Publicado no BADALADAS em 15 agosto 2011
ERA UMA VEZ…UMA CASA
José Pedro Sobreiro *
Durante alguns meses assistimos, atónitos, ao espectáculo de ver a fachada de uma das mais antigas casas de Torres Vedras transformada num festival de berrantes arco-íris, aplicados a tinta de spray, qual muro de paisagem suburbana.
O espanto provinha, não por se tratar de iniciativa irreverente de publicitário ou de artista marginal, mas, pasme-se, de ser acção promovida pela Câmara Municipal!
As razões invocadas prendiam-se com a tentativa de chamar a atenção para “um Projecto” de animação cultural vocacionado para os mais pequenos e que dá pelo nome de “Casa das Histórias”.
Este projecto nasceu como solução para o problema que a CMTV tinha em mãos, devido a um acordo celebrado com o Dr. Jaime Umbelino, segundo o qual a Câmara ao adquirir o imóvel obrigar-se ia a nele instalar uma “Casa Museu”, com o espólio daquele ilustre literato.
Como tal objectivo não se conformasse com os actuais interesses da política cultural do município - o que até podemos compreender – aceita-se como razoável esta solução da Casa das Histórias, que se pretende constituir num veículo de transmissão da cultura literária e do seu imaginário, mantendo-se, ao fim e ao cabo, na esfera da acção e da memória do seu “doador”.
E aqui é que bate o ponto!
Se elegemos como objectivo educativo a transmissão de valores da cultura da tradicional não podemos, ao mesmo tempo, agredir outras manifestações dessa mesma cultura, dessa mesma tradição- entre eles o património arquitectónico.
Há que ser coerente e resistir à tentação do marketing político e do kitsch.
Neste momento, a pintura foi retirada e a fachada encontra-se limpa. No entanto, soubemos, pelo Boletim Municipal, que nova investida se prepara para breve. (1)
Aquela casa é, seguramente, uma das mais antigas da cidade, remontando ao início do século XIX, talvez até anterior, constituindo um valor patrimonial de per si, pelas caraterísticas tipológicas específicas de uma habitação oitocentista burguesa, não sumptuária (pena é que o seu interior esteja já um pouco adulterado). Mas pelo menos resistiu a sóbria fachada, com o seu desenho simétrico de bem definidas cantarias dos vãos, com o seu óculo característico de iluminação da escada.
Esse é o desenho da casa, a sua expressão própria, que não precisa de maquilhagem, para se tornar digna da nossa contemplação.
E isso é também um valor a transmitir.
É que nestas coisas de crianças nem tudo se deve levar a brincar.
* Membro da Direcção da Associação Para a Defesa e Divulgação do Património Cultural de Torres Vedras
(1) Diz o Boletim Municipal (setembro | outubro 2011, nº 4, p. 7):
«Ainda outro desafio lançado pela Fábrica das Histórias, mas para criadores, foi o Uma parede branca, que consistiu na apresentação de propostas de intervenção artística para a fachada da referida casa. 0 trabalho escolhido foi o de Marta Pereira, que será entretanto implementado. »