa básica, o respeito pela verdade histórica e a rejeição de fantasias.

Cabe aqui lembrar o episódio da “pousada “nos anos 80 do século passado. O vereador da cultura e turismo de então, António Carneiro, um dos fundadores desta Associação, propôs-se eleger como um dos objectivos da sua acção a construção de uma pousada no Castelo de Torres Vedras, ideia que logo granjeou entusiasmo junto de alguns torrienses. A Direcção da Associação  decidiu alertar o vereador para as dificuldades que se apresentavam: não se sabia como era o Paço e sendo assim, não seria razoável tal desiderato, a menos que se desrespeitasse a preocupação com o rigor, atitude necessária a estes empreendimentos.

Sabendo ouvir quem considerava ser conhecedor da História e das práticas responsáveis nesta matéria, António Carneiro solicitou à Direcção que agendasse um encontro com um responsável da Direção Geral de Turismo (DGT), que apoiava a ideia da pousada, a fim de lhe explicar as  objecções. Essa reunião ocorreu em Lisboa e nela participaram José Pedro Sobreiro e Carlos Cunha, a quem foram mostrados alguns estudos do respectivo anteprojeto (pois já estava nessa fase). Os desenhos apresentavam elementos medievalistas típicos – arcos ogivais, abóbadas de nervuras, etc. – sem qualquer ligação com os elementos construtivos visíveis no terreno. Não tinha sido feita a mínima pesquisa histórica e o que viram era um autêntico delírio de fantasia. Foi essa opinião que defenderam, com conhecimento de causa e argumentos ponderáveis. Decorrido algum tempo, veio a saber-se que a DGT tinha desistido do projecto da pousada. Para além da falta de sustentabilidade documental e histórica, terão contribuído para tal decisão factores físicos evidentes: a inexistência de uma segunda porta, vias estreitas e íngremes, e reduzido espaço exterior para estacionamento de veículos de acesso e de abastecimento. Uma unidade hoteleira, ou qualquer edifício de serviços, exigiria amplos espaços envolventes, além dos custos incomportáveis de infra-estruturas, de águas, saneamento e equipamentos imprescindíveis ao seu funcionamento. Os anos passaram. A consciência de que as condições turísticas actuais, em que a Pousada não é um equipamento de turismo de massas, antes pelo contrário, levou ao abandono da ideia que parecia ter viabilidade há trinta anos atrás.

Hoje, é plausível duvidar-se que a comunidade torriense aceite de bom grado a destruição da imagem histórica que tantas gerações se habituaram a olhar – a velha igreja de duas torres encostada às ruínas do palácio e ao torreão manuelino – venerável ícone simbólico da identidade torriense.

(2ª Parte a publicar em 26 de Novembro de 2021)